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Daniel Martins de Barros
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Mania de perseguição

Há prejuízo quando pessoa vê tudo como conspiração e não considera outras visões

Daniel Martins de Barros *, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2019 | 03h00

“Você está falando comigo? Não tem mais ninguém aqui... Com quem você acha que está falando?!” – pergunta Travis Brickle, antes de sacar sua arma. Detalhe: não existe interlocutor, ele está falando sozinho. Vestindo uma jaqueta militar, ele testa um mecanismo que faz um revólver saltar da manga diretamente para sua mão. A arma surge como argumento definitivo numa discussão imaginária, que ele sonha encerrar mostrando o revólver.  

A cena é famosa – já faz parte dos clássicos do cinema. O ainda jovem Robert De Niro interpreta o personagem em questão, um taxista veterano de guerra cuja paranoia o leva a enxergar ameaças para onde quer que olhe, no filme Taxi Driver, de 1976. Como bom paranoico, aliás. 

Além da desconfiança generalizada, as pessoas com traços de personalidade paranoica tendem a ser rancorosas, guardando mágoas e ofensas que nem sempre ocorreram de fato. Isso porque é comum terem uma percepção distorcida, encarando como ofensivas situações neutras ou mesmo amistosas. E frequentemente são briguentas, exigindo seus direitos de forma exagerada e desproporcional, além de manterem uma atitude autorreferente, ou seja, tudo é sobre mim. 

Um dos primeiros autores a descrever a personalidade paranoica, o psiquiatra alemão Kurt Schneider chamou essas pessoas de fanáticas, “dominadas por pensamentos que exageram o valor de suas ideias”. Tudo o que acontece com essas pessoas ou ao redor delas é tomado como significando algo, como se eles estivessem sempre no centro de conspirações que só eles e outros poucos esclarecidos conseguem enxergar. 

Essa característica era a mais marcante de outro personagem paranoico de Hollywood, o também taxista Jerry Fletcher, interpretado por Mel Gibson no filme Teoria da Conspiração, de 1997. Fletcher enxerga conexões entre praticamente todas as notícias, interpretando esses padrões que cria como sinais claros de planos do governo, sociedades secretas, e assim por diante.

Acho interessante que ambos sejam taxistas. O estereótipo do motorista de praça é realmente o sujeito que tem opiniões muito fortes sobre diversos assuntos, sobretudo os políticos, sempre pronto a defender suas ideias de forma intensa. Eles rodam muito por aí, afinal, falam com muita gente, e sentem que têm assim uma oportunidade para estabelecer as conexões que não conseguimos individualmente. 

Mesmo sendo apenas uma caricatura – na verdade a personalidade dos taxistas é tão variada como a de qualquer profissional –, um pouco de paranoia pode vir bem a calhar para quem está o tempo todo se expondo a interações com estranhos. Nosso cérebro não foi programado originalmente para isso. Nas pequenas tribos em que o ser humano evoluiu, encontrávamos sempre os mesmos rostos. Desconhecidos eram potencialmente perigosos. 

Desse ponto de vista, o dia a dia dos taxistas é bastante antinatural. Eles são forçados a interagir diariamente com estranhos, cada vez com um rosto diferente. Será amistoso? Será hostil? Há alguma ameaça aqui? Tornar-se um pouco mais desconfiado nesse contexto pode ser muito mais útil do que prejudicial. 

Mas quando os traços de personalidade – quaisquer que sejam eles – tornam-se prejudiciais adentramos o campo de doença. Como dizia Schneider, pessoas com personalidade anormais são só diferentes. Suas características afastam-se da média, mas isso não as atrapalha. Mas os transtornos da personalidade – ou personalidades psicopáticas, como ele chamava – surgem quando essa peculiaridade traz sofrimento, seja para a pessoa ou para seu entorno.  

Com a paranoia não é diferente. Uma coisa é a pessoa ser mais desconfiada, levar as coisas para o pessoal, ter um limiar mais baixo para se ofender. Tudo isso pode ser adaptativo. No entanto, ela começa a se prejudicar quando enxerga tudo como uma conspiração, incapaz de considerar outros pontos de vistas que não se encaixem em suas teorias; quando começa a acreditar que precisa se armar para enfrentar as ameaças que vê por todos os lados; quando não consegue negociar seus interesses a não ser brigando. E além de se prejudicar, prejudica quem está ao seu redor. O que às vezes é um país inteiro.

* É PSIQUIATRA

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