Getty Images
Estadão Summit Saúde 2019 discutiu tecnologias aplicadas à medicina Getty Images

Mais tecnológico. E humano

'Estadão Summit Saúde 2019' discutiu inovação com foco no humano, atenção primária, empatia, telemedicina e outros temas que permeiam a saúde na era digital

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h01

A saúde na era digital não será: ela já é realidade no País. Nas conversas de corredor e no palco do Estadão Summit Saúde 2019, realizado em 22 de agosto no Centro de Convenções do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, a percepção é de que o debate já não é mais sobre quando as mudanças vão chegar, mas como se adaptar a elas. O encontro contou com a presença do secretário de Saúde do Estado de São Paulo, José Henrique Germann Ferreira, além de médicos, docentes e representantes do setor.

A fala de abertura do cientista Fábio Gandour deu a tônica do evento organizado pelo Estado. Sem o elemento humano, não há negócio em saúde. O sentido é literal. As inovações tecnológicas, capazes de prolongar a vida e causar impacto positivo em um número cada vez maior de pessoas, jamais poderão prescindir dos alicerces que movem médicos, enfermeiros e tantos outros profissionais da área. Empatia e conversa com o paciente são fundamentais. Na ponta do lápis, oferecer escuta qualificada pode desafogar o sistema e promover uma gestão inteligente dos recursos.

Leia a cobertura completa do evento:

Encontrou algum erro? Entre em contato

A saúde na era digital volta ao básico

Iniciativas de hospitais e universidades têm como foco a atenção primária, capaz de antecipar fluxos e desafogar o sistema

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

É irreversível. Vivemos, corpo e mente, mergulhados em tecnologia de forma cada vez mais profunda e radical. Hoje, tudo passa pelo celular e pela conectividade – dentro dos hospitais, consultórios médicos e salas de aula, não seria diferente. A telemedicina, termo amplo que designa justamente as novas formas de mediação entre profissionais da saúde e pacientes, tem revolucionado a saúde pública de forma radical.

No Brasil, a primeira tentativa de regulamentar práticas de teleatendimento médico pelo Conselho Federal de Medicina (a resolução 2.227/18) foi aprovada em fevereiro de 2019 e derrubada no fim do mesmo mês, por mobilização dos próprios médicos, que afirmaram não ter sido consultados. É muita mudança em jogo, trazendo dúvidas de toda sorte. Pôr para funcionar as novas ferramentas tecnológicas em um país carente com dimensões continentais, onde faltam médicos, postos de saúde e água tratada, por exemplo, é desafiador. A integração entre a tecnologia e o foco na atenção primária podem ser a chave para assistir melhor a população, afirmaram os convidados palestrantes no Estadão Summit Saúde 2019

Nas salas de aula

Atenção primária é saúde em estado bruto: ações e estratégias que antecedem o atendimento médico e hospitalar propriamente dito. Identificação e prevenção de doenças, triagem dos casos e encaminhamento às unidades de atendimento, além do esclarecimento de dúvidas, fazem parte de seu escopo. 

Nos cursos de Medicina, o debate e o ensino da atenção primária ganharam espaço nos últimos dez anos. Apesar de a especialização na área de saúde da família e comunidade só ser feita durante a residência (não obrigatória), a grade curricular passou a incluir disciplinas sobre o assunto, como explica o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Daniel Knupp, que participou do evento. 

“O ensino da atenção primária é importante desde o início da graduação, uma vez que o aluno de Medicina precisa desenvolver um rol mínimo de competências para o exercício da profissão.” Knupp diz que as faculdades particulares saíram na frente no processo de readequação da grade curricular. A maior parte dos cursos, atualmente, dedica de um a dois semestres dos seis anos da graduação para abordar temas relacionados à atenção primária. 

Segundo Knupp, as faculdades públicas e as com cursos tradicionais têm levado mais tempo para se adaptar. Acabam formando mais especialistas. Ele acredita que um dos motivos é o fato de haver poucos professores com formação na área de saúde de família nessas instituições. “Temos 3 mil vagas para residentes em medicina de família por ano no Brasil, o que dá 10% do total de vagas de residentes”, diz Knupp. “Em países como Canadá, Espanha e Portugal, os números variam de 30% a 50%. Estamos no patamar dos EUA. É razoável por não ser obrigatório, mas é o mínimo.” 

Interesse renovado

A coordenadora do curso de Medicina da Universidade de Santo Amaro (Unisa), Jane Armond, que esteve no Summit Saúde como ouvinte, conta que, quando começou a dar aulas, 30 anos atrás, o interesse dos alunos pelo tema era pequeno. “A maioria queria se especializar em uma área que remunerasse bem. O cenário tem mudado e os alunos, desde o começo do curso, passam a ter contato com essa frente e a frequentar Unidades Básicas de Saúde (UBS). Eles ganham experiência e não precisam chegar à residência para vivenciar o dia a dia de um médico.” 

Apesar da pouca sincronia entre os currículos das universidades particulares e públicas na área de atenção básica, as públicas têm apresentado iniciativas de relevo. O câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) conta com o Centro de Atenção Primária, que tem como principal o objetivo reforçar a educação nessa área, independentemente do semestre em que o aluno esteja. 

No câmpus de Santos (SP) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Programa de Residência Multiprofissional de Atenção à Saúde, e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o Laboratório de Estudos em Atenção Primária, o foco está mais voltado a médicos em residência. 

Já a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) organiza desde 2017 a Mostra de Atenção Primária à Saúde e estimula futuros médicos a contarem as experiências vividas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) em Belo Horizonte. Em Salvador, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) também investe em atenção primária por meio do Instituto de Saúde Coletiva, que, além do atendimento à população, busca formar profissionais voltados à área. 

