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DANIEL TEIXEIRA/ ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ ESTADAO

Mães lactantes se unem para reivindicar priorização na fila da vacina

Sob o lema ‘Uma vacina protege dois’, movimento começou na Bahia e se espalhou para outros Estados; transferência de anticorpos pelo aleitamento materno já possui bons indícios

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 10h00
Atualizado 14 de junho de 2021 | 17h08

Mãe de Anaís, de 23 anos, e de Juca, de 11 meses, a soteropolitana Júlia Maia é produtora cultural, terapeuta holística, doula e uma das fundadoras do Lactantes pela Vacina, movimento que surgiu no dia 7 de maio em Salvador, na Bahia, com um objetivo claro: reivindicar que mulheres que amamentam sejam priorizadas na fila da vacina contra a covid-19.

Sob o lema ‘Uma vacina protege dois’, representantes do grupo acreditam que, ainda que não seja comprovada para todos os imunizantes, a transferência de anticorpos por meio do aleitamento materno já possui bons indícios.

“O que nos motivou foi a urgência por políticas públicas que tirem as mães da invisibilidade, que cuidem de quem cuida, já que cuidar das mães é proteger o futuro”, explica Maia.

Segundo ela, o surgimento do Lactantes pela Vacina se deu de forma espontânea: algumas mulheres que hoje participam do grupo já falavam sobre a transferência de anticorpos por meio do leite há um tempo e, em determinado momento, decidiram se mobilizar para escrever uma carta aberta ao governo da Bahia, o que acabou gerando resultados. 

Atualmente, mulheres que amamentam bebês de até 12 meses podem receber imunizantes contra a covid-19 em qualquer um dos postos de vacinação da Bahia. O grupo evidentemente comemora, mas ainda reivindica uma maior abrangência do plano.

Em carta aberta publicada no dia 7 de junho e endereçada ao governador Rui Costa (PT), ao prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM), e a outras autoridades da Bahia, o Lactantes pela Vacina reforçou que não encerrou a mobilização devido à conquista parcial.

“Nos colocamos à disposição esperançosas de que a vacina seja, muito em breve, uma realidade para todas as mães e fazemos um apelo pelo avanço no escalonamento da idade dos bebês”, escreveram. Em negrito, estava a frase “Uma vacina protege dois!”, em alusão à transferência de anticorpos de mães para bebês. 

“A Bahia foi pioneira na inclusão de lactantes no grupo prioritário no início da vacinação. Quando divulgamos nossas conquistas, começamos a ser procuradas por mães de outros Estados, que queriam saber como tínhamos conseguido e como fazer para conseguir também. Foi assim que decidimos abrir um grupo nacional, que hoje conta com representantes de 26 Estados e do DF”, conta Maia, que diz estar satisfeita com a proporção que o movimento tomou em apenas um mês de existência.

Uma das mães que se interessou foi a dona de casa Stefanye Macedo. Mãe de Alexandre, de 5 meses, foi ela quem começou, em meados de maio, a filial do Lactantes pela Vacina em São Paulo — iniciativa que agora conta com sete mães na organização. “Foi tudo orgânico, eu criei o perfil do movimento em São Paulo e então as mães começaram a procurar a página e se engajaram em funções diferentes para atender as necessidades que foram surgindo ao longo das semanas”, diz. 

Hoje, a conta criada por Stefanye há cerca de um mês possui quase 13 mil seguidores no Instagram. Já a carta aberta enviada ao governo do Estado de São Paulo pedindo providências na priorização de lactantes tem 45 mil assinaturas. "Estamos sempre somando as conquistas e compartilhando ideias para expandir a atuação de maneira efetiva. Além disso, temos as mães da Bahia, que são a nossa coordenação geral e que passam as diretrizes das ações", explica Macedo.

Causa envolve mobilização política

A deputada estadual por São Paulo Marina Helou (Rede), que tem uma página destinada à causa em seu site, defende que não existe nenhuma forma de proteger crianças menores de dois anos contra o coronavírus, a não ser por meio do isolamento social e de anticorpos transmitidos pelo aleitamento materno. Crianças dessa idade não usam máscara pois correm risco de se sufocar e não vão ser vacinadas nos curto e médio prazos.

