Stephen Lam/Reuters
Estudo mapeou as principais páginas divulgadoras de fake news no País e o conteúdo divulgado por elas Stephen Lam/Reuters

Maiores divulgadores de fake news de saúde têm por trás loja de produtos naturais

Páginas na internet, perfis no Facebook e canais no YouTube têm disseminado informações falsas ou imprecisas sobre doenças ao mesmo tempo em que vendem supostas curas milagrosas e consultas

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo, e Matheus Fernandes, especial para o Estado

29 de novembro de 2019 | 15h00
Atualizado 29 de novembro de 2019 | 19h45

SÃO PAULO - Dois dos maiores sites brasileiros divulgadores de notícias falsas sobre saúde, responsáveis pela publicação de centenas de artigos antivacina, têm por trás um comércio de "produtos naturais" com lojas física e online, cujos itens são abertamente indicados pelos administradores dos portais como alternativa a medicamentos e vacinas criticados nos textos com informações falsas.

Assim como nesse caso, outras páginas na internet, perfis no Facebook e canais no YouTube têm disseminado informações falsas ou imprecisas sobre doenças ao mesmo tempo em que vendem supostas curas milagrosas e consultas.

A ligação comercial entre sites de fake news e venda de produtos naturais foi descoberta por investigação da organização não governamental (ONG) Avaaz em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e confirmada pelo Estado, que encontrou outros indícios dessa relação.

Estudo realizado pelas duas instituições mapeou as principais páginas divulgadoras de fake news no País e o conteúdo divulgado por elas. Foram analisados oito sites, que, juntos, divulgaram 1.613 notícias falsas ou imprecisas sobre saúde entre 2014 e 2019. A estimativa do estudo é de que essas notícias tenham sido compartilhadas 489 mil vezes no Facebook.

Entre as fake news disseminadas estão as que relacionam a vacina tríplice viral à ocorrência de autismo, textos que questionam a segurança da vacina contra o HPV, além de teorias conspiracionistas que defendem que a indústria farmacêutica atua para não encontrar uma cura para o câncer ou que usa seus produtos para o controle da população mundial. Todas essas informações não têm embasamento científico.

Do total de sites analisados pela Avaaz e SBIm, dois foram os campeões de publicações: Notícias Naturais e Anti Nova Ordem Mundial. Juntos, eles foram responsáveis pela veiculação de 979 artigos, 60% do total. Em todas as publicações, observa-se como anunciante único do site a loja Tudo Saudável, com sede em Florianópolis e que vende produtos naturais em sua loja física e também pela internet. Procuradas, as empresas não se manifestaram (mais informações abaixo).

A ligação entre os sites e a empresa, porém, não é apenas publicitária, segundo apuração do Estado. Utilizando ferramentas de análise de páginas web, a reportagem descobriu que os três sites compartilham o mesmo código do Google Analytics (serviço que mede audiência nos sites). Ou seja, as três páginas estão vinculadas a uma mesma conta e, portanto, são administradas por uma mesma pessoa ou empresa.

Além disso, em fórum criado dentro do site Notícias Naturais, a reportagem encontrou o administrador da página de notícias recomendando a leitores a compra de produtos no site Tudo Saudável.

YouTube

Possíveis interesses comerciais na divulgação de informações pseudocientíficas ficam ainda mais evidentes em canais no YouTube como o do autointitulado terapeuta naturista Jaime Bruning. Em seu canal, ele acumula 596 mil seguidores e divulga vídeos criticando vacinas e apresentando curas naturais para as mais diversas doenças, de dengue a câncer. Na mesma plataforma, ele aproveita para divulgar seus produtos e serviços. Os principais são um livro sobre medicina natural no valor de R$ 67 e consultas em que oferece "avaliação bioenergética à distância", ao custo de R$ 110.

Outro canal, o Saúde Alternativa, leva aos seus 49,4 mil inscritos vídeos com "tratamentos naturais" para várias doenças. No site de mesmo nome, aproveita para divulgar terapias pagas contra várias doenças. Há promessas de "combater" o vírus HIV por meio de terapia baseada em "uma mudança radical na alimentação e no psicológico do indivíduo" e que custa ao interessado R$ 250. A mesma técnica, chamada de ATPP, é oferecida para o tratamento de câncer e outras doenças, que, segundo o site, têm todas causa emocional.

Segundo Nana Queiroz, coordenadora de campanhas da Avaaz, o modus operandi dos sites e canais brasileiros que divulgam fake news - muitas vezes com o intuito de lucrar com isso - é inspirado em experiências dos Estados Unidos.

"É um mercado de fake news que alimenta o medo da ciência tradicional para lucrar com a venda de livros e curas milagrosas. Alguns artigos publicados nos sites brasileiros são uma cópia exata de textos publicados em sites americanos. Lá, algumas dessas plataformas já foram banidas. Aqui, esses textos continuam circulando livremente e com grande alcance", diz.

A investigação da Avaaz descobriu que pelo menos 32% das 1.613 notícias incorretas divulgadas nos oito sites estudados eram traduções de conteúdo de fora.

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É um mercado de fake news que alimenta o medo da ciência tradicional para lucrar com a venda de livros e curas milagrosas
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Nana Queiroz, coordenadora de campanhas da ONG Avaaz

"Em saúde, muitas vezes as pessoas estão em busca de milagres e isso (oferecer curas milagrosas sem comprovação científica) é uma maneira fácil de conquistá-las. Essas pessoas falam com uma certeza dos dados que, se você não domina o assunto, parece ter lógica, mas é uma lógica falsa", destaca a vice-presidente da SBIm, Isabella Ballalai.