Mais saúde, menos doentes

O investimento em atenção primária no ambiente corporativo também vem mostrando resultados positivos. De acordo com Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, esse tipo de ação é oferecida a cerca de 14 mil colaboradores da instituição, além de seus 16 mil dependentes. 

Klajner conta que investir em prevenção entre os funcionários e seus parentes fez cair em 20% a busca por consultas médicas e por internações. “Usamos essa nossa expertise em tecnologia e organização e, além da melhoria interna, passamos a oferecer esse serviço para outras companhias, ampliando para cinco unidades de atenção primária do Einstein dentro da cidade de São Paulo. Até o fim de 2019, planejamos abrir mais duas”, revela. 

Ele ainda defende que a orientação correta, o manejo de doenças crônicas e a promoção e prevenção da saúde melhoram a eficiência do sistema de saúde. “O paciente tem o dever do autocuidado”, enfatiza Klajner. 

Antes do especialista

O Hospital Sírio-Libanês também passou a concentrar esforços na promoção da atenção primária. De acordo com Paulo Chapchap, diretor-geral da Sociedade Beneficente de Senhoras da instituição, esse cuidado consegue resolver de 80% a 85% dos problemas de saúde. 

O Sírio mantém, em parceria com o Ministério da Saúde, o Regula+Brasil. O programa atua como um ente regulador entre o atendimento na atenção básica e o encaminhamento para consultas de média e alta complexidade. 

“O paciente que necessita do encaminhamento especializado passa de imediato por uma avaliação feita por uma equipe de médicos, que participam do núcleo remoto de regulação proposto no projeto”, explica Chapchap. “Esses profissionais, de forma integrada a uma rede de telemedicina, avaliam o caso do paciente a partir de protocolos de saúde, com o objetivo de acelerar o processo de direcionamento aos ambulatórios especializados.” 

No encaminhamento, os médicos já indicam a prioridade do caso dentro de uma escala que vai de um a quatro, de acordo com a gravidade da condição. A ação permite ainda que, em caso de dúvida sobre diagnóstico ou exames, os médicos do núcleo remoto de regulação entrem em contato com o profissional da Unidade Básica de Saúde (UBS) para discutir o caso. A medida evita que o paciente seja encaminhado de forma desnecessária ao especialista, além de reduzir filas de espera no atendimento. 

A atenção primária também é oferecida pelo hospital a empresas por meio do programa Saúde Corporativa, que designa profissionais para cuidar da saúde dos funcionários e de seus dependentes, acompanhando-os no decorrer da vida. Esses médicos têm acesso a todo o histórico de saúde dos colaboradores, o que facilita na tomada de decisões e aproveitamento melhor da consulta. 

A relevância da declaração de Alma-Ata

Até 1978, a atenção primária não figurava entre as principais frentes de atuação dos órgãos de saúde. Foi neste ano que, após a Conferência Internacional de Cuidados Básicos de Saúde, realizada na cidade de Alma-Ata, no Casaquistão, a comunidade médica passou a se interessar mais pelo tema. Daniel Knupp acredita que a atenção primária se desenvolve em tempos de crise e em regiões e países em que os serviços de saúde são mais frágeis. O momento atual é propício à volta da atenção básica. “O Brasil possui um ótimo exemplo, que é o programa Saúde da Família. Com 30 anos de funcionamento e apesar de todas as dificuldades, vem apresentando resultados muito bons”, diz Knupp. “Desde sua criação, em 1990, o Sistema Único de Saúde também vem contribuindo para o crescimento da atenção primária mais resolutiva, que ajuda a romper a imagem do médico especialista. Aqui, ele não precisa resolver problemas. Ele precisa é cuidar da pessoa.” 

Três perguntas para Fábio Ortega

Um dos criadores do canal Doutor Ajuda, que traz explicações sobre doenças com foco em prevenção, Ortega participou do Summit Saúde em painel sobre comunicação e empatia.

1. Quais os desafios da saúde na era digital?

No sistema público, sem dúvida nenhuma o principal desafio é integração: posto de saúde, centro de saúde e hospital público precisam estar integrados pela informática. Dessa forma, as informações podem alimentar bancos de dados que, em um futuro não tão distante, podem ajudar a construir ferramentas de inteligência artificial. No sistema privado, é preciso entender que, com a aquisição de prontuários eletrônicos e mais tecnologia de análise de gastos, haverá melhoria na estimativa dos custos e um melhor entendimento sobre os gastos na saúde. Em suma, a maneira de ser médico vai mudar. 

2. Como o Brasil deve enfrentá-los?

O Brasil tem um sistema de saúde ruim e grande parte dessas inovações vem para melhorar. Mas existe um problema no País, no dinamismo de várias áreas. Há problemas políticos, corporativos e jurídicos, que podem atrapalhar tudo isso. O ideal é que fôssemos tão dinâmicos quanto as próprias inovações.

3. O que levou do evento?

Foi muito melhor do que eu imaginava. Gostei da abrangência do Summit. Isso faz com que todo mundo que trabalhe com saúde tenha uma noção do que virá e possa se preparar para o que vai acontecer. No fim, a sensação que dá é de que a saúde vai passar por uma revolução, do ponto de vista macro. Como coordenador do Canal Doutor Ajuda, nossa missão é sermos agentes transformadores. Levo comigo várias ideias e projetos que podem ampliar nosso escopo de atuação. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Empatia se ensina e faz bem à saúde

Cursos de Medicina promovem escuta e fala cuidadosas para qualificar o atendimento

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Enquanto o paciente espera ser ouvido e tocado, o médico preenche o prontuário, pede exames, fala pouco. Situações de falta de empatia e de dificuldade de comunicação estão entre as principais queixas dos pacientes, seja em hospitais ou consultórios. E também despertam a atenção da comunidade médica, que vem criando soluções para reduzir essa distância e sugerindo adaptações no ensino da profissão. 

