Maior atividade pode prevenir demência em idosos, revela estudo da USP

Pesquisadores traçaram perfil da doença entre 2.072 acima de 65 anos na zona oeste de SP

Agência USP

09 Setembro 2010 | 17h46

SÃO PAULO - Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) traçaram um perfil da demência entre idosos de uma região pobre na zona oeste da cidade de São Paulo. Os resultados mostram que a baixa escolaridade e a renda estão entre os principais fatores de risco que podem levar à doença. Ao mesmo tempo, verificou-se que a realização de atividades cognitivas simples, como trabalhos manuais, pode diminuir a incidência nessa faixa etária.

Os estudos fazem parte de um programa de investigação sobre saúde do idoso, com ênfase na saúde mental, chamado de São Paulo Ageing & Health Study (SPAH) e coordenado pelos professores Marcia Scazufca e Paulo Rossi Menezes, da FMUSP.

O trabalho envolveu 2.072 idosos com 65 anos ou mais, que foram analisados por meio de questionários padronizados. Eles passaram por uma avaliação cognitiva, de estado mental e de diversos fatores de risco para demência, como características sócio-demográficas e saúde.

Na primeira fase do estudo, foram identificados 105 casos de demência, o que equivale a uma prevalência de 5,1%. “É uma incidência alta, semelhante à registrada na Europa”, destaca a pesquisadora Marcia Scazufca.

“A maior parte dos idosos entrevistados tinha menos de 75 anos, enquanto nos países europeus eles se situam em faixas etárias mais elevadas, sendo que a idade é o principal fator de risco conhecido para a demência”, explica. A partir das informações levantadas, foi investigada a associação entre indicadores de desvantagem socioeconômica ao longo da vida e a prevalência de demência.

“Na literatura científica, várias pesquisas apontam uma relação entre uma menor escolaridade e um maior risco de demência”, diz Marcia. Entre os idosos pesquisados, 38% são analfabetos, 52% têm de 1 a 3 anos de estudo e 9% completaram 4 anos ou mais. Dois terços nasceram em zonas rurais, o que dificultou o acesso à escola, e metade teve ocupações braçais ao longo da vida.

Esses fatores levaram cerca de um terço da população estudada a ter uma renda mensal de menos de um salário mínimo. “Entre os idosos que tiveram mais desvantagens sócio-econômicas ao longo da vida, o riso de demência foi cerca de sete vezes maior que o de idosos não expostos a esses fatores de risco”, afirma a pesquisadora.

Prevenção

Na terceira etapa da investigação, avaliou-se o possível papel da alfabetização, ocupação e renda na prevenção da demência. “A partir da fração atribuída na população, estimou-se que 22% dos casos seriam evitados caso todos os idosos pesquisados fossem alfabetizados, número que subiria para 29% se tivessem renda mensal maior que um salário mínimo na época do estudo, e para 38% se tivessem realizado ocupações com algum grau de especialização”, revela Marcia.

“Se nenhum idoso fosse exposto a esses três fatores de risco, cerca de 50% dos casos de demência teriam sido evitados”, acrescenta a professora da USP.

Dois anos após a primeira avaliação, 1.243 idosos foram entrevistados novamente. Os pesquisadores verificaram se a participação em 42 atividades (divididas entre sociais, cotidianas, cognitivas e físicas) estava associada ao desempenho cognitivo e ao surgimento de novos casos de demência.

“Entre os idosos reavaliados, 99% praticavam algum tipo de atividade social, 95% faziam atividades cotidianas, 63% desempenhavam atividades cognitivas e 49% mantinham atividades físicas”, aponta a pesquisadora.

“Verificou-se que os idosos que realizavam mais atividades tiveram um menor declínio no funcionamento cognitivo. A maior participação em atividades também esteve associada a um menor risco de desenvolver demência nesse período”, acrescenta Marcia.

Quanto ao tipo específico de atividade desempenhada, a pesquisa também mostrou que idosos que faziam mais atividades cognitivas na inclusão do estudo tiveram um menor declínio cognitivo. As atividades incluíam trabalhos manuais, em madeira e metal, costura (tricô, crochê), aulas variadas, uso do computador, canto, música, jogos, leitura e escrita.

A pesquisadora recomenda que políticas públicas estimulem a participação de idosos em todas as atividades, particularmente nas cognitivas. “Embora parte da população idosa brasileira não seja alfabetizada e não saiba ler nem escrever, há outras atividades simples que podem estimular e preservar as funções cognitivas - como os trabalhos manuais - e, com isso, possivelmente prevenir ou retardar o aparecimento da demência”, ressalta Marcia.

“Os resultados da pesquisa complementam as conclusões de outros estudos com idosos que têm acesso a atividades sofisticadas e requerem alto poder aquisitivo, pois mostram que não apenas as atividades cognitivas sofisticadas, como ir ao teatro ou ler um romance, podem evitar ou postergar a doença", completa a professora da USP.

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