Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Maqueiros, motoristas, técnicos de raio x: os soldados invisíveis da guerra contra a covid-19

Esses profissionais trabalham no apoio às equipes médicas e são praticamente invisíveis diante da própria equipe, das instituições e da sociedade em geral

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 11h00

RIO - Além de médicos e enfermeiros, uma multidão composta por 1,5 milhão de trabalhadores de nível técnico atua diariamente na linha de frente do combate à covid-19. São maqueiros, motoristas de ambulância, especialistas em equipamentos médicos, cozinheiros, seguranças, faxineiros, técnicos de raio x  e outros profissionais. Embora executem serviços de extrema importância no enfrentamento da pandemia, são praticamente invisíveis diante da própria equipe, das instituições e da sociedade.

Esses profissionais trabalham no apoio às equipes médicas dentro dos hospitais e unidades de saúde. Expõem-se ao novo coronavírus diariamente, muitas vezes em condições longe das ideais. Como trabalhadores da saúde, também estão expostos ao estresse provocado por uma epidemia de um vírus mortal e desconhecido. Sofrem de cansaço, exaustão, depressão, ansiedade, insônia e medo de perder o emprego.

“Essa legião de trabalhadores está cotidiana e diretamente na linha de frente, atendendo mais de oito milhões de contaminados pela covid-19 e lidando com os mais de 200 mil óbitos já registrados em todo o País”, diz a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz Maria Helena Machado. “Além disso, estão expostos à infecção, sofrem com a morte de colegas e boa parte ainda está desprotegida dos cuidados necessários sem ter voz nem meios de expressar a real situação de seu trabalho e de sua vida pessoal, no que se refere à saúde." Pelas diretrizes do governo federal, esses profissionais também estão no grupo prioritário da vacinação. 

Para tentar conhecer melhor esse universo, Maria Helena coordena a pesquisa “Os trabalhadores invisíveis da saúde: condições de trabalho e saúde mental no contexto da covid-19 no Brasil. Por meio de um questionário disponível online (https://redcap.icict.fiocruz.br/surveys/index), o estudo quer analisar as condições de vida, o cotidiano do trabalho e a saúde mental dessa mão de obra. Busca particularmente as alterações a que tiveram que se submeter emergencialmente durante a pandemia.

“Todo plantão temos pelo menos um paciente de covid-19”, contou o motorista de ambulância e socorrista do Samu Felipe de Oliveira Ferreira, de 39 anos. “Trabalhamos com toda a proteção, máscara, óculos, protetor facial, touca. O carro é sempre desinfetado depois de transportar um paciente de covid. Todo mundo fica preocupado, mas temos que conviver com isso.”

Paulo Murilo Paiva, de 58 anos, trabalha há 40 anos como técnico e auxiliar de enfermagem. Lotado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Cascadura, no subúrbio do Rio, ele fala das dificuldades enfrentadas desde o início da epidemia.

“No começo, a gente ficou muito assustado; assustado não, aterrorizado”, contou Paiva. Ele lembrou que de toda a linha de frente, o auxiliar de enfermagem é o que chega mais perto do paciente. “Estávamos lidando com um vírus novo, desconhecido, com medo de levar a doença para nossas famílias e ainda faltava equipamento de proteção. Muitos colegas se contaminaram e muitos morreram.”

Waldirlando Rosa Lemos, de 55 anos, trabalhava na recepção de uma policlínica em Maricá, na região metropolitana do Rio, quando a pandemia começou.

“Nós que trabalhamos na recepção ficamos de frente para o pessoal que chegava com covid e não tinha ainda protocolo de atendimento. Ficamos com muito medo”, contou Lemos. “Trabalho há mais de trinta anos no setor de saúde e te digo: não é só médico e enfermeiro que trabalham. Se tirarem o corpo técnico, o pessoal administrativo, segurança, limpeza, o hospital para, a máquina não funciona.”

Gutemberg de Souza Veloso, de 42 anos, é técnico especializado na manutenção e conserto de equipamentos médicos. Ao longo da epidemia, ele teve de entrar várias vezes nas UTIs de covid para ajustar equipamentos cruciais, como ventiladores e monitores.

“Logo no início tive muita insônia; mas conforme as informações foram chegando, fui ganhando mais confiança”, contou Veloso. “Fui encontrando maneiras de ver um sentido positivo naquilo, de ver que eu também estava cuidando dos pacientes, que também eram minha responsabilidade. Cuidar de alguém que você não conhece, se arriscar por alguém que você não conhece te traz uma coisa mais nobre, essa noção da coletividade.”

Em vários momentos, no entanto, ele se sentiu desprestigiado, invisível. Com essa proposta, a Fiocruz está sinalizando que os invisíveis são tão visíveis quanto os médicos e os enfermeiros"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.