“Empatia e comunicação são fundamentais na formação dos médicos”, acredita o urologista Fábio Leme Ortega, que participou do painel sobre o tema no Estadão Summit Saúde 2019. “No Brasil, formamos bons profissionais em algumas faculdades, mas acredito que não há foco específico nessas áreas, até porque é muito difícil ensinar empatia.” 

Ortega explica que, cada vez mais, os novos profissionais aprendem a entender o diagnóstico, mas não a pessoa, que não quer ser tratada como um número ou um prontuário. Para ele, um dos caminhos é trabalhar o que chama de “currículo oculto” dos cursos de Medicina: o aprendizado das boas práticas médicas, por observação. Significa dizer que o estudante replica o que aprende com seus professores e mentores, que o mostram como lidar com um paciente. 

A tecnologia pode desempenhar um papel importante nesse cenário, como mostra o Canal Doutor Ajuda, um dos exemplos apresentados no Summit. Presente nas redes sociais, a plataforma dissemina informações de saúde pública e tira dúvidas. A aproximação com o público é feita usando linguagem cotidiana e acessível, como conta Ortega, um dos criadores do Doutor Ajuda. 

Navegar pela doença

“Não dá para apagar o ‘dr. Google’, ferramenta que as pessoas usam para se informar e chegar à consulta mais bem preparadas”, diz Orestes Pullin, presidente da Unimed Brasil, que também esteve no evento. “Mas, muitas vezes, o paciente chega ao consultório com informações erradas e é neste momento que o médico precisa entender seu papel: ele não está em posição de afrontar o paciente, mas ao lado dele.” Pullin acredita que o médico precisa olhar para o paciente, conversar com ele e modificar sua forma de trabalhar.

A médica Graziela Moreto, que escreveu uma tese de doutorado sobre empatia na Medicina, crê que a formação de novos profissionais em saúde precisa corrigir a “erosão da empatia” identificada durante a fase de residência médica. “Quando o aluno é exposto à dor e ao sofrimento, isso cria emoções que, quando não trabalhadas pelo professor, podem levar ao distanciamento do paciente. Esse comportamento acaba se perpetuando durante a vida profissional”, argumenta.

Para o diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP, Paulo Andrade Lotufo, a empatia pode ser ensinada no formato narrativo e, principalmente, nas discussões sobre as condutas médicas. “O tema é pouco mencionado, não somente entre estudantes de Medicina, mas no ensino em geral”, critica. 

Segundo Lotufo, o desafio é quebrar a mentalidade ensinada a profissionais durante a formação, que faz os universitários pensarem e agirem como se estivessem “do lado oposto do balcão”. “Ou seja, como ver o mundo sob a ótica do próximo, do outro e, não somente a sua, como indivíduo ou corporação.” A comunicação empática é capaz de complementar e aperfeiçoar um diagnóstico. 

Três perguntas para Vera Valente

Diretora executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), Vera fez parte do painel que encerrou o Summit Saúde 2019, sobre os modelos de remuneração de prestadores de serviço.

1. Quais os desafios da saúde na era digital?

Falando em tecnologia de forma mais ampla, por um lado há muitas tecnologias que podem ajudar no acesso e na redução de custos. Mas é importante colocar telemedicina e inteligência artificial no contexto da saúde. Não tem nada que você possa usar em todas as situações. O foco sempre deve ser em melhorar a atenção ao paciente: as possibilidades de inovação são infinitas, mas os recursos são finitos.

2. Como o Brasil deve enfrentá-los?

Saúde no Brasil é um desafio enorme. Você tem uma parcela de pessoas na saúde suplementar e uma parcela grande dependente do Sistema Único de Saúde. Esses dois sistemas têm de coexistir. O SUS tem um problema sério de subfinanciamento e é importante que quem possa estar no sistema privado de saúde, esteja. É muito bom que as pessoas vivam mais, mas há um preço. É preciso discutir o que precisa ou deve ser feito.

3. O que levou do evento?

Participei do painel “Medicina baseada em valor: como avançar nos novos modelos de remuneração”. Hoje, o sistema funciona assim: o médico faz uma consulta, cobra; faz um exame, cobra; faz uma internação, cobra. Não há controle nenhum da qualidade do serviço prestado e nem se sabe se tudo que foi feito era realmente necessário. O modelo fee-for-service (pagamento pelo serviço) é algo perverso: quanto mais se usa, mais se ganha. Embora inicial, o debate ganha fôlego no mundo todo e o Estadão Summit Saúde 2019 trouxe discussões de altíssimo nível

Encontrou algum erro? Entre em contato

Para cada mal, uma narrativa

Criada em universidade americana, a narração na medicina humaniza tratamentos e a relação médico-paciente

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Desde 2016, o neurocientista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Afonso Neves tem uma missão em sua rotina cheia de atividades: despertar o sentimento de empatia e compaixão entre os estudantes de Medicina

Para embasá-lo, ele criou na universidade o projeto Narrativas em Saúde, que inclui o oferecimento de um curso de extensão e de uma disciplina chamada Medicina Narrativa, oferecidos anualmente e abertos tanto à comunidade médica quanto a outros interessados.

Essa troca de saberes tem raízes nos anos 1990, quando uma ala da Medicina passou a defender práticas mais humanizadas na saúde pública. A professora Rita Charon, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, foi uma das pioneiras, ao propor uma disciplina universitária dedicada à arte de contar a história de uma doença (e de sua cura). Nela, os médicos reveem, por escrito ou oralmente, a história dos males de cada paciente. O exercício ajuda a sensibilizar profissionais com as vivências e as particularidades de cada caso, o que, no limite, leva a respostas terapêuticas mais originais, humanas e individualizadas.