Nana destaca que, além do lucro com a venda de produtos e consultas, essas páginas e canais têm ganhado dinheiro com anúncios na internet. "As grandes empresas de tecnologia têm que aprimorar seus algoritmos também pensando em sua responsabilidade social de não difundir conteúdos que estimulem a ignorância e a intolerância", diz.

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Muitas vezes as pessoas estão em busca de milagres e isso (oferecer curas milagrosas sem comprovação científica) é uma maneira fácil de conquistá-las
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Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm

Silêncio

O Estado tentou por quatro dias falar com a dona da empresa Tudo Saudável, Mayara Cristina Modesti, mas não obteve retorno das ligações que fez e mensagens que enviou.

A reportagem também procurou Jaime Bruning, mas ele não quis se pronunciar. Em seu canal no YouTube, ele tem dito ser vítima de perseguição da imprensa.

Já o responsável pelo canal e site Saúde Alternativa, o fisioterapeuta Paulo Makiyama, afirmou que o sistema de tratamento ATPP é pautado na crença de que todos os problemas que o ser humano desenvolve tem causa emocional. Embora o site critique os tratamentos convencionais e questione sua eficácia, Makiyama afirmou que "não existe nenhuma imposição para a pessoa deixar de fazer o tratamento tradicional para que faça o nosso". "Isso é uma questão de escolha da pessoa. Mas existe uma alternativa que as pessoas podem buscar e têm o direito de buscar, (que é) esse tratamento sem o uso de medicamentos."

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OMS chama Facebook e YouTube para buscar soluções contra fake news sobre vacina

Desinformação é apontada como fator para queda da cobertura dos imunizantes no Brasil e no mundo, o que trouxe de volta surtos de doenças até então controladas, como sarampo

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2019 | 15h00

SÃO PAULO - A preocupação com o impacto da internet e das redes sociais na divulgação de notícias falsas sobre vacina fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) convocar gigantes de tecnologia, como o Facebook e o YouTube, para participar de uma reunião com técnicos do órgão para buscar soluções para a disseminação de fake news sobre o tema. 

A desinformação sobre vacina tem sido apontada como um dos fatores para a queda da cobertura vacinal de alguns imunizantes no Brasil e no mundo, o que trouxe de volta surtos de doenças até então controladas, como o sarampo.

A reunião ocorreu em outubro, na sede da OMS em Genebra, na Suíça, e foi organizada pela Vaccine Safety Net (VSN), uma rede criada pela organização para reunir sites com informações confiáveis sobre vacinas.

"O workshop teve como objetivo promover a aprendizagem conjunta entre uma série de parceiros envolvidos na produção e disseminação de informações sobre a importância e os benefícios das vacinas para proteger a saúde", disse a OMS, em nota ao Estado.

Embora não tenha detalhado as medidas que serão tomadas a partir dessa reunião, a organização disse esperar que "este seja o começo, não o fim" dessa parceria e que se possa ver "mais engajamento, inovação e colaboração para promover a saúde - não apenas em nível global, mas também em países onde a desinformação da vacina pode ter as consequências mais perigosas".

A médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), é a única brasileira a fazer parte do conselho consultivo da VSN e esteve presente no encontro de outubro. Ela conta que foram formados vários grupos de trabalho para buscar formas de ampliar as fontes confiáveis sobre vacinas na internet. 

"A ideia é que ainda neste ano sejam apresentadas sugestões de negociações com essas plataformas digitais", disse.

Procurados pelo Estado para comentar as estratégias usadas para combater informações falsas sobre saúde, Facebook e YouTube disseram estar aprimorando suas tecnologias para promover fontes confiáveis de informação.

Facebook

O Facebook diz reduzir em até 80% o alcance de informações comprovadamente falsas. Para isso, porém, depende da denúncia de usuários sobre publicações suspeitas e verificações feitas por agências de checagem parceiras.

Uma das novas apostas da empresa para reduzir a disseminação de desinformação é a inserção de um selo sobre as publicações com informações falsas avisando o usuário sobre a característica do post. O selo é similar ao já existente para publicações com imagens de violência. O recurso foi lançado em outubro nos Estados Unidos e deve chegar ao Brasil nos próximos meses.

"Queremos que as pessoas tenham informações precisas e confiáveis, e trabalhamos para reduzir a disseminação de notícias falsas nas nossas plataformas. Em temas tão importantes como vacinação, também trabalhamos com especialistas externos da área de Saúde para entender como podemos melhorar", disse a empresa.

YouTube

Já o YouTube também promete novos recursos para barrar o alcance de vídeos com informações incorretas ou imprecisas. A empresa disse ainda que vídeos com informações falsas não podem ser monetizados e que, caso algum vídeo com desinformação tenha anúncio, ele pode ser denunciado.

"A desinformação representa um grande desafio e estamos tomando uma série de medidas para lidar com este fenômeno, como dar maior destaque para conteúdos de saúde de fontes confiáveis e exibir painéis de informação com mais contexto", disse a empresa, em nota. "Além disso, contamos com nossa comunidade de usuários para denunciar qualquer conteúdo que considerem inadequado. Sabemos que nossos sistemas não são perfeitos, mas fazemos melhorias constantemente e estamos comprometidos a fazer progressos nesta área", completou.

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