Mais hospitais não diminuem mortalidade infantil, diz estudo

Segundo o estudo da UFSC, 'alocação de recursos devem levar essa realidade em consideração'

Fabiana Cimieri, do Estado de S. Paulo,

11 de março de 2008 | 18h46

Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostra que um maior número de hospitais e postos de saúde por 10 mil habitantes não está associado a menores taxas de mortalidade infantil. Esse resultado surpreendeu o pesquisador Antonio Boing, que analisou dados relativos a todos os quase 300 municípios brasileiros com mais de 80 mil habitantes.  Por outro lado, ele verificou que a maior parte das 63 mil mortes de menores de um ano ocorridas entre 2000 e 2002 poderiam ter sido evitadas com medidas simples como vacinação, controle pré-natal e ações de prevenção, diagnóstico e tratamento precoce. Para Boing, essa constatação reafirma a importância de mais investimento na atenção primária, e menos na construção de hospitais.  "Esse resultado pode ser explicado pelo fato de que um maior número desses estabelecimentos no município não necessariamente reflete uma melhor atenção primária ou um setor de média e alta complexidade mais bem estruturado e equipado", diz ele. A pesquisa, publicada na edição de fevereiro da revista Cadernos de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz, investigou a associação entre variáveis socioeconômicas, indicadores de serviços e investimentos em saúde e a mortalidade infantil por causas evitáveis.  Os pesquisadores verificaram que maiores Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), proporção de pessoas vivendo em domicílios com banheiro e água encanada, despesa total com saúde por habitante e número de médicos por mil habitantes estavam associados a menores coeficientes de mortalidade infantil por causas evitáveis. Estes também eram menores nos municípios do Sul e Sudeste, se comparados aos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, evidenciando uma desigualdade geográfica. No Brasil, nas últimas décadas, vem sendo observada uma tendência geral de redução das mortes infantis. Em 1980, morriam no país 83 crianças a cada mil nascidas vivas e, em 2004, essa taxa havia caído para 27 por mil. Contudo, este coeficiente ainda é elevado, sobretudo se consideradas as diferenças entre as regiões ricas e pobres. "Reduzir a taxa de mortalidade infantil por causas evitáveis no país é fundamental, entretanto há desafios adicionais. Um deles é diminuir a desigualdade na distribuição dos óbitos entre os estratos sociais e as regiões geográficas", afirma o estudo. "Olhares e ações iguais para realidades distintas apenas acentuarão as desigualdades, havendo necessidade, portanto, de políticas públicas coerentes com cada realidade. A alocação de recursos e o desenvolvimento de estratégias sociais e de saúde devem levar essa realidade em consideração", concluiu.

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