O despertar da empatia começa desde o início da graduação na Unifesp. No primeiro semestre, é oferecida a disciplina “iniciação à prática médica”, na qual os alunos visitam e conhecem o dia a dia de uma instituição e, como tarefa, devem produzir um texto sobre a experiência, lê-lo para a turma e conversar sobre o caso em sala de aula. “A narração possibilita um processo importante, pois dá ferramentas para que o profissional da área da saúde aflore sua sensibilidade no processo empático”, acredita. 

Para a médica Maria Auxiliadora de Benedetto, que pesquisa há décadas processos de narração em Medicina, quando se pede a um estudante que escreva a história de um paciente e que a apresente aos colegas, os resultados são surpreendentes. “Eles relatam que, ao registrar por escrito uma história, o aprendizado em relação a questões humanas se aprofunda.” 

Sobre os avanços no debate a respeito das práticas de teleatendimento, Afonso defende que ele deve ser um aliado na Medicina Narrativa, espécie de complemento da Medicina baseada em evidências. “Precisamos observar aspectos sociais, culturais e emocionais no protocolo médico. Nós tratamos de uma pessoa, não de órgãos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Inovação precisa considerar diversidade

Inteligências Artificiais auxiliam diagnóstico e desenho de políticas públicas

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Para desenhar políticas públicas, é fundamental levar em conta as diferenças sociais, raciais e culturais brasileiras. Marcadores específicos precisam estar contemplados em relatórios e pesquisas científicas e também na área da inteligência artificial (IA), espaços onde essa diversidade deve ser usada a favor do conhecimento. 

Para especialistas em tecnologia, por exemplo, nada melhor do que um país diverso como o Brasil para ensinar os computadores a entender como problemas de saúde podem afetar diferentes populações. No Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (Labdaps) da Universidade de São Paulo (USP), uma equipe de oito pesquisadores liderados pelo professor Alexandre Chiavegatto Filho cria algoritmos que conseguem diagnosticar pacientes, antecipar desfechos e indicar tratamentos e ações médicas, valendo-se do aprendizado de máquina. 

“Trabalhamos com dados públicos do Sistema Único de Saúde e também com informações fornecidas por hospitais, a partir de pesquisas feitas por eles”, explica Chiavegatto Filho. 

Funciona assim: a inteligência artificial aprende a tomar decisões com base em informações passadas a ela sobre casos anteriores. Os pesquisadores alimentam o sistema com uma quantidade grande de dados e o computador rapidamente encontra padrões e faz associações para analisar os casos e ajudar os médicos a tomar decisões mais bem informadas. 

Em outras palavras, a IA usa informações sobre pacientes atendidos anteriormente para prever o que pode acontecer com o paciente atual.

O problema é que, se a máquina for treinada apenas para identificar padrões entre pacientes em situações muito parecidas, ela não conhece questões específicas que podem ser diferentes em populações que acessam menos a rede hospitalar. Políticas de saúde pública mal desenhadas deixam de atender a quem mais precisa dela.

Quem fica de fora

Professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João Luiz Bastos estuda os impactos do racismo sobre a saúde das populações e destaca que há grupos sub-representados até mesmo nas pesquisas sobre desigualdade. 

“Uma discussão que se trava na literatura há algum tempo é a de quem acaba sendo recrutado para estudos nessa área e quais são os métodos para coletar os dados sobre esses participantes. A conclusão é de que o perfil do participante é aquele mais fácil de ser acessado”, afirma.

Os mais desiguais – população institucionalizada, em situação de rua, entre outros – ficam de fora e, portanto, acabam não sendo foco de políticas públicas, criando um círculo vicioso.

Ele alerta que o objetivo da diversidade nas pesquisas em saúde deve ser identificar necessidades em determinados grupos, e faz ressalvas quanto à promessa de desenvolvimento de medicamentos ou tratamentos específicos, considerando que o genoma humano é muito semelhante entre duas pessoas, independentemente de sua cor ou origem.

Outro ponto a ser observado, afirma Bastos, é a forma com que os dados são coletados. Para garantir a qualidade da informação, é preciso entender a população pesquisada.

Ele cita uma pesquisa de 2010 para exemplificar a necessidade de se criar uma estratégia de coleta de dados mais eficaz, até mesmo no Censo. 

“Mostrei que o relato do número de filhos que as mães têm ao longo da vida reprodutiva tende a ser subestimado para as mães indígenas do Norte do País”, relata. O professor percebeu que os recenseadores que entrevistavam essas mulheres tinham um problema de comunicação com elas, já que dependiam de intermediários para a tradução de um tema sensível. Por causa disso, as informações se perdiam.

“A gente tem um mantra na área da pesquisa em saúde pública: se você não tem dados sobre um tema, você não consegue pensar em estratégias para enfrentá-lo. Se você tem segmentos da população que estão ausentes das pesquisas, eles não podem ser alvos de políticas públicas”, observa.

Bons algoritmos

“Em geral, a desigualdade na saúde de um país é um grande problema, mas nas áreas de inteligência artificial e de machine learning é muito bom que tenhamos diversidade. Assim, conseguimos garantir que os algoritmos possam tomar boas decisões, principalmente para favorecer grupos mais vulneráveis”, diz Chiavegatto Filho. Para ele, o Brasil é um lugar propício para desenvolver algoritmos nessa área.

Mundialmente, ainda estamos longe de ter bancos de dados representativos da população. Na área da genômica, por exemplo, 81% dos estudos são em pessoas de ascendência europeia. Foi o que descobriram duas pesquisadoras da Universidade de Seattle, em 2016. De acordo com a análise, publicada em 2016 na revista científica Nature, populações nativas – ou indígenas – são as menos representadas em estudos da área. 

