Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Mandetta defende ciência e contrapõe declarações de Bolsonaro sobre covid-19

Ministro da Saúde afirma que está com os "cabeças brancas da medicina no ouvido" para tomar as decisões

Julia Lindner e Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2020 | 21h26

O ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou neste sábado, 28, que as ações da pasta no combate ao novo coronavírus vão se nortear pela ciência. Com isso, contrapôs declarações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro mesmo sem citá-lo diretamente. Enquanto entidades da saúde criticam a postura de Bolsonaro, Mandetta afirma que está com os "cabeças brancas da medicina no ouvido" para tomar as decisões.

"Quem raciocinar pensando que nesta (epidemia) será assim (como na H1N1), vai errar feio", disse Mandetta. Na sexta, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, em entrevista ao Programa Brasil Urgente, que "alguns vão morrer" por causa do novo coronavírus no Brasil e comparou que a situação é semelhante ao que ocorreu com a gripe H1N1 em anos anteriores.

"Essa epidemia é totalmente diferente da H1N1. Eu fui gestor na época, também tomei providências e havia uma diferença enorme. Existia um medicamento que todo mundo tinha na mão. Existe uma diferença enorme, porque para a H1N1 daquela época existia uma perspectiva de vacina, porque era da classe da Influenza", afirmou o ministro da Saúde.

Em linha oposta ao discurso do presidente Bolsonaro, Mandetta destacou que, apesar da maioria dos óbitos ocorrer na população acima de 60 anos, não são todos. Ele afirmou que alguns jovens ainda desenvolvem quadro respiratório mais grave. Segundo o ministro, essa é uma gripe mais arrastada, talvez com menos sinais de gripe, mas que cansa o indivíduo. Também defendeu a necessidade de fechar escolas para que crianças assintomáticas não transmitam a doença para os mais velhos.

Para Bolsonaro, o isolamento deve ocorrer de forma vertical, voltado apenas para idosos e pessoas com doenças crônicas. "Não deixa o vovô sair de casa, deixa (o vovô) em um cantinho. Quando voltar para a casa, toma banho, lava as mãos, passa álcool na orelha. É isso daí", disse o presidente há dois dias.

Outro ponto levantado por Mandetta neste sábado foi em relação ao que tem ocorrido em outros países. O ministro afirmou que "aqueles que pensarem localmente e não tiverem cabeça e visão para ver o mundo, terão dificuldade". Questionado se o Brasil pode chegar a situações semelhantes de locais como Itália, Espanha e Estados Unidos, Bolsonaro disse na última semana que "o brasileiro tem de ser estudado" por, supostamente, "pular no esgoto e não acontecer nada". Apesar das milhares de mortes em países como Itália (mais de 8 mil), Estados Unidos (mais de mil), Espanha (mais de 4 mil) e China (mais de 3 mil), Bolsonaro afirmou que "o povo foi enganado" sobre a gravidade da infecção e que a previsão de milhares de mortes não se confirmou.

Mandetta deixou claro, ainda, que o governo fará esforços para poupar a vida de todos durante a epidemia. Ele também rebateu falas que minimizam o número de mortes pela doença. "Essa doença causou não uma letalidade para o indivíduo, não é esse o nosso problema, nem daqueles que falam assim, 'ah essa doença só vai matar 5 mil, 10 mil', não é essa a conta. A conta é que esse vírus ataca o sistema de saúde e ataca o sistema da sociedade como um todo, ataca a logística, ataca a educação, ataca a economia."

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