TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Maioria das mães só descobre microcefalia no parto

Dos nove casos registrados em Itabaiana, só um foi diagnosticado antes do parto, apesar dos exames pré-natais

Herton Escobar, Enviado especial a Itabaiana

27 Fevereiro 2016 | 18h00

Foto: Ana Paula e seu bebê: 'minha expectativa é que meu filho ande, fale e seja muito feliz ao meu lado'

ITABAIANA - Ana Paula da Silva já havia sofrido três abortos espontâneos quando finalmente conseguiu levar uma gestação a termo, em outubro de 2015. A mãe brinca que o bebê nasceu "passadinho", com 42 semanas, 49 centímetros e quase 3 quilos. Seu perímetro cefálico, porém, era de apenas 30 centímetros - dois abaixo do mínimo considerado normal para uma criança desse tamanho. Diagnóstico: microcefalia.

"A primeira pergunta que fiz foi se ia ter sequelas", conta Ana Paula, de 30 anos, moradora da Vila Peixoto, um bairro da periferia de Itabaiana, no interior de Sergipe. O médico respondeu que era cedo demais para dizer. "Minha expectativa é que meu filho ande, fale e seja muito feliz ao meu lado", diz a mãe, carinhosamente abraçada ao carequinha Victor Hugo. 

Aos quatro meses, seu perímetro cefálico já aumentou para 35 centímetros. A cabeça ainda parece pequena em relação ao corpo, mas não muito. Fora isso, Victor Hugo aparenta ser um bebê normal; parrudo, cheio de dobrinhas nos braços, com boa postura e um olhar atento, que adora passear. É um caso leve de microcefalia.

Ana Paula conta que pegou uma virose no quarto mês de gestação, que a deixou com o corpo todo "empolado" por três dias, com manchas vermelhas que coçavam muito, e levemente febril. Pode ter sido zika, pode ter sido dengue - ela não sabe. O médico lhe receitou uma pomada, e o problema desapareceu alguns dias depois. Os exames pré-natais não apontaram nada de errado com o feto. "Estava tudo normal; só vi quando nasceu. A enfermeira disse que tinha um probleminha na cabeça dele, que era pequena." 

É uma história que se confunde com a de muitas outras mães de bebês microcefálicos na região. Dos nove casos registrados no município, só um foi diagnosticado antes do parto, apesar dos exames pré-natais. Difícil dizer, porém, se isso se deve a uma falha de detecção ou a uma manifestação tardia da má-formação.

Variabilidade. Nessa pequena amostra de Itabaiana é possível ver a variabilidade de manifestações neurológicas e morfológicas do problema. A filha da estudante Lorena Oliveira, de 32 anos, nasceu com um perímetro cefálico de 31 centímetros, bem perto do tamanho normal, porém acompanhado de várias outras má-formações congênitas, nos braços, nas pernas e no quadril. "O médico acha que a causa pode ser viral, mas não sabemos", conta a mãe. 

Assim como Ana Paula, Lorena teve sintomas típicos de zika entre o terceiro e quarto mês de gestação: febre baixa, acompanhada de leves dores musculares (mialgia) e manchas vermelhas pelo corpo (exantema). "Fiz um exame para rubéola e deu negativo, então fiquei tranquila", conta. "Minha irmã teve chikungunya; acho que o meu foi também, mas não sei. Só posso dizer que tive uma virose."

Jussara Cardoso dos Santos, de 23 anos, teve os mesmos sintomas no segundo mês de gestação. Sua filha, Sophia Vitória, nasceu com 2,9 quilos e apenas 28 centímetros de perímetro cefálico. A bebê chora constantemente e tem dificuldades para mamar. "Ela está com fome, mas não pega o peito", conta a jovem mãe. A família vive numa casa simples, à beira de uma rodovia na periferia de Itabaiana. "Temos só de agradecer a Deus", diz o pai, Luciano.

Esse é o grande problema que os cientistas e agentes de saúde enfrentam para entender o que está acontecendo. Sem uma confirmação do agente infeccioso e sem um acompanhamento clínico mais detalhado é quase impossível determinar se a "virose" foi mesmo a responsável pelas má-formações. Há muitos outros fatores de risco que podem estar envolvidos, especialmente em populações de baixa renda, com condições de saúde mais precárias.

Foto: O biólogo Lucas Alvizi, que participou da força-tarefa de pesquisadores paulistas em Sergipe, realizando entrevistas e coletando amostras de sangue e saliva dos bebês e das mães

Investigação. A coordenadora da Vigilância Epidemiológica de Itabaiana, Iolanda Ribeiro Gomes, acredita que o vírus zika esteja envolvido, mas duvida que ele seja o único culpado, já que há mulheres com os mesmos sintomas cujos filhos nasceram normais. "É muito estranho. Se fosse uma regra, que se você tem a virose, vai ter a microcefalia, ok. Mas não tem sido assim", pondera Iolanda. "A gente fica na expectativa de saber o que ocasionou realmente isso. Por que tantas crianças num período tão curto de tempo?"

As nove crianças com microcefalia de Itabaiana nasceram entre setembro e novembro de 2015. Todas estão sendo assistidas pelas Secretarias de Saúde do município e do Estado, com transporte gratuito para consultas periódicas com médicos de várias especialidades. Outras 19 gestantes que relataram sintomas de infecção viral desde novembro foram encaminhadas para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) do Estado, em Aracaju, para exames de virologia. Dois resultados já voltaram: ambos negativos para zika, mas positivos para chikungunya. Os exames pré-natais, por enquanto, indicam que os fetos são saudáveis.

"São muitas incógnitas de todos os lados", diz o biólogo Lucas Alvizi, do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, que participou da força-tarefa de pesquisadores paulistas em Sergipe, realizando entrevistas e coletando amostras de sangue e saliva dos bebês e das mães. O material será analisado para determinar se elas foram infectadas pelo zika (ou outro vírus) e investigar se há algum fator genético que favoreça ou bloqueie o desenvolvimento da microcefalia - ajudando, assim, a responder a pergunta levantada por Iolanda: Se o zika é o responsável, por que alguns bebês nascem com a microcefalia e outros, não?

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