Acervo pessoal
'Os órgãos dela foram deixando de funcionar, e os médicos foram desligando os aparelhos. Ela morreu nos meus braços', relata Lorena Acervo pessoal

Maria, de 1 ano e 5 meses, morreu nos braços da mãe; conheça histórias de crianças vítimas de covid

Maria enfrentou a doença por quase um mês, Lucas desenvolveu síndrome rara e Bernardo piorou rápido. 'Estadão' reúne histórias de crianças que morreram em decorrência do novo coronavírus

Mariana Hallal e Bruno Luiz, especial para o Estadão

07 de junho de 2021 | 10h00

Na manhã de 11 de março deste ano, os médicos desligaram os aparelhos que mantinham com vida a pequena Maria, de um ano e cinco meses, após uma luta de quase um mês contra a covid-19. Quando morreu, a bebezinha não tinha idade suficiente para entender o que era a pandemia que a levou. Mas a assistente social Lorena Ferrari, mãe da menina, sabe bem o que é saudade.

Em 15 de fevereiro, uma segunda-feira, Lorena percebeu que Maria estava com febre e que a respiração da criança não estava normal. Resolveu, então, levar a bebê a um hospital particular de Varginha, no sul de Minas Gerais, onde vive a família. Uma médica plantonista avaliou a menina e achou que aqueles sintomas eram de gripe, sem qualquer gravidade. A mãe ainda chegou a pedir um raio X para o pulmão e insistiu que a respiração da filha estava estranha, mas a profissional disse que o procedimento era desnecessário porque iria expor a bebê à radiação. A médica mandou Maria para casa, mas pediu um teste de covid para ela, que seria realizado na quinta.

A pequena piorou nos dias seguintes. Na quarta, a mãe a levou novamente ao hospital. Assim como da primeira vez, a médica de plantão não quis auscultar o pulmão da bebê, relata Lorena. Preocupada, ela foi até o consultório da pediatra que acompanhava a menina, e uma avaliação rápida apontou que a criança estaria com pneumonia. De volta ao hospital, Maria passou por um raio X, que apontou que seu pulmão estava 25% comprometido.

Sem UTI pediátrica para covid na cidade, a pequena foi levada para Pouso Alegre, já intubada, na noite de quinta. A partir daí, o quadro só se agravou. No sábado, ela teve uma parada cardíaca de 24 minutos, mas foi reanimada. Na segunda, Lorena percebeu que a filha não tinha mais nenhum reflexo. Os médicos, então, deram a notícia que ela mais temia: Maria havia sofrido morte cerebral. O desfecho da história, entretanto, só aconteceria 22 dias depois, em 12 de março.

“Os médicos precisavam fazer exames para diagnosticar a morte cerebral, mas, para fazer os procedimentos, eles precisavam diminuir a quantidade de oxigênio que Maria recebia. Quando eles diminuíam, a saturação dela caía. Isso não é permitido por lei. A gente teve que esperar até 11 de março, quando a saturação dela estabilizou. Eles fizeram os exames e constataram a morte cerebral. No dia seguinte, os órgãos dela foram deixando de funcionar, e os médicos foram desligando os aparelhos. Ela morreu nos meus braços”, relata Lorena.  

A mãe de Maria passou a usar antidepressivos e remédios para dormir. Começou a trabalhar no RH de uma empresa, fazendo trabalhos administrativos, para tentar ocupar um pouco a cabeça. Precisa estar bem para cuidar da filha mais velha, de 10 anos, que também sofre com o luto da morte da irmã - as duas eram muito apegadas. Para ajudar a lidar com a dor, Lorena criou uma página no Instagram, onde posta fotos e textos sobre a filha. “É muito delicado lidar com a ausência.”

Lucas, de um ano, era filho único e a maior alegria de Jéssika

Os primeiros sintomas de Lucas, de um ano, surgiram em 8 de maio do ano passado. O menino, que nunca rejeitava uma mamadeira, passou a apresentar falta de apetite, além de febre. Filho único, veio inesperadamente, e era a maior alegria da professora Jéssika Ricarte, que havia passado dois anos tentando engravidar, sem sucesso.

Diante dos sinais que a criança apresentou, Jéssika resolveu levar o filho a um pronto-socorro municipal de Tamboril, cidade a 300 km de Fortaleza, capital cearense. Um exame com oxímetro mostrou que a saturação de Lucas estava em 86, o que já indicava a necessidade de oxigênio suplementar. Mesmo com isso, o médico se recusou a testá-lo para a covid-19 e disse que o quadro da criança não era mais que uma dor de garganta. “Antes de existir covid, existem outras doenças, mãe”, disse o profissional, segundo relato de Jéssika. 

A professora acreditou no médico -  não sabia que aquele nível de saturação exigia tratamento rápido - e voltou para casa, acreditando que estava tudo bem. Iniciou um tratamento de dez dias com antibióticos, receitados pelo profissional, e percebeu que o filho estava melhorando com os medicamentos. 

