J. DURAN MACHFEE
J. DURAN MACHFEE

Mais da metade do País não vai ao dentista anualmente, diz IBGE

Recomendação dos dentistas é de que as consultas sejam semestrais; dado foi coletado em 2013 e foi divulgado nesta terça

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

02 Junho 2015 | 10h00

Atualizado às 19h54

RIO - O Brasil é o país que mais tem dentistas no mundo - são 260 mil -, mas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013, divulgada nesta terça-feira, 2, pelo IBGE, 55,6% dos brasileiros não se consultam anualmente. A recomendação dos dentistas é de que as consultas sejam semestrais. 

No Norte e no Nordeste, os índices são ainda piores: 65,6% e 62,5% da população, respectivamente, não vai ao dentista todo ano. Já no Sul e no Sudeste, os porcentuais são de 48,1% e 51,7%, respectivamente. Os números foram levantados no último trimestre de 2013 e a pergunta se referiu aos 12 meses anteriores à entrevista. 

A PNS revelou ainda que, entre as pessoas com 18 anos ou mais, 11% perderam todos os dentes; entre os brasileiros que estão acima dos 60 anos, o índice é de 41,5%.

Quanto aos hábitos de escovação, 89,1% dos entrevistados maiores de idade disseram que escovam os dentes pelo menos duas vezes ao dia. E 67,4% consideram sua saúde bucal "boa ou muito boa". 

O presidente da ABO, Luiz Fernando Varrone, acredita que o brasileiro ainda está adquirindo a cultura de ir ao dentista. “As pessoas têm a ideia errada de que a saúde bucal e a geral são coisas separadas. Mas está melhorando: até a década de 1980, éramos conhecidos como o País dos desdentados.”

História. Exemplo da deficiência com a atenção bucal é a história do guardador de carros Eduardo José da Silva, de 52 anos, que só esteve uma única vez no consultório de um dentista. Foi há 10 anos. Morador do Alto Santa Terezinha, na zona norte do Recife, Zeca, como gosta de ser chamado, reclama da dor que sentiu quando o profissional extraiu oito dentes de uma só vez.

"Quando eu cheguei no consultório, estava com muita dor. Ele olhou minha boca e disse que tinha de arrancar. Ainda pensei em desistir, mas a dor era tanta que aceitei. Ele explicou que estavam todos podres", lamentou. O atendimento de urgência foi feito em uma Unidade Básica de Saúde Bucal, localizada há menos de um quilômetro de sua residência.

Segundo Zeca, o acesso ao dentista ao longo da infância e adolescência era "muito difícil". "Não tinha dentista em posto de saúde nem esse pessoal que vai até a casa da gente. Agora está mais fácil, mas eu não quero voltar, não. Sei que vão querer arrancar todos os que sobraram porque está tudo preto. Não pude cuidar cedo dos dentes e agora não tem mais jeito não."  

O guardador de carros disse que tenta evitar que seus filhos tenham o mesmo destino. Segundo ele, sua mulher leva os seis filhos do casal todos os anos no dentista. "É de graça, e ela fala que o atendimento é bom." A maior dificuldade, conta Zeca, é comprar escovas de dente para todo mundo. "Como não tenho um salário certo, as vezes não consigo comprar pasta de dente ou escova nova. Mas a gente vai se virando. Eu dividia uma escova com minha mulher, mas depois que o dentista disse a ela que não era para fazer isso ela não deixa mais. Ai peguei uma velha de uma das crianças."

Questionado sobre a possibilidade de buscar no serviço público uma prótese dentária, ele foi taxativo. "Nunca nem tentei. Fiquei com tanto medo da dor que senti que não quero mais abrir a boca na frente de dentista nenhum."  

Sobre a pesquisa. Os números não têm parâmetro de comparação, uma vez que se trata da primeira edição da PNS. Mas dados infraestruturais da PNS confirmaram patamares divulgados no âmbito da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) em anos anteriores: 93,7% dos domicílios brasileiros têm água canalizada, 60,9% contam com esgotamento sanitário, 89,3% são atendidos por serviços de coleta de lixo e 99,6%, servidos de energia elétrica. 

Outro dado que já era conhecido e agora foi reafirmado pelo IBGE: o contingente da população que tem plano de saúde ou odontológico é de 27,9%, sendo a maioria no Sudeste e no Sul. Em 2012, a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, que usou informações da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), revelou que o porcentual era ligeiramente inferior: 24,7%. 

Esse é o segundo volume da PNS 2013. Baseia-se em questionários aplicados em 6.069 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e em 49.130 domicílios de todas as unidades da federação. O primeiro volume, divulgado há sete meses, se ateve a questões como incidência de doenças crônicas e estilo de vida dos brasileiros. As informações servem para a formulação de políticas públicas de promoção, vigilância e atenção à saúde do Sistema Único de Saúde.

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