É a chamada “ciência weird” (acrônimo em inglês para designar grupos historicamente mais bem representados nas pesquisas científicas: ocidentais, bem educados, industrializados, ricos ou vivendo sob uma democracia).

Sem diversidade nos dados, os computadores têm mais chances de tomar decisões equivocadas quando o paciente fizer parte de uma população sobre a qual ele aprendeu pouco. Ou seja, a pessoa tem menos chances de receber diagnóstico e atenção corretos.

A consequência é um sistema de saúde ainda menos inclusivo para quem não está representado – pessoas de baixa renda, negros, mulheres, idosos, populações autóctones – e um aprofundamento da desigualdade. 

“As pesquisas nos Estados Unidos e na Europa não têm essa diversidade genética e socioeconômica que temos no Brasil. Não podemos importar os algoritmos usados por eles, porque têm essa tendência. Mas, treinando os nossos aqui no Brasil, podemos exportar para dezenas de países”, afirma o diretor do Labdaps.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Sistematizar, sem perder a privacidade

Compartilhamento de dados na saúde cria embates sobre quem vai ter essa informação e como ela será usada

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

O paciente procura um médico e sai da consulta com uma lista de exames para fazer. No mês seguinte, marca consulta com outro profissional, vai embora com uma guia quase idêntica à anterior e refaz todos os exames. Além de perder tempo, o paciente onera o sistema de saúde ou o plano a que faz parte.

De cara, a sistematização dos dados dos pacientes ajuda a cortar custos, ao evitar procedimentos médicos em duplicidade. Outra vantagem é facilitar o trabalho dos médicos, que, em posse de um prontuário completo do paciente, teriam uma visão global do que estão tentando decifrar. Além disso, conhecer o histórico do paciente sem depender de longos questionários a cada consulta ou retorno reduziria o problema de receitar medicamentos inadequados, por exemplo. 

Tudo isso é colocado em perspectiva quando se pensa que informação é poder. Quem terá acesso a esses dados? Eles poderão ser usados contra o paciente? E se algum plano de saúde não aceitar um beneficiário com condições genéticas específicas ou problemas crônicos já relatados?

“A ideia é que, quando uma pessoa estiver frente a frente com qualquer profissional de saúde, ele (o profissional) saiba quais procedimentos a pessoa já fez, quais as necessidades”, afirmou Mauro Junqueira, secretário executivo do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, no painel “Os Desafios de Inovar em Saúde em um País Diverso e Desigual como o Brasil”, durante o Estadão Summit Saúde 2019

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que entrará em vigor em 2020, prevê que o compartilhamento das informações de saúde dependa do consentimento do paciente.

Uma das principais preocupações está em como esses dados poderão ser usado pelas empresas de seguros e planos de saúde. “A lei foi muito clara e restritiva em relação a isso. Ela não permite o uso dos dados para o escalonamento de valores de planos, mesmo que isso seja para benefício do usuário”, afirma o advogado especialista em direito público Roberto Ricomini Piccelli, sócio do Teixeira Ferreira e Serrano Advogados e autor do livro A Dimensão Política da Privacidade.

Além da importância dessa sistematização para a criação de políticas públicas e investimentos, ele considera a questão relevante do ponto de vista de segurança nacional. “No caso da saúde, existe um interesse em proteger coletivamente os dados mais sensíveis dos brasileiros. Uma forma mais inteligente de gerir essas informações seria por meio de uma autoridade centralizada”, opina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Games na saúde pública engajam e educam

Jogos e aplicativos promovem interatividade e ajudam profissionais a informar e incentivar o autocuidado

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

A designer mineira Tricia Campos Araújo nasceu com lábio leporino. Passou a infância entre cirurgias – foram mais de 15 – e teve por 8 anos o acompanhamento de um fonoaudiólogo. Daquele tempo, guarda cicatrizes e a lembrança do bullying sofrido. Mas também lembra que devia ter feito mais exercícios por conta própria para treinar a fala. Faltava-lhe estímulo. Quase sempre, ia à consulta sem ter feito a lição de casa. 

“Tricia percebeu que o método de reabilitação de uma criança que nasce com essa condição não mudou quase nada. Hoje em dia, é igual”, conta seu marido, Bruno Tachinardi Andrade Silva, desenvolvedor de games. Pensando nisso, Bruno e Tricia uniram habilidades e criaram o Fofuuu, uma ferramenta interativa que ajuda no tratamento de crianças com distúrbios da fala e de comunicação. 

Ao longo dos painéis de discussão do Estadão Summit Saúde 2019, gestores e médicos trataram a gamificação na área da saúde como um fato dado. Durante um dos painéis, Sidney Klajner, presidente da associação a que pertence o hospital Albert Einstein, em São Paulo, afirmou acreditar no potencial educativo de jogos que oferecem algum estímulo ou recompensa quando o usuário é levado a desenvolver alguma tarefa. 

Adesão à mudança

“A gamificação é essencial em algumas áreas, principalmente quando a gente fala de doenças crônicas, no caso da prevenção e da manutenção de tratamentos longos, quando há necessidade de fazer atividades cotidianas e provocar mudanças de estilo de vida”, afirma Andrade Silva. Sempre que é necessário passar por reabilitação, controlar obesidade ou monitorar a condição cardíaca, é importante engajar a população no autocuidado. 

Adesão ao tratamento é um grande problema na saúde pública. Nos EUA, 50% dos pacientes com doenças crônicas não fazem o que o médico pede. A consequência é preocupante: uma pessoa que não segue as orientações médicas pode precisar de cirurgia ou intervenção mais séria tempos depois.

