Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Mandetta prevê dificuldades no combate ao coronavírus no Brasil: 'Não somos uma ilha'

Ex-ministro comenta suas divergências com o presidente Bolsonaro e acredita que os números da doença devem aumentar nos meses de maio e junho

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 12h51

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mostrou na manhã desta quinta-feira, 7, suas preocupações em relação ao novo coronavírus. Em entrevista à CNN Brasil, o médico comentou sua saída do Ministério, falou sobre as dificuldades que o Brasil precisa superar para combater o vírus e disse que não gosta de divulgar projeções sobre a doença.

Mandetta disse que mantém uma relação “muito respeitosa” com o presidente Jair Bolsonaro, de quem foi ministro até o dia 16 de abril. “Discordamos publicamente. Ele tinha uma visão que era mais difícil para eu entender”, afirmou, justificando sua saída do cargo. “Ele entendeu que teria necessidade de outra equipe no Ministério porque cabe a ele montar o seu corpo de ministros”, continuou.

Ele lembrou que um dos maiores pontos de embate com o presidente era sobre o isolamento social. O ex-ministro citou as vezes que Bolsonaro foi a público para se manifestar a favor da retomada da movimentação. “Isso se chocava com a posição do Ministério da Saúde que vinha público falar: ‘fique em casa’”, disse Mandetta.

Além da dificuldade de conscientizar a população para que mantenha o isolamento, o médico relatou outros fatores que atrapalham o Brasil na luta contra o coronavírus. O primeiro a ser mencionado foi o tamanho do país. “Somos uma sociedade muito grande. Não adianta querer comparar o Brasil com a Nova Zelândia ou a Finlândia, com países que são uma ilha”, disse.

A desigualdade social e as deficiências do SUS também dificultam o trabalho das autoridades de saúde. “Não falta luta no sistema de saúde, mas há limitações históricas”, pontuou. "Isso pode ser um obstáculo à expansão da rede."

O ex-ministro também comentou sobre a dificuldade de se encontrar gestores para os cargos da área de saúde. Um dos motivos, justifica, é a peculiaridade de cada região do Brasil. Ele citou o Amazonas como exemplo, que contratou a paulista Simone Papaiz para comandar a Secretaria de Saúde. “Até ela entender a complexidade do que deve se fazer na saúde pública em um Estado como Amazonas (...) isso tudo joga a favor do vírus”, disse.

Pico da doença

Luiz Henrique Mandetta explicou que não gosta de divulgar projeções sobre o avanço do novo coronavírus. Ele disse que os cenários são uma ferramenta de uso interno, que servem para o gestor planejar suas ações. “Eu recebi cenários catastróficos, com números horríveis, e recebi cenários com números extremamente otimistas”, revelou.

“Eu vi alguns, do alto da sua da sua pretensa sabedoria, falar que não passaria de mil casos, que era igual a H1N1”, disse, referindo-se ao ex-ministro da Cidadania e deputado federal Osmar Terra (MDB), que chegou a ser cotado para substituir Mandetta no Ministério da Saúde.

Mandetta acredita que os números da doença devem aumentar nos meses de maio e junho e permanecer em alta durante o mês de julho. A desaceleração deve começar na segunda quinzena de agosto. Ele lembrou que o Brasil entrará no inverno em breve e que isso deve favorecer a proliferação do vírus, especialmente na região Sul. Na região centro-oeste, são os meses de agosto e setembro que preocupam devido à massa seca de ar que assola a região no período. “Isso facilita demais a entrada dos vírus respiratórios”, explicou.

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