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Máscara: usar ou não usar

Usar é importante, mas isso leva a outra questão: como usá-la corretamente?

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 05h00

Me veio à mente a célebre frase de William Shakespeare, em Hamlet: “Ser ou não ser”. Pensando em tempos de covid-19, poderíamos adaptá-la para ‘usar máscaras ou não usar’. A analogia faz sentido. O poeta viveu meses difíceis, com os teatros fechados, durante uma grave peste que assolou Londres entre 1592 e 94.

Olhando objetivamente para a questão, o que podemos inferir até o presente momento sobre o assunto? Quando do início da pandemia, o uso da máscara não era recomendado à população em geral, ficando restrito aos profissionais da área da saúde em ambiente hospitalar. Eles poderiam usar a máscara cirúrgica ou do tipo N95, dependendo da situação em que estava o profissional. 

Com o aprendizado da doença, notou-se que o uso de máscaras confeccionadas de modo caseiro reduz a chance de contágio de outras pessoas além de funcionar como barreira mecânica para o vírus. Mas vale lembrar que só o uso exclusivo de máscaras cria falsa sensação de segurança. Para que a prevenção seja assegurada, deve-se adotar distanciamento social e frequente higienização das mãos e limpeza de ambientes.

Nessa flexibilização em várias regiões do Brasil, máscaras, na minha opinião, serão de fundamental importância, acessório obrigatório por parte da população. Apesar de o governo federal não acreditar nesta informação embasada pela ciência, a maioria esmagadora de governos estaduais concorda com o uso. Isso deixa a população por vezes confusa e cheia de dúvidas. 

Não há dúvidas. Usar a máscara continua sendo importante. O que leva a outra questão: como usar corretamente? Devemos cobrir o nariz e a boca, sem frestas, e que seja de modo confortável o uso. Quando retiradas, isso deve ser feito sempre pela lateral. 

Somos sabedores de que máscaras dificultam a respiração e atrapalham a conversa entre pessoas. Atentar que, quando molhada ou úmida, deve ser imediatamente trocada por outra independentemente do número de horas de uso. Na média, usamos uma máscara por 3 a 4 horas com segurança.

A Anvisa, em documento de 3 de abril, apresenta orientações gerais sobre a confecção das máscaras faciais de uso não profissional, revelando tecidos e camadas adequadas para um poder de filtragem mínimo exigido. 

Assim, a população deve se informar se aquilo que está adquirindo está de acordo com normas brasileiras. Essas máscaras não são descartáveis e, assim, podem ser reutilizadas após lavagem com água e sabão neutro - e não compartilhadas, mesmo sendo na mesma família. Por causa da volta ao trabalho é mister sempre levarmos uma ou duas máscaras em saco estéril para possível uso, dependendo do turno de trabalho. 

Dúvidas. Tenho visto várias críticas sobre a aplicação de multas para quem não usar máscaras, mas temos de observar que devemos nos policiar uns aos outros. Vejo a multa como uma forma de alertar e punir quem não pensa no outro ser humano e não como caráter eminentemente punitivo. 

Tenho recebido inúmeras mensagens sobre uso das máscaras em carros e atividades físicas. Em carro particular, onde esta só o condutor do veículo, não é necessário usá-la. Porém, caso existam outros passageiros, se faz necessário mesmo sendo pessoas do convívio familiar. Isto decorre de não se poder saber se o veículo é de aplicativo ou não. 

Nas atividades físicas considero que ao ar livre não seja necessário a máscara. Sugiro sempre que se leve junto de si (de preferência, no bolso), em local estéril, uma máscara para eventual parada para ingestão de isotônicos, água, sucos etc. O indivíduo realizando a atividade física com o distanciamento social preconizado não cria riscos a outros a atividades físicas ao ar livre. Caminhada, corrida, hipismo, golfe, etc são sempre bem-vindos - e funcionam também como escape, ainda mais por causa do confinamento. É benéfico à saúde, além de alimentação segura e controlada. Tudo que não gerar aglomeração, mesmo que ao ar livre, pode ser incorporado neste novo momento por que passamos. 

Sobre frequentar parques, precisamos ter cuidado. A chance de aglomeração mesmo em ambiente aberto é enorme. Mais uma vez, e nunca é demais lembrar: é preciso seguir protocolos de distanciamento bem rígidos para não arriscar. 

Enquanto nos preparamos para entrar em “novo normal”, creio que com esta exposição acima a melhor resposta para Shakespeare seria usar máscara se fosse este o questionamento dele. Ele deveria usá-la em todos momentos para ter uma volta segura ao trabalho e lazer. Que possamos nos acostumar e seguir buscando incansavelmente novas respostas frente à pandemia da covid-19.

*COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA

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