“Doenças crônicas como diabetes e hipertensão acompanham o paciente ao longo da vida e precisam despertar as pessoas para o autocuidado. A gamificação traduz a realidade dos pacientes e ‘termina’ com um benefício, uma recompensa, para que ele siga boas práticas. É uma ótima maneira de motivar e engajar a pessoa a seguir determinado comportamento”, explica o urologista Fábio Leme Ortega, presente no Estadão Summit Saúde 2019.

Crescer e se cuidar

 Para Fernanda Figueiredo Chaves, enfermeira especializada em saúde coletiva, é importante concentrar esforços na educação dos mais novos, mais aderentes às novas tecnologias. Fernanda finaliza em 2019 seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em que desenvolveu um jogo que engaja pacientes adolescentes portadores de diabetes tipo 1.

Aplicativos e jogos facilitam o trabalho dos profissionais de saúde, na opinião dela. “O diabetes exige que as pessoas tenham disciplina para controlar a glicemia. É importante praticar exercícios, vigiar a dieta. Uma novidade do projeto em que tenho trabalhado é envolver a parte emocional nesse processo. A gente sabe que estados como tristeza, raiva, medo e alegria influenciam a glicemia também”, diz Fernanda. “Então, interagimos com o usuário para que ele diga como está se sentindo e orientamos as ações a partir daí. Controlando a glicemia, o adolescente, através de seu avatar no aplicativo, vai ganhando acessórios e gadgets no jogo". 

No Fofuuu, as crianças interagem com os jogos por meio da voz. As atividades em que ela se envolve no consultório são levadas para o ambiente doméstico. Assim, a criança pode treinar em casa, divertindo-se. 

“É uma transformação da terapia digital. A plataforma também auxilia os fonoaudiólogos a acompanhar o desenvolvimento das atividades e fornece relatórios sobre o que acontece em casa”, explica Silva. "Os jogos são voltados para crianças de 2 a 6 anos, mas alguns deles atingem crianças de até 12 anos diagnosticadas com autismo ou síndrome de Down que ainda estão em fase não verbal". 

Experiência divertida

Empresas de medicina diagnóstica também têm olhado para os games. O Grupo Fleury tem quatro programas, entre eles o Conecta Saúde, que engaja o público com informações sobre formas de contágio de ISTs. 

Além de pensar em jogos para promover autocuidado, o Hospital das Clínicas da USP quer aplicar a gamificação na experiência dos pacientes. “A ideia é trazer elementos de games, principalmente o aspecto narrativo, para transformar experiências consideradas chatas – como esperar para ser atendido ou doar sangue – em algo mais divertido”, relata Ivisen Lourenço, gerente de Marketing de Inovação do HC, com foco no InovaHC, movimento que trabalha com gamificação em saúde. O grupo prepara ferramentas de para profissionais até jogos para os funcionários do hospital

Encontrou algum erro? Entre em contato

Consultas médicas na palma da mão

Modalidades de teleatendimento reduzem fila e esclarecem casos com mais rapidez

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Imagine um grupo de médicos, cada um em uma cidade do Brasil, trocando informações por voz, vídeo e imagem. A cena é mais trivial do que o futurismo profetizado no cinema, mas esse contato virtual é faceta das práticas da telemedicina no País. Desde junho de 2018, o Ministério da Saúde, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desenvolve o projeto Regula+Brasil, cujo objetivo é reduzir as filas de espera no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Segundo o coordenador de Inovação e Tecnologia do Sírio, Cesar Biselli, a telemedicina coloca o paciente no lugar certo, na hora certa. “Este é um dos lemas do programa: otimizar o atendimento e usar os meios disponíveis para isso”, explica. “Muito se fala que é preciso investimento robusto para a prática da telemedicina, mas se houver acesso a um smartphone e internet, é possível fazer muita coisa boa.” 

Biselli conta que, só em 2019, dos 181.597 casos encaminhados ao Regula+Brasil, 62.489 foram aprovados para consultas mais específicas após a aplicação de protocolos de teleatendimento ou discussão telefônica. Os outros dois terços (mais de 60%) foram atendidos via atenção primária. Apenas com uma triagem mais certeira, os casos mais graves viram a fila de espera para consultas e exames cair de 163 dias para apenas 6. 

Atualmente, o programa funciona em unidades de saúde do Amazonas e do Distrito Federal, e nas cidades de Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS). Uma cidade do Nordeste deve ser a próxima a ser incluída no mapa do Regula+Brasil. 

Para Cesar, o acesso a médicos do Sírio em 13 especialidades, dando suporte à rede do SUS, é uma ferramenta que só tende a beneficiar a troca de informações e a rapidez nos diagnósticos. “Vivemos em um país continental, onde os serviços não chegam de maneira distribuída. Algumas iniciativas da telemedicina podem ajudar a diminuir custos e entregar mais valor à sociedade.”

O conselheiro federal do Conselho Federal de Medicina (Cremesp), Aldemir Soares, que participou de um painel sobre o tema no Estadão Summit Saúde 2019, concorda. “A tecnologia entra nas comunidades onde há carência de um médico em tempo integral e também quando as distâncias geográficas entre a comunidade e um ponto de atendimento médico viram uma barreira.” 

Tecnologia na pele

 Além do Regula+Brasil, existem outras iniciativas no Brasil que já se beneficiam de práticas da telemedicina. O Hospital Israelita Albert Einstein investe no segmento por conta própria desde 2012 e uma das especialidades atendidas é a dermatologia. 

Por meio de um produto criado pelo hospital com foco na figura do médico de família, os profissionais do Einstein conseguem orientar o médico da Unidade Básica de Saúde a ir por três caminhos: agendar e aguardar a consulta com um dermatologista, fazer o tratamento indicado pelo médico de família com auxílio de um especialista e, em casos mais graves, como suspeita de melanoma, ser encaminhado com urgência para a cirurgia. A avaliação é feita com fotos enviadas por mensagem de celular. 

