Luta contra excesso de peso é desafio para mulheres na Rocinha

Pesquisadora diz que rotina de moradoras da favela contribui para dieta menos saudável

Júlia Dias Carneiro, BBC

09 Agosto 2011 | 07h42

RIO - Apesar da escassez de recursos a que a pobreza costuma ser associada, a obesidade vem aumentando também nas populações mais carentes, sobretudo entre as mulheres. Mesmo com o crescimento do país, especialistas alertam que o problema não será sanado apenas pelo aumento da renda.

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, entre os 20% mais pobres da população, o excesso de peso entre as mulheres adultas pulou de 14,6%, em 1974, para 45%, em 2009. Já entre os homens, a variação foi de 5,5% para 36,9% (no caso masculino, o excesso de peso aumenta conforme a renda, e hoje atinge 61,8% da população mais rica).

Más condições de moradia e mobilidade, poucas áreas de lazer, escolaridade baixa e menos dinheiro para comprar alimentos que compõem uma dieta saudável, como frutas e verduras, são alguns dos fatores que levam ao aparente paradoxo da obesidade associada à pobreza.

Muitas dessas condições podem ser vistas na Rocinha, a maior favela do Rio, com quase 70 mil moradores computados pelo Censo 2010.

A pesquisadora Vanessa Ferreira, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fiocruz, entrevistou e estudou o caso de 12 mulheres obesas da Rocinha para seu trabalho de mestrado, em 2003.

"A batalha de vida diária de mulheres da Rocinha inclui os afazeres domésticos, os cuidados com os filhos, a alimentação da família, o trabalho formal e ainda a rotina de subir e descer as ladeiras da favela", afirma.

Ferreira diz que grupos de menor renda têm poucos recursos para aderir aos principais instrumentos de prevenção e combate à obesidade, como espaços para lazer e exercícios e acesso a alimentos mais nutritivos.

"As estratégias de consumo alimentar entre esses grupos, em geral, se caracterizam pela seleção de gêneros baratos e de alta densidade calórica, tais como as gorduras e os açúcares através dos quais os mais pobres conseguem as calorias para sobreviver", avalia a pesquisadora.

Rotina atribulada

Para a pesquisadora da Fiocruz, a obesidade não é uma doença apenas física, mas também social, derivada das situações adversas do dia a dia. E, por isso, aparece no contexto da pobreza em países em desenvolvimento - seja no Brasil ou em seus vizinhos latino-americanos.

A nutricionista Rosana Magalhães, também pesquisadora da ENSP, diz que as mulheres que moram nas partes mais altas do morro têm mais dificuldades de locomoção, de sair do sedentarismo e de ter acesso a serviços de saúde.

Além disso, a forte presença da mulher no mercado de trabalho provocou mudanças importantes nos padrões alimentares: elas comem mais fora de casa e têm menos tempo para cozinhar, o que favorece a inclusão de produtos processados, bem mais calóricos, nas refeições das famílias.

"O tempo do preparo de alimentos é uma variável fundamental nos domicílios. As mulheres estão trabalhando, o Brasil não tem creches e, por uma questão cultural, os homens não dividem o trabalho doméstico. O alimento mais industrializado poupa tempo", afirma Magalhães.

Ela cita um estudo realizado pelo Ibase em 2008 para medir os efeitos do programa Bolsa Família sobre os hábitos alimentares das famílias beneficiadas. Elas passaram a ter mais estabilidade no acesso a alimentos e puderam aumentar a quantidade e variedade de alimentos consumidos.

Por outro lado, constatou-se um aumento do consumo de alimentos com alta densidade calórica e baixo valor nutritivo, como biscoitos recheados e produtos ricos em gorduras e açúcares.

"A gente escutava as famílias falarem que nunca tinham conseguido pagar um lanche para os filhos no McDonald's, e agora podiam", afirma a nutricionista.

"Se eu aumento a renda, mas não amplio as possibilidade de reflexão sobre as escolhas alimentares e, enquanto isso, as pessoas continuam com dificuldade de acesso a moradia, a espaços de lazer e a atividades físicas, posso estar aumentando a obesidade e fomentando a obesidade infantil, que está se tornando um problema epidêmico", diz Magalhães.

Malhação na Rocinha

Apesar da falta de espaço para atividade física em suas vielas, a favela da Rocinha tem cerca de dez academias de diferentes tamanhos.

A BBC Brasil conversou com moradoras que, na luta contra a balança, pagam R$ 60 por mês para frequentar uma academia com cerca de 600 pessoas matriculadas.

Elas atribuem o excesso de peso aos lanches fora de casa, onde consomem salgadinhos e refrigerantes, ao dia a dia de trabalho, com refeições apressadas e pouco tempo para a atividade física, e ao alto preço de alimentos mais saudáveis.

Priscila Pereira Martins, de 21 anos, trabalha como caixa em uma casa lotérica e passa os dias inteiros sentada. Decidida a emagrecer, resolveu aplicar parte dos ganhos na malhação e em uma alimentação mais nutritiva.

"O meu trabalho me estimula a fazer a minha dieta, para manter a minha academia e manter meus produtos light, que são bem mais caros", diz.

 

 

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