Literatura de cordel inaugura treinamento dos médicos estrangeiros

Um total de 115 profissionais que irão trabalhar no Brasil, 99 deles cubanos, assistiram a aula no auditório do campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Angela Lacerda, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2013 | 11h19

RECIFE - Poesia de cordel, com linguagem regional, declamada ao microfone, com som abafado que dificultava a compreensão até pelos brasileiros, inaugurou o treinamento dos primeiros 115 médicos estrangeiros - 99 deles cubanos - que chegaram a Pernambuco neste fim de semana dentro do programa "Mais Médicos".

Mesmo sem compreender, a plateia aplaudiu a cada poesia, no auditório do campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no município metropolitano de Vitória de Santo Antão e ouviram de pé a execução do hino nacional. A aula inaugural - fechada à imprensa - teria a apresentação de um vídeo sobre o povo brasileiro a ser discutido no início da tarde. Às 16 horas, eles terão a primeira aula sobre língua portuguesa.

Num discurso padronizado, os médicos cubanos garantem não se importar com o fato de receberem somente um percentual dos R$ 10 mil que o governo brasileiro paga a cada profissional que integra o programa. O contrato, por meio de convênio com a organização Pan-Americana de Saúde (Opas), repassa o dinheiro para o governo cubano que deverá pagar de 25% a 40% aos médicos.

"O dinheiro não é tão importante, nosso salário está em Cuba, para nossa família", disse Noraida Perez, 44 anos. "Estamos seguros, temos educação e saúde assegurados no nosso país", complementou Primitivo Miranda, 47.

Os cubanos também se preocupam com a reação da classe médica brasileira ao programa que dispensou o "Revalida", teste para avaliar o conhecimento dos profissionais e tornar válido o diploma de origem. "Não viemos competir", destacou Dagmari Ayala. "Viemos trabalhar em conjunto". "Nosso objetivo é ajudar a elevar o nível de saúde da população carente".

Pelo menos cinco médicos cubanos entrevistados não pretendem trazer a família durante o período de estadia no Brasil. Eles afirmam que os filhos estão estudando. Saudade? "A família já está acostumada", disse Noraida Perez, ao explicar que os cubanos têm experiência de ajuda humanitária em outros países, a exemplo do Haiti e Venezuela.

Eles chegaram por volta das sete horas ao campus. Acordaram às 5h, numa rotina que vai se estender por todo o curso. Ao final da aula, à tarde, eles retornam para os alojamentos do Exército, no Recife, onde estão hospedados os médicos estrangeiros e brasileiros formados no exterior.

Reclamação. O espanhol Bladimir Quintan Remedios, 49 anos, reclamou da comida e do pequeno espaço que não dispõe de mesa para estudo, por exemplo. "De manhã é leite com aveia e no almoço feijão e frango frito". O tempero? "Militar", disse entre risos.

Remédios nasceu em Cuba e desertou ao viajar para a Espanha a trabalho, em 1996. Não voltou. Tinha vontade de mudar. Decidiu se cadastrar para o programa brasileiro devido à crise econômica e a dificuldade profissional na Espanha. Ele não sabe ainda onde vai trabalhar e vai trazer mulher e três filhos. Já passeou, no domingo, 26, pelo centro da cidade e foi à praia de Boa Viagem.

 

O brasiliense Guilherme Stoimonof Sousa, 35 anos, formou-se em Cuba em 2006 e no ano seguinte foi para a Espanha. Voltou para o Brasil em março do ano passado, fez o Revalida e não passou. Aproveitou a oportunidade e vai trabalhar em Areia, na Paraíba. Está animado. Sobre a reação negativa dos médicos brasileiros, acredita que "eles querem fazer reserva de mercado para não ter competição, o que acaba prejudicando a população".

Sousa, que divide "o cubículo com dez bicamas do alojamento", com os cubanos, disse que eles têm dinheiro contado e, por isso, convidou um grupo para passear, neste domingo, 25. Pagou as passagens dos ônibus e a cerveja na praia. "Mas eles pagaram uma rodada de caipirinha", brincou.

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