Em 2017, a teledermatologia do Einstein encaminhou e resolveu de 69 mil casos dermatológicos na cidade de São Paulo. Neste ano, a iniciativa foi levada para a região de Catanduva, no interior do Estado. 

Também desde 2017, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, utiliza um programa voltado à especialidade da dermatologia. Trata-se da plataforma DermatoNet, desenvolvida para auxiliar médicos do SUS na identificação de doenças de pele e no melhor encaminhamento dos casos. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, que participa da iniciativa, foram realizados 5 mil teleatendimentos no Estado entre fevereiro de 2017 e março de 2019. 

Não há dados consolidados sobre diminuição de filas em postos de saúde, mas, segundo o coordenador do projeto, Natan Katz, foi possível observar sua diminuição, uma vez que a triagem mais assertiva faz com que tanto o paciente quanto o médico ganhem em tempo e qualidade no atendimento. A Coordenadoria de Telemedicina da universidade também tornou disponível o auxílio à oftalmologia e estuda implementar teleatendimento para casos de tuberculose. 

Cautela com os avanços

 Apesar da euforia com os avanços tecnológicos e os benefícios prometidos, parte da comunidade médica pede cautela. O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Mario Jorge Tsuchyia, admite que a telemedicina é irreversível e uma realidade, mas é preciso um debate mais aprofundado antes de ela ser regulamentada no Brasil. 

“Precisamos caminhar passo a passo com a regulamentação. É um assunto muito amplo. Não vamos conseguir fazer tudo de uma vez. Para que a sociedade se beneficie e tenha segurança, esse é o ponto de maior preocupação para o conselho regional”, diz Tsuchyia. “Enquanto não houver redução dos riscos dessa nova tecnologia, será difícil a regulamentação. É preciso discutir e definir qual o melhor formato. A sociedade precisa participar desse processo.”

A visão mais crítica de Tsuchyia, que debateu o tema no painel que abriu o Estadão Summit Saúde 2019, “O que Esperar da Telemedicina no Brasil”, se dá pelo alto custo de implementação das tecnologias e pelos problemas estruturais do Brasil, como a falta de unidades básicas de saúde e acesso ruim à internet em boa parte do País. 

Responsabilidade médica: com quem fica?

Médicos trocando informações entre si não é algo que surgiu ontem. A prática se avoluma na medida em que se amplia o acesso aos recursos tecnológicos. 

Se, há 30 anos, o intercâmbio de ideias entre médicos era feito pelo telefone, como lembra o diretor médico do Hospital Nova Star, Antonio Antonietto, hoje a troca se dá em múltiplas plataformas, em um ritmo ultraintenso e com recursos de imagem e som. Antonietto participou do painel que encerrou o Estadão Summit Saúde 2019, que discutiu o valor do serviço médico e novos modelos de remuneração.

“Lembro que a primeira vez que ouvi falar de telemedicina, que eu prefiro chamar de telesaúde, foi em um congresso em Londres, nos anos 1990. Uma enfermeira, ligada a uma ONG na África, telefonava para médicos da capital inglesa para saber como proceder em casos cujo diagnóstico não estava fechado. Todas as áreas da saúde trocam informações, sempre foi assim”, afirma ele. 

A corresponsabilidade médica, que, assim como a telemedicina, não está regulamentada no Brasil, é prática comum entre os profissionais e conta com o apoio de órgãos que regulam o setor, como o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que aprova a troca de informações entre médicos por mensagem e orienta que nelas não sejam expostos nem nome nem imagens do rosto do paciente, como forma de preservar a confidencialidade do atendimento. 

O que incomoda parte da classe médica, de acordo com Antonietto, é que hoje a conversa ficou muito mais amplificada e veloz. Não só médicos têm trocado informações: pacientes e seus parentes também viraram interlocutores ativos nesse processo. “Tenho uma visão mais liberal sobre isso, mas defendo que é preciso uma regulamentação do que pode ou não ser feito.”

Antonietto lembra que hoje muitos médicos praticam “telemedicina presencial”, na qual não há contato. “Há profissionais que mal tocam o paciente e já pedem um monte de exames. Isso está errado.” Ele defende equilíbrio, assim como Roberto Nunes Umpierre, coordenador-geral do programa Telesaúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

mpierre orienta profissionais com o objetivo de “qualificar o trabalho das equipes de atenção primária à saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), ajudar na tomada de decisão clínica e gerencial e aumentar a resolutividade”. Durante o processo de tomada de decisão, seja pessoalmente ou com o auxílio da tecnologia, todas as informações transmitidas pelos profissionais do programa são checadas em ao menos duas referências bibliográficas, ou seja, tem como base evidências científicas. Isso fez com que, nos 12 anos de atuação, o serviço não tenha recebido nenhuma queixa no Conselho Regional de Medicina, tampouco ação judicial por conduta imprópria, garante o médico.

Para Umpierre, se um erro eventualmente ocorrer – como a indicação incorreta de uma dosagem de medicamento –, o profissional do teleatendimento e o que orienta presencialmente devem compartilhar a responsabilidade. “É assim que os Conselhos têm entendido os casos.”

