Líder sul-coreano afirmou que o coronavírus desapareceria; um erro que custou muito caro

Líder sul-coreano afirmou que o coronavírus desapareceria; um erro que custou muito caro

Vírus se propagou rapidamente e o País é hoje o maior foco da epidemia fora da China, com 2.022 casos

Choe Sang-Hun, The New York Times

28 de fevereiro de 2020 | 12h07

SEUL - Em 13 de fevereiro havia 28 casos de coronavírus na Coreia do Sul. Quatro dias depois, nenhuma infecção foi confirmada. O presidente Moon Jae-in afirmou, então, que a epidemia “desapareceria em breve” e o primeiro ministro garantiu à população que tudo estava bem e era desnecessário utilizar máscaras para sair às ruas.

Como veio a acontecer, o vírus se propagou rapidamente através de uma igreja em Daegu e desde então ele se multiplicou e o país é agora o maior foco da epidemia fora da China, com 2.022 casos e 13 mortes.

Agora o presidente enfrenta uma forte reação política à sua resposta uma vez que o número de casos continua a crescer - 505 novas infecções somente na terça-feira.

Políticos de oposição tiram partido do que consideram uma má condução da situação, uma vez que não foram adotadas medidas rápidas para fechar as fronteiras do país para a China e fornecer máscaras suficientes para a população. O vírus também vem intensificando a pressão sobre uma economia já debilitada que ficou ainda mais prejudicada com o forte declínio do comércio com a China, a maior parceira comercial da Coreia do Sul.

A oposição promete fazer da “incompetência” de Moon o principal tema de debate nas próximas eleições parlamentares de 15 de abril. E mais de um milhão de sul-coreanos assinaram petição pedindo o impeachment do presidente.

“Se a epidemia não arrefecer logo, isto será um desastre para os dirigentes atuais nas próximas eleições”, afirmou Ahn Byong-in, especialista político da Universidade de Kyung Hee, em Seul. A atual liderança de governo continua terrivelmente atrasada quanto às medidas a tomar, como adotá-las e de que maneira se comunicar com a população numa situação de pandemia como esta”, acrescentou.

As opões são difíceis para a Coreia do Sul. O vírus teve origem na China. Mas grande parte da economia sul-coreana depende da China. O governo de Moon relutou em fechar as portas para visitantes chineses mesmo quando 40 países adotaram esta medida, incluindo os Estados Unidos e a Coreia do Norte. A Coreia do Sul proibiu apenas a entrada de chineses vindos da província de Hubei, onde a epidemia começou.

Para o governo de Moon, proibir a entrada de pessoas vindas da China não teria “um benefício prático”. Para os críticos, esta posição contribuiu para propagar um patógeno extremamente infeccioso, afetando ainda mais as chances de uma recuperação econômica.

Um editorial no influente jornal conservador Chosun Ibo alertou na quarta-feira que o combate da epidemia sem proibir a entrada de visitantes chineses foi “como tentar afastar os mosquitos, mas deixar as janelas abertas”.

Os inimigos políticos de Moon há muito tempo acusam o presidente de ser pró-China e temer desafiar o líder chinês Xi Jinping. Em 20 de fevereiro, quando conversou com Xi pelo telefone, Moon disse que “as dificuldades da China são nossas próprias dificuldades”, de acordo com o seu gabinete.

Em quatro de fevereiro, o porta-voz de Moon, Kang Min-Seok, observou que nenhum visitante da China continental fora testado positivo desde que a Coreia do Sul intensificou a triagem de pessoas que chegavam desse país. E citou a diminuição de casos da doença na China, fora da província de Hubei.

Como se verificou posteriormente, membros da igreja Shincheonji, em Daegu, localizada na região sudeste da Coreia do Sul, começaram a desenvolver sintomas da doença nos dias 7 a 10 de fevereiro, antes de Moon afirmar que o pior já havia passado. Os membros da igreja participaram dos serviços no domingo, expectorando e espalhando o vírus enquanto os fiéis rezavam em voz alta e cantavam na igreja lotada.

Na ocasião, o governo assegurou repetidamente à população que não era necessário cancelar grandes reuniões. Lee In-young, líder da maioria na Assembleia Nacional, insistiu para as pessoas “retornarem rápido à vida normal”.

Mesmo quando Moon afirmou que a situação havia “estabilizado”, em 13 de fevereiro, Jung Eun-kyeong, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças do país, alertou que ainda “era muito cedo para dizer que a epidemia havia sido estancada.

“Só poderemos afirmar isto quando o número de pacientes na China diminuir drasticamente e o perigo do vírus entrar em nosso país tenha diminuído”, disse Jung a jornalistas naquele mesmo dia. “Temos de continuar vigilantes”.

O otimismo do governo arrefeceu depois que uma mulher, membro da igreja de Daegu, de 61 anos, foi testada positiva, em 18 de fevereiro, se tornando a 31ª paciente na Coreia do Sul. Desde então, o número de casos disparou, às vezes dobrando ou triplicando num único dia.

Nesse momento as autoridades de saúde passaram a monitorar intensamente a situação e isolar os pacientes, tendo realizado testes em mais de dez mil pessoas por dia. O recente aumento no número de casos confirmados tem relação em parte com essas medidas.

E os dados passaram a ser divulgados rapidamente. Aplicativos em celulares fornecem atualizações em tempo real sobre lugares que os pacientes visitaram e enviam notificações quando as pessoas se aproximam desses locais.

Mas, embora o coronavírus pareça menos letal do que o da MERS, ele é mais contagioso. À medida que se propaga rapidamente pelo país, os sul-coreanos começam a perguntar se podem confiar na estratégia adotada por Moon, que depende basicamente da cooperação e da conscientização das pessoas.

E ao mesmo tempo que tem alertado as pessoas para adotarem precauções, lavando as mãos e usando máscaras faciais, o governo tenta também fazer com a que economia continue em movimento.

Há também um risco político na adoção de medidas drásticas. Quando o governo tentou proibir as manifestações antigovernamentais por problemas de saúde os participantes condenaram a medida como censura.

O Partido Democrático de Moon anunciou um “máximo isolamento” de Daegu e cidades vizinhas esta semana e, para muitos políticos conservadores, esta é uma decisão que isola suas próprias cidades enquanto mantém uma atitude débil em relação à China. A forte reação política foi rápida, forçando o governo a negar qualquer plano de confinamento. Hong Ihk-pyo, porta-voz do partido que anunciou a medida, se demitiu.

“A cólera dos sul-coreanos intensificou esta semana quando souberam que algumas cidades chinesas haviam colocado visitantes sul-coreanos em quarentena ao chegarem em seus aeroportos, ao passo que a Coreia do Sul não impôs essas restrições para chineses que chegam ao país.

“O que vimos até agora é um fiasco total do nosso sistema de prevenção de doenças”, disse Choi Dae-zip, presidente da Associação Médica Coreana, referindo-se ao apelo constante da associação no sentido de uma proibição de entrada de visitantes chineses. “A maior razão desse fiasco é que o governo ignorou o princípio básico de controle de doenças, que é bloquear a fonte da infecção./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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