Raman Oza/Pixabay
Raman Oza/Pixabay

Luta, foge e congela

No caso dos autistas, em situação difícil, a fuga parece ser a melhor maneira de evitar a sobrecarga

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2022 | 05h00

Descíamos, minha irmã, uma amiga e eu, por uma rua de Búzios (RJ). Primeira vez na cidade, as pessoas, o movimento, aquela chapação provocada pela mistura de emoção da novidade com alguma coisa barata que você ingeriu. Sinto uma mão no ombro: é aquele cara que mexia profundamente com os meus sentidos. Dei um pulo para trás e congelei. Não consegui me mexer. Depois, só lembro da imagem dos pés dele indo embora entre os risos de quem estava ao meu lado. Eu, que até hoje tenho na fala uma ferramenta de regulação e proteção, não consegui falar nada.

Te convido, leitor, a escarafunchar comigo a caixa bagunçada de memórias. A resposta para as condições de medo e estresse funciona de maneira parecida para todos, e na atipicidade que nos separa, ofereço uma lupa para enxergar e abraçar essa diferença. Não lembro de tutor que conte ao filho como dar conta das sensações cotidianas de estresse: a vida profissional, o excesso de demandas, o susto do então amor da sua vida aos 20 anos aparecer do além descendo uma rua e te falar “oi”.

Falamos tanto de estresse e esquecemos que ele é uma resposta fisiológica do organismo para situações que podem perturbar nosso equilíbrio. A luta, a fuga e o congelamento são maneiras de nosso corpo dar conta dessas situações. Estudos comportamentais descrevem o “fight, flight & freeze” (luta, foge e congela) como reações-padrão de uma pessoa desorientada sensorialmente. Essa desorientação pode ser causada pela multiplicidade de situações cotidianas, ou pelo excesso de estímulos, no caso do autista, e por consequência aquela descarga marota de hormônios no sangue que te colocam para patinar dentro de si próprio.

No caso dos autistas, a “luta” aparece em forma de gritos, agressão ao outro ou a si. Diante de uma situação desconfortável, se esconder em um banheiro ou em qualquer lugar, a “fuga”, é o que parece ser a melhor maneira de evitar a sobrecarga. Ainda é possível, como no meu caso, que a pessoa permaneça inerte, o “congela”, e depois explode num comportamento exagerado e inexplicável para quem vê de fora.

Alguns estudos hoje incluem um quarto F, o “fawn”, uma espécie de “festinha”, na minha livre tradução, que se faz principalmente em situações de medo. Seu cérebro decide que tentar agradar quem, ou o que, está gerando esse medo é a melhor maneira de evitar se machucar. Lembro de passar por todos os 4 F’s, e posso me considerar especialista em foge e congela. Já saí da casa de um ex, no meio de uma DR, e fui parar em uma fila de festa onde podia ficar parada sem deixar ninguém acessar o que se passava dentro, movimento de fuga. Quando o barulho de dentro está muito alto, só resta aumentar o barulho de fora para se acalmar da crise. E mesmo que a minha especialidade seja fugir ou congelar, no momento, lutar é o que faz mais sentido depois de saber da morte de um homem esquizofrênico num camburão câmara de gás.

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