Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Lugar de governante que milita ao lado da morte na pandemia será a vergonha

Autoridades teriam o dever moral de certificar o processo e asseverar a qualidade das vacinas, aumentando a confiança da população, não o contrário

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 05h00

Viver a história é bem diferente de contá-la. Quando lemos sobre os avanços tecnológicos ao longo dos tempos, temos a impressão que eles foram prontamente reconhecidos por seu valor inestimável pelas pessoas. Se fosse assim, não seria compreensível que tanta gente resistisse a aceitar o conhecimento científico hoje em dia. Se nossos antepassados aceitaram tão bem a escrita, o motor a vapor ou a pipoca de micro-ondas, por que nossos contemporâneos questionam tanto os avanços recentes?

A verdade é que em todas as épocas houve resistência diante de novas tecnologias. Platão temia que a escrita prejudicasse a memória dos alunos. Médicos achavam que viajar de trem poderia ser prejudicial à saúde dos seres humanos. E quanto à pipoca de micro-ondas, eu mesmo ainda não me convenci totalmente de sua conveniência. Não é fácil adaptar-se a determinadas modernidades.

Essa visão distorcida influencia nossa interpretação de eventos históricos. Quando aprendi sobre a Revolta da Vacina, com a população recusando-se a ser vacinada contra varíola, me parecia incompreensível; risível, até. “Que tolos”, pensava. Lutar contra o que poderia salvar a vida, coitados. Como se toda a população fosse mais ignorante que eu, estudante primário. Só bem depois me dei conta de que toda novidade, mesmo boa, gera resistência. Fora múltiplas camadas políticas e sociais envolvidas nesse caso em particular.

Voltei a experimentar um sentimento parecido nos últimos meses, especialmente nas últimas semanas, com toda a polêmica cercando as vacinas contra a covid-19. Confiante na ciência que sou, acreditava que os resultados de esforços conjuntos inéditos para desvendar uma doença e encontrar soluções cientificamente embasadas seriam celebrados em uníssono pela população mundial. Fora os radicais do movimento antivacina, que causam estragos pontuais como surtos de sarampo na Califórnia, não me parecia provável que mais alguém fosse resistir a esse avanço tão esperado. Mais uma vez fui vítima dessa visão inocente da humanidade agradecida pela tecnologia.

Pensando bem, o desenvolvimento, produção, distribuição e administração em larga escala de um medicamento envolve tantos passos que nos são desconhecidos, processos dos quais não temos a menor ideia, que tomar de bom grado uma vacina de fato exige que confiemos em muitas pessoas e instituições. É preciso acreditar na competência de cientistas que não sabemos quem são; na qualidade das fábricas que nunca vimos; na boa fé das empresas e políticos, todos sempre influenciados por interesses além de nossa saúde; na lisura do processo de administração sem que participemos dele. 

Sabemos que todas as etapas são supervisionadas, que agências reguladoras e as próprias concorrentes estão com mil olhos umas sobre as outras, para não deixar passar um erro numa das etapas que possa favorecer meu produto; que políticos monitoram as iniciativas uns dos outros por motivos óbvios, o que impossibilita qualquer forma de escamotear vícios ou falhas. 

Mas se juntarmos essa necessidade de confiança em cadeia com a resistência natural às novidades, fica mais claro compreender por que tantas pessoas temem vacinas. Não são burras, tolas, ignorantes. São mais desconfiadas que a média, mais sensíveis a mensagens contrárias, menos afeitas ao método científico, enfim.

Daí a importância de haver um discurso oficial favorável ao avanço médico mais esperado da nossa geração. Autoridades em posição de garantir a lisura de todas as etapas necessárias, que têm poder fiscalizatório, corpo técnico capacitado para avaliar os métodos empregados, recursos para garantir a adequada distribuição e administração, teriam o dever moral de certificar o processo e asseverar a qualidade das vacinas, aumentando a confiança da população, não o contrário.

Talvez os indivíduos que se revoltaram contra a vacina em 2020 sejam objeto de piada no futuro. Mas o lugar reservado para autoridades e governantes que militaram ao lado da morte, esse será o opróbrio. 

* É PSIQUIATRA E PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.