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Logística de vacinação não é fácil: demanda tempo, conhecimento e muito dinheiro

Assim como aqui, em todos os outros países existe um órgão regulamentador justamente para fiscalizar e nos deixar seguros

Sergio Cimerman, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 14h00

Nas últimas semanas, fomos bombardeados por inúmeras novidades sobre as vacinas para a covid-19. Gostaria de fazer um breve resumo para tentar deixar mais claro para a população em geral e diminuir a ansiedade sobre qual e como estarão disponíveis em solo nacional. Primeiro ponto a se destacar é que o registro de qualquer vacina é uma atribuição da Anvisa, em lei de 1976 visando eficácia, segurança e qualidade.

Assim como aqui, em todos os outros países há um órgão regulamentador justamente para fiscalizar e nos deixar seguros. O exemplo mais conhecido é o do FDA, nos Estados Unidos. O desenvolvimento de qualquer vacina é demorado e sua aprovação é lenta também. No caso da covid-19, bilhões de dólares estão sendo despejados em pesquisas clínicas para acelerar o desenvolvimento e creio que estamos no caminho correto. Erros irão surgir seguramente, mas nada que irá incidir na saúde do ser humano.

Existem comitê internacionais independentes que analisam os protocolos de pesquisa e apontam suspensão do estudo imediato até análise criteriosa do que ocorreu. Vimos isto claramente com duas vacinas em fase 3 desenvolvidas no Brasil, porém, sem impacto no grupo que estava fazendo uso da vacina. Os efeitos foram no grupo placebo e sem ação em questões de segurança. Mas isso gerou fake news novamente em todos os meios, deixando a população apreensiva e desconfiada.

No cenário atual podemos afirmar que há dez vacinas em testes avançados não só no Brasil, como Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, Argentina, Indonésia, Paquistão e Emirados Árabes, entre outros. As mais fáceis, por já serem plataformas consagradas, são as de vírus vivo inativado. São as que temos maior conhecimento e aplicabilidade quando comparamos com a influenza e a hepatite. Há aqui, por exemplo, a vacina chinesa (Coronavac) em parceria com o Instituto Butantã. Os dados já revelaram excelentes resultados das fases 1 e 2 dos testes.

Na questão de outro modelo vacinal se destaca a de Oxford, em parceria com a Fiocruz e desenvolvida pela AstraZeneca. Usa vetor viral e também não deve ser um grande problema na aplicação para a população. A questão foi a divulgação de um provável erro de aplicação do protocolo: o resultado da aplicação de meia dose mais uma dose foi superior na eficácia a uma dose mais uma dose em intervalo pré-determinado. 

E a diferença foi gritante. A farmacêutica já está revendo e, com segurança, teremos atraso na aprovação desta vacina, mas não creio que deixará de figurar nas prateleiras das vacinas a serem ofertadas em nível mundial. A grande novidade e com custo bem mais elevado por dose recai nas vacinas de RNA mensageiro desenvolvidas pela Pfizer e Moderna. E aqui um grande problema no armazenamento destas vacinas: ficar a baixíssimas temperaturas em freezer (-70°C) na apresentação da Pfizer. No Brasil, não temos, ou se temos são raros, os locais para o armazenamento adequado. Teremos de pensar na logística adequada para não perdermos doses e milhões de reais escoarem pelo ralo. 

Já vimos isto com testes diagnósticos com validade por expirar e não serem usados. A outra vacina, da Moderna, usando a mesma tecnologia, necessita de -20°C podendo ficar armazenada por 6 meses ou deixar em temperatura entre 2°C e 8°C, mas por até 30 dias. Mais palatável e talvez melhor do ponto de vista de logística.

Atentem que para esta situação real que vivemos o mais importante está no armazenamento e na logística. Necessitamos definir urgentemente o montante de cada vacina que iremos comprar. O governo federal está lento neste sentido. Existe a criação de uma câmara técnica de especialistas para esta finalidade e espero que possamos definir durante esta semana todos os pontos vulneráveis que apresentamos.

Além de armazenar e distribuir, precisamos abastecer com seringas, agulhas e insumos necessários para iniciar a campanha de vacinação de covid-19. Demanda tempo, conhecimento e muito dinheiro. Nosso atual ministro da Saúde tem expertise em logística, segundo a imprensa já noticiou. Precisa colocar em prática seu conhecimento técnico aliado aos conhecimentos científicos dos especialistas e técnicos do ministério para podermos mostrar ao mundo a excelência brasileira.

Temos de salvar vidas, preservar o ser humano. Chega de politizar algo tão sério. Vamos definir rapidamente tudo. Analisar os trabalhos científicos e colocar em prática o aprendizado. Só assim iremos tranquilizar a população.

Medicina baseada em evidências é fundamental. Temos de avançar como as grandes potências mundiais, que já sinalizam sobre a vacinação ao fim de dezembro/início de 2021. Deixando para uma reflexão futura: vacina apenas a nível público? Creio que para otimizar e diminuir custos, o sistema privado possa ofertar estas vacinas. Seria mais ágil, porém com regulamentação no tocante ao preço. Algo justo e de mercado. Estamos caminhando.

*É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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