HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
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Mortalidade infantil na cidade de SP: Butantã e Artur Alvim são opostos, aponta estudo

Distrito da zona oeste não teve nenhum caso de mortalidade infantil em 2017; já no da zona leste foram 27 mortes de bebês com menos de 1 ano

Juliana Diógenes e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2018 | 03h00
Atualizado 29 Novembro 2018 | 16h03

SÃO PAULO - Aos 40 anos, a ajudante de cozinha Daniela Rodrigues, tem um histórico extenso de gestações: 17. Ao todo, tem seis filhos. Outros três morreram logo depois de nascer: um natimorto de 38 semanas e um casal de gêmeos que morreu de icterícia neonatal  após três dias. Por ser fumante, ter sangue do tipo O negativo e pressão alta, Daniela sabe que toda gestação é de alto risco. E por morar na região de Artur Alvim, na zona leste de São Paulo, ela está duplamente vulnerável: o distrito tem o pior índice de mortalidade infantil de toda a cidade. 

O Mapa da Desigualdade 2018, divulgado nesta quarta-feira, 28, pela Rede Nossa São Paulo, revela que no distrito do Butantã não houve nenhum caso de mortalidade infantil no ano passado, ao passo que no distrito de Artur Alvim foram 21 óbitos de crianças menores de um ano em cada mil crianças nascidas vivas de mães residentes. Se considerado o número bruto, o distrito registrou 27 mortes de bebês com menos de um ano. 

Realizado desde 2012, o Mapa da Desigualdade analisou dados sobre os 96 distritos em relação a 53 indicadores nas áreas da administração pública utilizando fontes públicas e oficiais. Na cidade de São Paulo, o levantamento revelou que os bebês morrem mais nas zonas leste e norte. Na outra ponta, os distritos das regiões oeste e central registram menos óbitos de crianças com menos de um ano da capital. 

A taxa de mortalidade infantil da cidade de São Paulo é de 11,1 - no Brasil, é de 14, segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde, relativos a 2016. Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável assinados pelo Brasil junto à ONU, até 2030 a meta é acabar com as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, com o objetivo de reduzir a mortalidade neonatal para pelo menos 12 por mil nascidos vivos e a mortalidade de crianças menores de 5 anos para pelo menos 25 a cada mil nascidos vivos.  

Outro indicador que se destaca negativamente e reforça a desigualdade entre as regiões central e periférica da cidade é o de pré-natal. Enquanto no distrito de Moema apenas 4% dos bebês nascidos vivos as mães fizeram menos de 7 consultas pré-natal, no distrito de Itaim Paulista esse índice foi de 31%.   

"Quando há uma incidência de mortalidade infantil é porque existe algum tipo de problema em toda a estrutura para que o bebê nasça com saúde, desde o pré-natal feito de forma correta, até o acompanhamento. A questão familiar e a infraestrutura urbana de onde este bebê nasce também é importante, se tem saneamento básico, se as condições de habitabilidade são razoáveis também", explica José Américo Sampaio, coordenador da Rede Nossa São Paulo.

No Artur Alvim, atrás da Cohab onde a gestante Milena Gomes, estudante de 15 anos, mora, passa um rio. Para o namorado e pai do bebê, Douglas Silva, de 21, uma das principais causas para a morte de crianças com menos de um ano é a poluição atmosférica e a sujeira das ruas, que causa problemas respiratórios e doenças infecciosas, respectivamente, nas crianças que brincam na rua. "O pessoal não tem consciência e joga lixo nas ruas. As crianças acabam pegando e adoecendo", diz.

Em relação aos cuidados com a própria saúde durante a gestão, Milena conta que não abre mão de refrigerante e hambúrguer na gravidez, e garante que reduziu o consumo de álcool, embora não tenha cortado. "Diminuí bastante", afirma. Segundo ela, o atendimento de saúde na região é bom, porém há menos médicos e mais demora do que ela gostaria. 

Para Daniela, a gravidez na adolescência e a escassez do atendimento de saúde são as principais causas que levam Artur Alvim a ocupar o primeiro lugar entre os piores distritos em relação à taxa de mortalidade infantil. Ela também destaca a poluição, problema que tem causado dificuldades respiratórias na sua filha de dois meses, Helena. "Desde que nasceu, ela tem um catarro insistente que não vai embora e tem tido febre. Mas ainda não possui idade para tomar medicação via oral", explica ela, que estava nesta quarta-feira no Hospital Waldomiro de Paula (Planalto). 

Além disso, Helena é a única das seis filhas que não será amamentada. O leite de Daniela secou. "Acho que isso também afeta a saúde dela. Ela estava magrinha, mas graças a Deus já deu uma engordada com o leite que tenho dado", diz. 