Para Helou, mesmo que a imunidade não esteja plenamente comprovada, estudos já demonstram que lactantes vacinadas com as duas doses apresentam anticorpos no leite materno, o que dá esperança.

“O PL 306/21 de minha autoria busca a inclusão desse grupo (lactantes) na lista prioritária, e hoje mesmo (sexta-feira, 11) enviei um ofício para o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e para o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, solicitando a inclusão de lactantes, mesmo que sem comorbidades, no grupo prioritário da capital paulista”, diz. 

“É pela proteção de bebês, mas é também uma política pública para valorizar as mães que são invisibilizadas em nossa sociedade mesmo prestando um serviço essencial: gerar e criar novas vidas.”

A nível nacional, as demandas do Lactantes pela Vacina estão direcionadas para a aprovação de projetos de lei como o 1865/2021, de autoria do deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP).

Segundo as organizadoras do movimento, o objetivo maior do Lactantes pela Vacina é a imunização de todas as lactantes do Brasil, o que demanda diálogo com os poderes Executivo e Legislativo. 

Ainda assim, as demandas também passam por promover ações nas redes sociais, como por exemplo o ‘Mamaço’ — ação que incentivou mulheres a publicarem fotos amamentando em prol da causa. 

“Para mim, tem sido extraordinário participar de um movimento que nasceu e continua espontâneo, que evidencia a força da mulher mãe e que traz à tona questões que são inviabilizadas”, explica a advogada Mariana Santana. Mãe de Maria, de 1 ano e 5 meses, ela é a responsável por realizar reuniões com parlamentares para promover o movimento em São Paulo.

Já no Rio de Janeiro, o Lactantes pela Vacina é coordenado por três mães: a produtora cultural Camila Zampier, mãe de Akin, de 6 meses, a advogada Maria Eduarda Sá, mãe de Vitor, de 10 meses, e a engenheira de produção Thais Macieira, mãe de Mia, de 5 meses.

“Para nós, o movimento vem sendo um caminho para, além de pleitear a vacinação das lactantes, lutar para que tenhamos políticas públicas voltadas para saúde mental e física da mulher”, destaca Macieira. Segundo ela, o grupo conseguiu protocolar o projeto de lei 316/2021 por meio da vereadora Verônica Costa (DEM) e está pleiteando ações na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).

Cinco Estados já incluíram lactantes no grupo prioritário

Segundo levantamento do Lactantes pela Vacina, hoje são cinco Estados que incluíram lactantes no grupo prioritário: Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Minas Gerais. Além disso, há também municípios de Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná exercendo sua autonomia e incluindo lactantes na fila da vacinação.

Um estudo com lactantes imunizadas com a Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, apontou a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no leite materno das voluntárias. Em 50% dos casos, esses anticorpos permaneceram no leite durante quatro meses. 

Atualmente, o Brasil é o 2º país com mais mortes de crianças por covid-19. Até meados de maio, 948 crianças de zero a nove anos morreram de covid no Brasil, segundo dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) compilados pelo Estadão.

Em nota, o Ministério da Saúde esclarece que a imunização de grávidas, puérperas e lactantes sem comorbidades será discutida na Câmara Técnica Assessora em Imunizações e Doenças Transmissíveis e na Câmara Técnica Assessora em Ações Integradas à Assistência à Gestante e Puérpera no Contexto da Pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19). A pasta reitera ainda que a imunização contra a covid-19 com a vacina de Oxford/AstraZeneca está suspensa em grávidas e puérperas. 

Do ponto de vista clínico, o principal argumento pela não priorização de lactantes na vacinação contra a covid-19 é de que elas tendem a não ter um quadro imunológico tão frágil quanto ao de grávidas e puérperas. 

Questionado sobre isso, o Lactantes pela Vacina de São Paulo destaca que quem participa do movimento reconhece que não faz parte de um grupo vulnerável nem reivindica esse lugar, mas apenas se entende como grupo prioritário em relação ao escalonamento etário.

“Visto que estudos demonstram a presença de anticorpos no leite humano e a transferência desses para o bebê ou criança amamentada, acreditamos que a vacinação das lactantes pode proteger os bebês que não têm previsão de vacinação em lugar nenhum do mundo”, diz. “Pedimos a vacinação das lactantes para que os bebês sejam também protegidos.”

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