Ele lembra que a atual resolução sobre o assunto é de 2002 e que muita coisa mudou na área nos últimos 17 anos. “Acredito que deve existir uma forma de responsabilização mais específica. A consulta presencial também tem riscos, mas acho que os conselhos têm de estar bastante atentos à forma como isso está se transformando.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O fator humano, do ultrassom à genômica

À plateia do 'Estadão Summit Saúde 2019', cientista lembrou do tempo em que os médicos rejeitavam a ultrassonografia, mas recomendou cuidado com 'inovação a qualquer preço'

Entrevista com

Fábio Latuf Gandour, keynote speaker do Summit Saúde Brasil 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Inovação em saúde nem sempre custa caro. Também não deve ter como meta prolongar a vida a qualquer preço. Essas ideias têm sido o “corolário” do médico e cientista Fábio Latuf Gandour, keynote speaker do Summit Saúde Brasil 2019. Em entrevista ao Estado após a fala que abriu o evento, “pensada para provocar a plateia”, Gandour refletiu sobre os dilemas médicos da atualidade: como profissionais da saúde e da ciência, que estão à frente da inovação, precisam ter em mente que o foco da inovação tecnológica deve ser a qualidade de vida do paciente. Gandour, PhD em Ciências da Computação, atingiu o posto de cientista-chefe do laboratório da IBM Research Division no Brasil, empresa na qual trabalhou por quase 30 anos.

Já houve algo tão revolucionário em saúde quanto o que vivemos hoje em dia?

A gente já teve atitudes inovadoras que produziram grandes impactos, sem proporcionar grande aumento de custo. Um exemplo legal é o ultrassom. É uma inovação fantástica porque, antes, a produção de imagens investigativas da condição interna do ser humano passava pelo raio X. Pense num indivíduo que lá atrás teve câncer de pulmão: ele foi tão radiografado que, por vezes, nem morre de câncer, mas de fibrose pulmonar. A inovação é absolutamente necessária, desde que tenha fundamentos técnicos e científicos sólidos, e que esteja nas mãos de pessoas que vão persistir em sua implementação e disseminação.

O senhor se preocupa com algo que saia do controle?

Não tenho preocupação com inovação na saúde. A preocupação que tenho é com o aumento da sobrevida. Minha preocupação é num nível quase filosófico. Quanto mais gente viva houver no planeta, mais a gente vai explorar suas potencialidades sustentáveis. Quando a gente fala de aumento de população, não é só mais gente. É mais gente comendo, mais gente usando metrô, mais gente consumindo água. É esse tipo de circunstância que me preocupa, por conta da eficácia da medicina moderna.

É de certa forma uma ironia da qual a gente não consegue fugir?

Sim, é uma ironia. Por isso que Stephen Hawking (físico teórico e escritor, que morreu em 2018)  falou que devemos usar o resto da energia e de vida que nos resta para explorar um novo planeta, porque a Terra não vai resistir mais, principalmente se a longevidade da população aumentar muito.

Como o senhor vê o conceito de “driblar” a morte, possibilitado pelas inovações?

Encaro o tema do mesmo jeito que estou encarando o envelhecimento da minha mãe e da minha tia. Minha mãe tem um patrimônio genético de um ramo da família no qual o povo não morre, só se for atropelado. Eles passam dos 100 anos fácil. Ela está magrinha, ativa, surda, muito esquecida e mora no interior. Ela está com 94 anos. Minha tia, de 86, que tem demência senil há muito tempo, foi fumante. O tabagismo entupiu suas artérias, ela é cadeirante e não consegue colocar os pés no chão. O que eu poderia fazer? Trazê-la a São Paulo, submetê-la a milhões de exames, intervenções, stents… O que eu e meu irmão fizemos, então? Primeiro, ela vai continuar lá no interiorzão. Transformamos a casa onde ela sempre morou numa clínica de repouso. Alargamos porta para passar a cadeira, colocamos corrimão em banheiro. Isso não é caro, mas tem de ser feito. O que é caro são os cuidados, as pessoas. Lá temos uma infraestrutura com cuidadora 24 horas por dia, no fim de semana tem folguista, durante o dia tem a pessoa que cozinha e limpa a casa... O que mais a gente pode fazer? É aquilo, sem sofrimento. A melhor coisa que a gente fez foi não tirá-la do ecossistema dela. Esse é o tipo da recomendação que faço às pessoas, para que não tentem buscar sobrevivência a todo custo. O pior é que quem faz isso não é quem vai morrer, mas quem fica. Por isso surgiu aquela nova enfermidade, que é morrer com saúde.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
'Inovação na área da saúde acontece em movimento pendular. Vai e volta entre o polo da aceitação e o polo da rejeição. Mas, depois, de aceita, cresce de maneira exponencial.'
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Fábio Latuf Gandour

É um sofrimento a mais para quem está vulnerável?

Pois é, alivia a culpa de quem fica, tudo bem, mas para quê?

O senhor acompanha as discussões sobre tornar a morte mais confortável?

Vejo, mas não do lado de cá do mundo. Medicina paliativa está crescendo demais e agora vai ser um treco de doido. Mas o local que tem uma medicina paliativa extremamente desenvolvida é a Mongólia. O mongol, quando vai morrer, volta às origens, volta para dentro da tenda no pé da montanha. E outra coisa, medicina paliativa não é só supressão da dor, não é só dar morfina. Tem de ter o também aquele componente do acolhimento.

Que mensagem tentou passar na abertura do evento?

Fico plantando minhoca na cabeça dos outros. Muita gente na plateia é gestor. Tenho certeza de que, quando me ouvem falando, eles pensam: na minha empresa a gente faz exatamente o contrário. Então eu queria muito encontrar um jeito de trazer uma contribuição – não de caráter humanitário, a gente não está aqui para fazer caridade –, mas eu queria encontrar um jeito de os gestores incorporarem essas recomendações. Porque – e digo isso com um pouco de falta de modéstia da minha parte – elas (as recomendações) têm um forte fundamento técnico e científico. Nada do que falei lá na abertura é achismo. Esse corpinho envelhecido propõe fortemente que os gestores usem conhecimento. É um mundo muito fechado, o do MBA de administração. Senão, o que pode acontecer é tudo, menos inovação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.