Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Lítio estabiliza memória de idosos com Alzheimer

Resultados de experimentos feitos em células cerebrais humanas e em camundongos sugerem que o medicamento retarda o envelhecimento celular, um dos fatores relacionados a doenças neurodegenerativas

André Julião, Agência Fapesp

13 de setembro de 2019 | 07h00

CAMPOS DO JORDÃO - O uso de lítio no combate ao Alzheimer tem sido objeto de diversos grupos de pesquisa há mais de uma década. Novos resultados obtidos por cientistas do Brasil e dos Estados Unidos sugerem que os efeitos benéficos da droga para a memória podem estar relacionados à sua capacidade de retardar o envelhecimento celular, um dos fatores relacionados ao surgimento de doenças neurodegenerativas.

Os dados foram apresentados por Tânia Viel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), na última terça-feira (10/9), durante a 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Campos do Jordão (SP). Parte da pesquisa foi conduzida durante o período que Viel passou no Buck Institute for Research on Aging, nos Estados Unidos, com apoio de bolsa da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Um estudo anterior do grupo havia mostrado que, quando administrado em doses muito pequenas, o metal, usado como estabilizador de humor em pacientes com transtorno bipolar e depressão, ajuda na manutenção da memória de idosos com Alzheimer.

Para testar o efeito do medicamento em células cerebrais humanas, Viel recorreu a uma técnica de reprogramação que permite transformar células adultas - do sangue ou do fibroblasto (camada mais interna da pele) - em células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês), que posteriormente foram induzidas a se diferenciar em astrócitos, o tipo celular mais abundante do sistema nervoso central.

Os astrócitos foram separados em dois grupos. À medida que sofriam o envelhecimento celular natural, uma parte era tratada com lítio, enquanto a outra não recebia nenhum tratamento.

“Observamos que o envelhecimento foi bastante reduzido nas culturas que receberam o lítio. O envelhecimento celular é um dos fatores relacionados ao aumento do câncer e de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson”, disse Viel.

Em outro teste, os cientistas observaram o funcionamento do cérebro de camundongos à medida que envelheciam. Foi usada no experimento uma linhagem de roedores que envelhece mais rápido - em apenas 12 meses, em vez dos 24 usuais.

“Os animais tratados com lítio desde pequenos mantiveram toda a formação da memória. Existe uma relação grande entre o aumento de ansiedade e a perda de memória na velhice. A redução da ansiedade nos animais pode estar relacionada à manutenção da memória”, explicou.

Os resultados vão ao encontro de testes feitos anteriormente pela equipe. O estudo começou depois que um dos membros do grupo, a médica Marielza Nunes, passou a observar melhora na memória de idosos que tomavam microdoses de lítio como complemento alimentar. Alguns metais podem ser receitados para suprir deficiências nutricionais.

Os pesquisadores então sistematizaram um estudo clínico e selecionaram um grupo de pacientes idosos diagnosticados com Alzheimer. Metade dos voluntários recebeu as microdoses de lítio, de 1,5 miligrama por dia - em pessoas com transtorno bipolar, a dosagem é de pelo menos 60 miligramas. A outra parte dos pacientes tomou apenas placebo. Os idosos foram acompanhados por um ano e meio, com a realização regular de testes de memória.

“A partir do terceiro mês, a memória dos pacientes tratados com lítio estabilizou. No outro grupo, o desempenho foi decaindo. O tratamento foi mantido por mais um tempo, para termos certeza do efeito observado. A partir do momento que comprovamos essa diferença, passamos a dar lítio para todos”, disse Viel. Os resultados foram publicados na revista Current Alzheimer Research em 2013.

Os próximos passos da pesquisa envolvem modelos celulares e novos testes com pacientes. Como não se sabe exatamente as causas da doença, os pesquisadores vão testar o lítio no contexto das diferentes hipóteses que explicam o Alzheimer.

Em uma delas, as células cerebrais serão submetidas a um tratamento com o peptídeo beta-amiloide, encontrado em pacientes que desenvolvem a doença. O peptídeo causa uma desorganização das células e induz o envelhecimento. As células tratadas com beta-amiloide receberão doses de lítio para que seja observado se o medicamento pode reverter o processo de desorganização.

Em outro estudo, os pesquisadores vão induzir o envelhecimento em uma cultura de células usando peróxido de hidrogênio, conhecido por causar estresse oxidativo, um dos indutores do envelhecimento celular. A ideia é testar se o lítio pode reverter esse dano.

“Há várias formas de indução do envelhecimento cerebral que podem levar à doença de Alzheimer. Veremos o quanto conseguimos proteger as células com o medicamento”, disse.

A pesquisadora lembra que estudos anteriores do grupo mostram que um estilo de vida saudável, com atividades físicas e intelectuais, protege o cérebro da doença.

Futuramente, grupos de idosos com e sem Alzheimer serão acompanhados para que se entendam as diferenças entre eles. Embora haja um fator genético, nem sempre pessoas predispostas desenvolvem a doença. Os pesquisadores querem entender quais são os agentes protetores do cérebro de idosos saudáveis.

 

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