Com o fim do tratamento, no entanto, Lucas começou a piorar. “Quando parei de dar os antibióticos, percebi que a respiração dele não tinha voltado ao normal”, conta. O menino passou a ficar muito sonolento, cansava com movimentos simples e passou a vomitar muito. Jéssika resolveu levar o filho ao hospital novamente, em 3 de junho. O médico que o atendeu pediu teste de covid, que deu positivo, e o garoto passou a receber máscara de oxigênio. 

Lucas precisava de uma UTI pediátrica. Foi transferido, então, para o Hospital Regional de Sobral, cidade com mais estrutura para tratar casos graves da doença. Uma tomografia mostrou que seu pulmão estava comprometido e que seria preciso intubá-lo com urgência para melhorar a oxigenação. Durante o processo de intubação, a criança sofreu uma parada cardíaca, mas foi reanimada. Jéssika viu tudo.

Na UTI, a criança piorou. Uma tomografia apontou que ele estava com miocardite, uma inflamação no miocárdio, músculo do coração. O quadro mostrava que Lucas tinha desenvolvido a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), enfermidade grave e rara associada à covid-19, e que pode ser mortal.

O garoto iniciou um tratamento com imunoglobulina para diminuir a inflamação. Reagiu bem após algumas doses e conseguiu retomar as funções normais do coração. Mas, em 28 de junho, um novo problema: Lucas teve um derrame causado pela covid.

Àquela altura, depois de tantos agravamentos no quadro de saúde, era improvável que os pais recebessem em casa o mesmo Lucas que conheciam antes da internação, caso ele sobrevivesse. Apesar dos prognósticos negativos, a criança começou a reagir, e os médicos passaram a vislumbrar a possibilidade de a criança receber alta da UTI.

Em 8 de julho, uma chamada telefônica feita pelo hospital pôs fim a essa esperança. Temendo que a ligação trouxesse a notícia que menos desejava, Jéssika atendeu com apreensão. Do outro lado da linha, a médica dizia que Lucas se recuperava bem, mas teve uma parada cardíaca na madrugada, decorrente de um mal súbito. Os profissionais tentaram reanimá-lo por 45 minutos, sem sucesso. Apesar de lutar com valentia, Lucas perdeu a batalha travada contra a covid por mais de um mês.

“Quando meu filho morreu, isso destruiu a minha vida e a do meu marido, a dos avós dele. O primo dele, de 8 anos, tem problemas psicológicos porque vive esse luto tão cedo. Eu tô com tanta saudade do meu filho. É muito, muito difícil”, desabafa.

A postura do presidente Jair Bolsonaro frente à covid torna a morte de Lucas mais dolorosa para Jéssika. “Eu estou fazendo terapia para o meu luto e, no luto, tem uma fase que é a da raiva. O objeto da minha raiva foi o presidente. É muito triste você, como mãe, ouvir alguém menosprezar uma doença e a vida de outras pessoas. Você é o líder do nosso país, você deveria dar o exemplo.” 

“Quando o Lucas faleceu, eu achei que tinha sido um castigo meu. No dia 7 de julho (um dia antes do Lucas falecer), eu saí do hospital e vi que o Bolsonaro tinha testado positivo para a covid. Eu não queria que ele morresse, mas eu queria que ele sentisse metade do que meu filho está sentindo, para ele reconhecer que essa doença é séria.”

Bernardo, de três anos, morreu uma semana depois de ser diagnosticado com covid 

Bernardo Rivera, de três anos, tinha a saúde debilitada por um afogamento sofrido em setembro do ano passado e recebia cuidados em uma estrutura de UTI montada dentro de casa. Ao contrair o coronavírus, acabou não resistindo: morreu uma semana depois de testar positivo para a covid. 

O pai, José Rivera, exibe força ao falar sobre a morte do filho. Diz que precisa apoiar a esposa, que sofre muito com a ausência de Bernardo. “Eu vejo que ela acorda no meio da noite, sem ar, chorando pela falta dele.” Mas a serenidade é apenas uma das formas de se lidar com o luto. A saudade não deixa de ser dolorosa. “A dor de um pai enterrar um filho é muito grande. Nós sentimos isso na pele, sabemos o quanto é difícil. Uma criança com tanta vida pela frente…”, lamenta. 

Mesmo com a dor da perda, Rivera, vereador em Alumínio, cidade da Região Metropolitana de Sorocaba (SP), tenta usar a visibilidade do seu mandato para mostrar que a população precisa se proteger. Ele ressalta a importância de que autoridades políticas liderem o processo de conscientização da população sobre as medidas de combate ao coronavírus.

“Depois do que aconteceu, muita gente vem falar comigo, vem perguntar a minha opinião. Essa é a importância que tem a nossa voz para a população. Eu quero conscientizar as pessoas. Se o Bernardo salvar uma vida, eu fico contente”, diz ele.

O vereador culpa o presidente Jair Bolsonaro pelas mais de 460 mil mortes causadas pela doença no Brasil. Assim como ele, Rivera achou que a covid seria uma doença leve, uma gripe mais forte, que mataria apenas as pessoas com comorbidades. Mas, ao contrário do chefe do Executivo, mudou de ideia ao perceber o agravamento da pandemia. Antes do filho, ele perdeu um cunhado para a doença, também este ano. 

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