Márcio Pinheiro/SESA
Márcio Pinheiro/SESA

Médicos devem se responsabilizar pelo uso de cloroquina, diz Mandetta

Ministro da Saúde disse que não mudará o protocolo antes de evidências científicas robustas sobre segurança e eficácia da droga para pacientes leves

Vinícius Valfré e Julia Lindner / Brasília, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 18h36
Atualizado 07 de abril de 2020 | 23h42

Em resposta a pedidos de liberação ampla do uso da cloroquina e a hidroxicloroquina como tratamento e até prevenção ao novo coronavírus, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), afirmou nesta terça-feira a pasta recomenda o uso dos produtos a pacientes em estado grave ou crítico. Ele também disse que não mudará o protocolo antes de evidências científicas robustas sobre segurança e eficácia da droga para pacientes leves, mas observou que médicos sempre puderam receitar o tratamento, assumindo riscos e responsabilidades.

"Já liberamos cloroquina e hidroxicloroquina tanto para os pacientes críticos, aqueles que ficam em CTIs, quanto para qualquer paciente em hospital, o moderado. O medicamento já é entregue, já tem protocolo. Nós estamos analisando para casos anteriores aos leves, que é onde pode haver algum tipo de senão. Isso ainda existe um pouco de dúvida, por conta de efeitos colaterais", disse Mandetta.

O medicamento pode, no entanto, ser prescrito por um médico para casos mais leves, como reafirmou Mandetta. No fim de março, a Anvisa determinou que a venda destes medicamentos só pode ser feita com receita branca especial em duas vias. A medida evita desabastecimento nas farmácias dos fármacos, usados também para pacientes de malária e doenças autoimunes, por exemplo.

"No momento, o que a gente (Ministério da Saúde) faz é disponibilizar (cloroquina) para aqueles pacientes de gravidade média e avançada. A prescrição médica no Brasil... a caneta e o CRM (número de registro do profissional) estão na mão dele (do médico). Se ele quiser comunicar o paciente que não tem nenhuma evidência, acho que poderia usar o medicamento, com tais riscos, e se ele se responsabilizar individualmente, não tem óbice, ninguém vai reter receita de ninguém", disse o ministro.

Mandetta afirmou que o órgão acompanha estudos clínicos com medicamentos que podem servir contra a covid-19, entre eles a cloroquina e a hidroxicloroquina. Também estão sendo testadas a combinação de hidroxicloroquina com azitromicina, interferon beta b1, entre outros produtos. Os primeiros resultados devem ser conhecidos a partir do próximo dia 20.

Ao todo, 5 mil pacientes com quadros clínicos variados farão parte dos protocolos de pesquisa. Enquanto isso, o ministro recomenda cautela na prescrição do medicamento.

"Para o ministério da saúde assinar que recomenda que se tome essa medida (uso da cloroquina para todos os casos), nós precisamos de mais tempo para saber se isso pode se configurar em uma coisa boa ou se pode ter efeito colateral. Não é questão de gostar mais de A ou de B, é simplesmente analisar com um pouco mais de luz e com base na ciência", defendeu.

O secretário de Ciência  Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, garantiu que o Ministério da Saúde mantém a orientação para os Estados tratarem os pacientes graves e críticos com o medicamento. "Não houve nenhuma modificação”, afirmou.

Segundo nota técnica de 27 de março do Ministério da Saúde, o governo federal disponibiliza para uso, “a critério do médico”, a cloroquina como terapia para pacientes internados. “A presente medida considera que não existe outro tratamento específico eficaz disponível até o momento”, diz a nota.

A forma de uso destes medicamentos opõe Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro. O mandatário pede distribuição mais ampla do produto para pacientes com casos leves e até para uso preventivo a quem sequer tem sintomas.

Mandetta voltou a afirmar que não está nos planos, considerando os estudos atuais, liberar o uso para pessoas sem sintomas ou até mesmo a entrega do produto em postos de saúde. A ideia, disse, é que o tratamento seja feito em ambiente controlado.

O ministro afirmou que pediu ao Conselho Federal de Medicina (CFM) para colher observações clínicas dos profissionais sobre administração das substâncias. O ministro frisou que cabe à entidade recomendar ou não os medicamentos.

Na segunda-feira, Mandetta afirmou ter sido pressionado por dois médicos a editar um protocolo para ampliar a administração dos medicamentos, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Ele se recusou alegando ausência de embasamento científico.

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