Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

Com alta de internações pela covid, lockdown já evitou colapso de sistemas de saúde no exterior

Com realidades diversas, Reino Unido, Nova Zelândia e Vietnã tiveram êxito em ações

João Prata, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 05h00

O lockdown já ajudou outros países a evitar o colapso de seus sistemas de saúde e também a controlar as taxas de contágio do novo coronavírus. Um dos mais emblemáticos foi o do Reino Unido, iniciado em janeiro. A medida foi adotada quando se espalhava uma variante mais transmissível do vírus, mas também começava a vacinação em massa. Fechamentos amplos em França, Portugal, Nova Zelândia e Israel também são apontados por especialistas como exemplos de sucesso dessa estratégia.

Entre as estratégias bem-sucedidas de lockdown, monitoramento de infecções para definir a hora certa do fechamento da economia e ajuda financeira foram importantes. A criação de uma lista mais restrita de atividades essenciais também é importante. Em alguns países, como a Itália, houve intensa aplicação de multas para quem descumpria as regras e controle rígido de acesso a mercados.

 

Após seis semanas do lockdown britânico, houve queda de 78% nos casos de covid. Foi o terceiro bloqueio do tipo desde o início da pandemia, em 2020. Além de proibir setores como academias, salões de belezas, lojas e até escolas, em algumas regiões só uma pessoa por residência tinha permissão para visitar outra pessoa de domicílio diferente, e em local público. 

Na reabertura, iniciada na semana passada, a prioridade é para creches, escolas e universidades. Especialistas têm defendido o foco na educação no relaxamento da quarentena, como forma de reduzir os prejuízos de aprendizagem e socioemocionais do longo período de afastamento das aulas presenciais. 

A Nova Zelândia adotou lockdown de três dias, em fevereiro, após a descoberta de apenas três novos casos em Auckland. Cerca de 1,7 milhão de pessoas permaneceu em suas casas, autorizadas a sair só para comprar comida ou ir ao médico. O país da Oceania teve 26 mortes desde o início da crise sanitária. “Enquanto aqui estamos sentados em cima de um colapso histórico sem tomar nenhuma atitude”, diz o cientista Miguel Nicolelis, lembrando de recentes balanços diários perto de 3 mil mortos no Brasil. “O que precisa mais?”, indaga ele. 

“No Vietnã a população recebeu auxílio significativo para ficar em casa. O Exército distribuiu comida para a população e fez testagem na casa das pessoas”, afirma Nicolelis. A nação asiática, que fica perto da China, primeiro epicentro da pandemia, registrou 35 óbitos.

Propostas

“Não dá para cada região fazer de um jeito. Não adianta todo o Nordeste fazer lockdown e o Sudeste não. Vai ter gente que viajará de uma região para outra e manterá a transmissão”, diz. A falta de coordenação nacional da gestão Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas. 

A comissão proposta envolveria Congresso, Supremo Tribunal Federal, comunidade científica e sociedade civil. “A comissão teria tutela judicial para implementar lockdown, com fechamento do espaço aéreo, controle do fluxo da malha viária”, afirma ele, que já considera inevitável um colapso sanitário e defende lockdown de um mês. 

Para a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo, o principal problema hoje está na definição de atividades essenciais. “Todas as indústrias estão funcionando. Não tem sentido a indústria de calçados estar funcionando. Essencial é a indústria ligada à cadeia alimentícia, ao complexo da saúde, água e luz. E mesmo estas podem ter departamentos que trabalhem só de maneira remota”, sugere.

Ela acha que uma ajuda para conter a pandemia seria distribuir máscaras pelo SUS, especialmente para trabalhadores de atividades essenciais. “Quem precisar sair que use as máscaras filtrantes, a PFF2 ou N95. Sabemos que com as novas variantes as máscaras de tecido não funcionam em locais com aglomeração.” E, segundo ela, com base nas experiências da Europa, lockdowns que melhor funcionaram duraram em torno de 30 a 35 dias. 

O infectologista Renato Grinbaum acredita que, sem fechar atividades não essenciais, o País não conseguirá controlar o vírus e prejudicará ainda mais a economia. “O lockdown é temporário. Sem ele ficaremos neste abre-e-fecha por tempo mais longo, com consequências mais deletérias. Se feito intensamente, de forma organizada e com adesão, poderemos sair do estado de calamidade e falta de capacidade de atenção digna mais rapidamente”, explica. “Aí precisaremos de vacina em massa para evitar nova piora.” 

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