Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Lockdowns podem ter efeitos de longo prazo na saúde das crianças

Ficar em casa jogando videogame e comendo batatas fritas não é bom para elas

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 10h00

Pode parecer um momento meio tolo para sediar um gigantesco torneio de vôlei na Flórida, um dos piores focos de covid-19 no país. Mas, nesta semana, vários milhares de jovens atletas apareceram em Orlando para dar cortadas de um lado e de outro da rede. Pelo menos eles vão se exercitar. Coisa que muitos de seus amigos não estão fazendo.

A pandemia está prejudicando a saúde das crianças. Não que elas estejam morrendo em grande número por causa do vírus, que parece afetá-las apenas de leve. E não apenas por causa de um crescente corpo de evidências que vêm sugerindo que os lockdowns afetam sua saúde mental. É também porque a vida sob confinamento nos países ricos tem deixado as crianças mais obesas e mais sedentárias. E esses efeitos podem durar muito mais do que as restrições estabelecidas para conter a doença.

A pesquisa sobre o comportamento das crianças durante estes tempos estranhos ainda está engatinhando, claro. Mas os dados iniciais sugerem que sua dieta mudou. Um novo estudo da revista científica Obesity analisou jovens já acima do peso que ficaram confinados em seus apartamentos em Verona, na Itália, durante o surto de coronavírus. O estudo descobriu que, embora a ingestão de frutas e vegetais pelas crianças tenha permanecido inalterada, em três semanas elas consumiram consideravelmente mais batatas fritas, bebidas açucaradas e carne vermelha. Os pesquisadores descobriram que os jovens fizeram, em média, uma refeição a mais por dia.

Uma das razões para essa mudança é que eles passaram mais tempo olhando para seus telefones, televisões e computadores. Na amostra da pesquisa sobre obesidade, o tempo de tela aumentou cerca de cinco horas por dia. Isto não significa apenas mais tempo sedentário, mas também um maior consumo de alimentos não saudáveis. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque olhar para um dispositivo apresenta uma oportunidade para ficar beliscando alguma coisa, diz Myles Faith, da Universidade de Buffalo, um dos autores do estudo. Mas as crianças também são bombardeadas com o marketing de junk food. Como se sabe que fast food e bebidas açucaradas são viciantes, é provável que seu apetite por esses alimentos continue depois que o lockdown terminar.

A preguiça também pode se tornar um hábito. De acordo com um estudo da Universidade de Wisconsin, durante a pandemia, as crianças americanas com mais de 10 anos de idade fizeram 50% menos atividade física. As crianças menores que passam mais tempo olhando para a tela do que correndo (ou vice-versa) tendem a levar esse comportamento para a adolescência, diz Anthony Okely, da Universidade de Wollongong, na Austrália. A falta de sono é outro problema, diz ele. Durante o confinamento, as crianças dormiram, em média, meia hora a menos, ele calcula. E o que é ainda pior: seus padrões de sono mudaram. As crianças confinadas estão indo para a cama muito mais tarde (e levantando um pouco mais tarde). Esse comportamento está associado a uma piora na capacidade de cognição e autorregulação. E também pode significar um aumento do peso da criança.

Todos esses efeitos podem ser atribuídos, em parte, às escolas fechadas. A escola não apenas estrutura a vida dos alunos, dando-lhes menos tempo para olhar para o celular, espaçando suas refeições e fazendo-os dormir mais cedo. Também os força a se movimentar mais. Brincadeiras nos intervalos e aulas de educação física ajudam muito. Até o ato físico de ir à escola – pedalando ou caminhando até o ponto de ônibus – contribui para o exercício diário dos jovens. Mas, mesmo quando as escolas reabrirem, muitos desses benefícios à saúde podem continuar perdidos, pelo menos por um tempo. Os pais, preocupados com germes nos transportes públicos, provavelmente vão querer levar seus filhos de carro para a escola. No intervalo, o distanciamento social será a regra. Clubes de atletismo depois da escola dificilmente serão uma prioridade.

De fato, o esporte juvenil foi outra vítima da pandemia. As crianças que praticam esportes têm menor probabilidade de ficar obesas, fumar ou usar drogas, diz Jon Solomon, do Aspen Institute, um think tank de Washington. Elas também tendem a tirar notas mais altas e, no longo prazo, conseguir empregos mais bem pagos. Tudo isto está ligado a uma saúde melhor por toda a vida. No entanto, depois de apenas dois meses de medidas anti-coronavírus, quase 1/5 das crianças americanas perdeu o interesse em praticar esportes, de acordo com uma pesquisa realizada por uma divisão do Aspen chamada Project Play. Algo semelhante parece estar acontecendo nos outros países. A Nova Zelândia foi um dos primeiros países a suspender a quarentena e quase todas as outras restrições relacionadas à covid. Ainda assim, as inscrições para treinos de rúgbi na faixa etária de 5 a 13 anos caíram cerca de 1/5 em relação ao ano passado. O número de jogadores deve aumentar à medida que a temporada avançar, diz Steve Lancaster, chefe de participação e desenvolvimento do New Zealand Rugby. Mas o fato de o rúgbi ser um “esporte de proximidade” provavelmente vai atrapalhar, diz ele. É impossível fazer distanciamento social dentro do campo.

Além disso, parece que as crianças mais pobres vão sofrer mais. Elas são mais propensas a depender das escolas para fazer refeições nutritivas. Geralmente têm menos espaço para se exercitar em casa. E, como seus bairros tendem a ser mais perigosos, brincar na rua é uma opção menos atraente, diz Okely.

Isto significa que o esporte organizado deve desempenhar um papel maior. Mas, de acordo com a pesquisa do Aspen, embora 60% dos pais que ganham mais de US $ 100.000 por ano digam que seus filhos retomarão os esportes no mesmo nível ou ainda mais alto assim que as restrições forem suspensas, apenas 44% dos que ganham menos de US $ 50.000 dizem o mesmo. Além disso, como as minorias étnicas dos Estados Unidos parecem estar sob maior risco de contrair o vírus, os pais pretos e asiáticos têm mais medo de que seus filhos adoeçam enquanto praticam esportes. Eles são menos propensos a dizer que seus filhos retomarão as atividades físicas assim que a pandemia passar, diz Solomon.

De volta à Flórida, espera-se que os jovens jogadores de vôlei voltem para casa com nada pior do que um tornozelo torcido ou distensão muscular. Para muitas crianças em outros lugares, os efeitos do confinamento de 2020 podem durar muito mais. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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