Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Looks' da vacina têm jacaré, Zé Gotinha, SUS e críticas a Bolsonaro

Imunização de jovens na casa dos 20 e 30 anos aumentou variedade de celebrações e protestos nos postos, com camisetas, pin e outros itens temáticos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 05h00

Sabe a expressão “tenho nem roupa para isso?” Na vacinação contra a covid-19, muitos têm demonstrado exatamente o oposto. Dias, semanas e até meses antes da tão esperada data, eles já sabem o que irão usar. O argumento é o seguinte: se a imunização é o grande evento do ano, por que não se vestir a caráter?

Os “looks da vacina” estão ainda mais evidentes com o avanço da campanha para as faixas etárias na casa dos 20 e 30 anos. O improviso dos que se fantasiaram lá no início da imunização e os cartazes com manifestações variadas continuam, mas agora estão em meio à oferta diversa de camisetas, pins, bottons, sacolas, carteirinhas personalizadas, bonecos e mais tantos artigos temáticos.

Os itens têm frases e ilustrações em tom de brincadeira, celebração ou protesto contra a gestão Jair Bolsonaro. Uma das imagens mais frequentes é o jacaré, referência à fala do presidente sobre “virar jacaré” ao ser imunizado. O Zé Gotinha, o SUS, seringas de vacinação, o Instituto Butantan e a Fiocruz também estão nas estampas. 

O registro em foto, claro, é praticamente regra. E vem com a postagem em rede social, com homenagem às vítimas, comemoração e críticas ao governo. A hora da vacinação virou uma oportunidade de reafirmar posicionamentos ou de alívio pela pandemia estar possivelmente mais perto do fim.

“A gente foi cedo, se arrumou, viu o look para ir”, diz o inspetor de qualidade Gelson Lima, de 26 anos. A camiseta usada foi comprada três meses antes, de uma marca sugerida pelo namorado, com a estampa de jacaré e a palavra “imunizada”.

Após receber a dose, fez a imagem, publicada com as hashtags #forabolsonaro, #vivaosus e #vacinasim, dentre outras. Segundo ele, a ideia foi estimular a vacinação. “No meu Estado (Amazonas), passamos por situação muito difícil na pandemia.”

A professora Lizandra Müller, de 23 anos, também se preparou. “Quando a gente vai em um casamento, aniversário, aluga roupa, se maquia… A vacinação é uma data importante, um evento”, diz. “A gente sabe o quanto a vacina custou a chegar no Brasil.” Na data, acordou cedinho para se arrumar.

“Fui toda montada”, descreve. Ela pôs camiseta, máscara e bottons temáticos, comprados na internet. As referências do look englobavam de Zé Gotinha a jacaré, além de frases como “Eu acredito na ciência” e “Vacina sim”. Amigos já pediram emprestado para usar na vez deles.

Já o assistente de recursos humanos Rodolfo Ribeiro, de 36 anos, buscou uma loja que conhecia para garantir a camiseta especial para a vacina, no dia seguinte. “O momento da vacina é um ato político, de defender a ciência contra o negacionismo.”

Ele conta que estava pessimista com o ritmo da vacinação e já achava que nem seria contemplado este ano. Por isso, também vê o momento como homenagem a milhares que não tiveram a mesma chance.

Já o oficial da Marinha Harrison Nogueira, de 38 anos, não só teve de escolher entre duas camisas que comprou, como usou um adereço de cabeça de jacaré, de uma loja de fantasias. “Quando passei pela triagem, a galera começou a me olhar.

Uma menina falou meio cochichando que gostou muito.” Para ele, ter passado pela experiência foi uma vitória em meio à tragédia que assolou tantas famílias brasileiras.

Estoque de produtos temáticos para a vacina chega a esgotar

Em redes sociais e lojas virtuais, os produtos para o dia da vacina têm se multiplicado. Até mesmo itens não pensados originalmente como temáticos acabaram ganhando novo significado. É o que conta Vinicius Silverio, 39 anos, um dos sócios da Icebrg, focada principalmente na produção de pins (broches de metal geralmente colocados em roupas e acessórios).

Em 2019, a marca lançou uma coleção chamada “Grande Ícones Brasileiros”, incluindo referências como o Abaporu, o Canarinho da Copa e o Zé Gotinha. Na pandemia, o mascote das campanhas de vacinação acabou virando hit de vendas e, vira e mexe, fica até fora de estoque. 

Outras peças previstas para coleções não relacionadas à saúde também foram adiantadas por causa da demanda da pandemia, mesmo que originalmente tenham sido pensadas com outro objetivo. Uma é a ilustração da sede da Fiocruz (da coleção “Arquitetura que Amamos”), enquanto a outra é a Cuca (coleção “Folclore Brasileiro”), figura que acabou associada ao jacaré. Além disso, a empresa desenvolveu um pin com sede do Instituto Butantan após várias sugestões de clientes. 

“Muita gente compra para usar no dia D e na hora H”, comenta Silverio em referência à data de vacinação. Com a imunização, diz que mais pessoas têm descoberto os produtos por fotos de amigos e, também, na rua. “Aqui em São Paulo, conforme a fila vai avançando (nas faixas etárias mais jovens), também vão aumentando os pins.”

Com loja virtual e física na Rua Augusta, região central de São Paulo, a El Cabriton percebeu a demanda já em 2020 – com o interesse por produtos que reafirmam a importância do SUS –, e mais recentemente está com a Coleção Pró-Vacinação. Reúne camisetas, ecobags, roupas infantis e até pano de prato com Zés Gotinha, jacarés, referências à saúde pública e críticas a Bolsonaro. Até a Butanvac, candidata a vacina em testes, virou estampa. 

“Como as pessoas estão mais distantes (por causa do isolamento social), a camiseta virou uma forma de passar uma mensagem, uma plataforma de comunicação”, descreve Erica Abud Domenico, de 36 anos, uma das sócias da loja, cujo público principal está na casa dos 30 anos. “A gente tem entrega expressa também, então está observando que as pessoas realmente estão se preparando para esse momento (da imunização).”

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