Butantã

Do outro lado da cidade, no Butantã, zona oeste, a publicitária Thayna Di Domato, de 32 anos, está passando por um pré-natal “tranquilo” em sua primeira gravidez. Com 9 meses de gestação, ela conta não ter tido dificuldades para marcar exames e que pretende ter um parto normal, tudo em instituições privadas, pagas por meio do plano de saúde da empresa em que trabalha.

Não fumante, Thayna “tirou um pouco do açúcar e do carboidrato” durante a gestação. Ela acredita que a qualidade de vida para bebês na região pode estar ligada ao que considera menor poluição. “É um bairro bom. Moro no Butantã por causa do verde, tem um bom saneamento também.”

A estilista Neide Vilaça, de 45 anos, também fez o pré-natal por meio de um plano de saúde (da empresa em que o marido trabalha). Durante a gestação, mudou alguns hábitos, como não ingerir álcool e refrigerante.

Hoje, Lorena está com um ano e quatro meses, sem ter enfrentado nenhum problema de saúde grave. “Moro em uma rua sem saída, com bastante árvore, tem até galinha, parece interior. Criança brinca na rua, sem perigo, isso faz a diferença, acho que tem a ver com a tranquilidade. É uma rua que não têm muito carro, bom barulho.”

Vulnerabilidade

Ginecologista e obstetra do Hospital São Luiz e um dos criadores do programa Parto Sem Medo, Alberto Guimarães diz que os números da zona leste são "um retrato do Brasil em termos de tradução da assistência básica de saúde". 

Ele analisa que as causas para a discrepância entre as regiões é a falta de suporte de pré-natal - em regiões adensadas como Artur Alvim, o número de equipamentos de saúde não é proporcional, e no Butantã a população é menor, mas possui rede de saúde mais ampla -  ainda a falta de esclarecimento da população em relação, por exemplo, a alimentares. Como solução para a redução de desigualdade, o ginecologista sugere por exemplo a atuação de equipes multiprofissionais, incluindo um nutricionista "para ajudar as pessoas a perceberem, dentro da sua realidade, o que é bom e o que não é bom comer durante a gestação".

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'Se a população não tem nível de busca de informações adequada e se o sistema não oferece nada para transformar essa realidade, a situação fica dessa forma, podendo se perpetuar de maneira cada vez pior', avalia Guimarães.
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O secretário adjunto da Saúde no município, Eduardo Ribeiro, admite que as regiões periféricas da cidade são mais frágeis e vulneráveis para as gestantes do que outras áreas da cidade. Segundo ele, a origem da desigualdade é multifatorial, incluindo questões socioambientais, culturais e econômicas. "Quanto maior a vulnerabilidade social da população em determinadas regiões, maior o adensamento populacional e menor o IDH, em tese maior é a fragilidade. É nessas regiões que o poder público tem de colocar mais energia", reconhece.

Ele explica que o serviço de saúde opera em rede, incluindo estabelecimentos estaduais, municipais e conveniados, e que essa organização cobre a cidade como um todo. "Onde não tenho equipamento estadual ou municipal, por exemplo, posso ter um conveniado que vai dar cobertura naquela região. Há uma rede integrada de equipamentos", diz.

O secretário reconhece o aumento na tendência de mortalidade infantil na cidade de São Paulo e diz que para compreender o fenômeno um estudo detalhado está em elaboração em um grupo de estudos voltado para infância e adolescência na pasta. O diagnóstico segmenta o primeiro ano da criança período a período, com o objetivo de identificar as principais dificuldades de cada fase. "Em breve teremos uma sinalização em relação ao componente da mortalidade infantil no último ano", afirma.

Em nota, a Secretaria disse que estão previstas "diversas ações" para suprir as necessidades de atendimento na região Leste. "O Pronto Socorro do Hospital Municipal Dr. Waldomiro de Paula, que recebe hoje número de pacientes acima da sua capacidade máxima - 20 mil pacientes/mês -, conta com porta aberta, ou seja, atende livre demanda, incluindo pacientes de outras regiões e de municípios vizinhos. A unidade conta com quadro completo de profissionais médicos e tem previsão de reforma para ampliação do Pronto Socorro e consequente aumento da capacidade de atendimento."

Também está prevista, informa a pasta, reforma para ampliação do Pronto Socorro do Hospital Municipal Dr. Alípio Corrêa Netto (Ermelino Matarazzo), além da construção de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) próxima a essa unidade, com entrega prevista para 2019. "Em dezembro deste ano já está prevista inauguração da UPA Tito Lopes, próxima ao Hospital Tide Setubal (São Miguel Paulista)."

A Secretaria destacou ainda, a ampliação da capilaridade da rede "graças a um incremento no número de Equipes de Saúde da Família". "Em dezembro de 2017 a região leste possuía 242 equipes e, hoje conta com 294, a fim de garantir melhor assistência à população."

 

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