REUTERS/Nicholas Pfosi
REUTERS/Nicholas Pfosi

Máscaras cirúrgicas limitam a disseminação do coronavírus, apontam estudos massivos

Pesquisas oferece evidência real e conclusiva para aquilo que os trabalhos em laboratório e outras pesquisas já sugeriram fortemente: o uso de máscaras pode ter impacto significativo em limitar a disseminação da covid-19 sintomática

Adam Taylor, Ben Guarino, The Washington Post

07 de setembro de 2021 | 05h00

Os autores de um estudo baseado em um enorme projeto de pesquisa randomizado em Bangladesh dizem que seus resultados oferecem a melhor evidência de que o uso generalizado de máscaras cirúrgicas pode limitar a disseminação do coronavírus pelas comunidades.

O artigo pré-publicado, que rastreou mais de 340.000 adultos por 600 vilarejos rurais em Bangladesh, é de longe o maior estudo randomizado sobre a eficácia das máscaras em limitar a disseminação das infecções por coronavírus.

Seus autores dizem que o estudo oferece uma evidência real e conclusiva para aquilo que os trabalhos em laboratório e outras pesquisas já sugeriram fortemente: o uso de máscaras pode ter um impacto significativo em limitar a disseminação da covid-19 sintomática, a doença causada pelo vírus.

"Eu acho que, basicamente, isso pode encerrar qualquer debate científico sobre o fato das máscaras serem ou não efetivas para combater a covid no nível populacional", Jason Abaluck , um economista de Yale que ajudou a liderar o estudo, disse em uma entrevista, chamando-o de "um prego no caixão" dos argumentos contra as máscaras.

Os pesquisadores estimam que, entre um grupo de adultos em Bangladesh do estudo que foi incentivado a usar máscaras, o uso subiu 28,8% após a intervenção. Quando rastreado, o grupo apresentou uma redução de 9,3% na soroprevalência da covid-19 sintomática, o que significa que o vírus foi confirmado por exame de sangue, e ainda uma redução de 11,9 % nos sintomas da covid-19.

Os autores do estudo - liderado pelos seguintes pesquisadores principais Abaluck, Laura Kwong, Steve Luby, Ahmed Mushfiq Mobarak e Ashley Styczynski -, um time global que inclui pesquisadores de Yale, Stanford e da Green Voice, uma organização sem fins lucrativos, enfatizou que isso não significa que as máscaras foram apenas 9,3% efetivas.

"Eu acho que seria um grande erro ler esse estudo e dizer, 'Ah, as máscaras só previnem 10% das infecções sintomáticas'", Abaluck disse. "O número provavelmente seria muitas vezes maior se o uso de máscaras fosse universal", ele disse.

O estudo está sendo avaliado por pares na revista Science. Os autores permitiram que os jornalistas tivessem um acesso antecipado aos resultados por conta de sua potencial importância nos debates acerca da saúde pública.

Especialistas independentes convidados a examinar a pesquisa elogiaram sua escala; alguns sugeriram que poderia ser o argumento mais convincente até agora para o uso de máscaras.

"Este estudo é incrivelmente desafiador mas muito importante de se realizar", disse Megan Ranney, uma médica da emergência e professora na Brown University que não estava envolvida na pesquisa. "As pessoas anti-máscaras vivem dizendo, 'Onde está o estudo controlado randomizado?' Bem, está aqui."

"Não é apenas modelar ou voltar atrás nos estudos", disse Lawrence Gostin, diretor do O’Neill Institute for National and Global Health Law da Universidade Georgetown, que também não estava envolvido. "Este é o suprassumo do conhecimento científico."

A pesquisa é parte de um projeto em andamento conduzido por Abaluck e seus co-autores que detém-se não apenas na eficácia da máscara, mas também em métodos de saúde pública para incentivar a adoção das máscaras nas comunidades.

O time escolheu Bangladesh porque seu co-autor e economista de Yale, Mobarak, era dali e havia trabalhado lá antes, e por causa das crescentes opções de financiamento.

A grande escala do projeto, que começou em novembro e terminou em abril de 2021, é notável. Cerca de 178.000 moradores de Bangladesh estavam em um grupo de intervenção e foram incentivados a usar máscaras. Um adicional de 163.000 pessoas estava em um grupo de controle, no qual nenhuma intervenção foi feita.

O projeto avaliou os níveis de uso de máscara e distanciamento social através de observações diretas de uma equipe à paisana na comunidade, em mesquitas, mercados e outros pontos de encontro.

"Este é um projeto que não pode ser conduzido por pouca gente", disse Abaluck. "Por isso há centenas de pessoas envolvidas no projeto. É por isso que o artigo tem… Nem sei quantos co-autores. Dezenas de co-autores."

O uso de máscaras tornou-se obrigatório em Bangladesh a partir de março de 2020, embora a adoção tenha sido restrita. Os pesquisadores descobriram que foram capazes de aumentar o uso de máscaras no grupo de intervenção de 13% para 42% - um aumento de 28.8%. O resultado foi observado e mostrou-se consistente por dez semanas e continuou após as intervenções pararem.

O grupo atribuiu a um "coquetel" de quatro intervenções o aumento substancial do uso de máscaras na comunidade: fornecer máscaras gratuitas de porta em porta; dar informações sobre os benefícios das máscaras, reforçar o uso das máscaras e endossar o uso de máscaras pelos líderes locais de confiança.

"É uma combinação precisa de coisas e um conjunto de tarefas que precisam ser feitas de forma concomitante e integrada", Mobarak disse em maio ao Yale Insights.

Quando essas descobertas comportamentais foram divulgadas no começo deste ano, receberam uma resposta positiva dos especialistas. Mas as descobertas sobre a efetividade das máscaras devem causar um impacto bem maior.

"Não vejo razão para que a interação entre a máscara e o vírus seja diferente na Bangladesh rural ou no Kansas rural ou na Nova Iorque urbana ou em São Francisco", Gostin disse. "A biologia é a mesma."

O estudo contém um trio de observações-chave, disse Ranney: Primeiro, oferece ainda mais evidência de que as máscaras funcionam para proteger o indivíduo e a comunidade. Como o grupo de pesquisa foi capaz de documentar apenas casos nos quais as pessoas eram sintomáticas e soropositivas para o vírus, Ranney concordou que os resultados podem estar subestimados.  

"Para mim este é o efeito mínimo do uso de máscaras em uma comunidade", ela disse. "Eu esperava que o efeito real das máscaras fosse muito maior, pensando nas limitações que eles tiveram para dimensionar a covid neste estudo."

Segundo, indica que máscaras de maior qualidade oferecem maior proteção. E terceiro, o estudo mostra como motivar pessoas de uma comunidade a usarem máscaras, fazendo das máscaras uma norma social.

Gostin disse que a pesquisa também afastou a ideia "perniciosa" de que as máscaras eram apenas para proteção individual. "(O uso das máscaras) funciona como um cobertor que temos que adotar para a população de forma generalizada", ele disse.

O estudo não quer ser a última palavra sobre as máscaras. Os autores descobriram que apesar das máscaras de tecido claramente reduzirem sintomas, eles "não podem rejeitar" a ideia de que, diferentemente das máscaras cirúrgicas, elas provavelmente protegem muito pouco das infecções sintomáticas pelo coronavírus, ou possivelmente não protegem nada.

Abaluck enfatizou, contudo, que a pesquisa não produziu evidências de que as máscaras de tecido sejam ineficazes.

Os resultados "não mostram necessariamente que as máscaras cirúrgicas são muito, muito melhores que as máscaras de tecido, mas encontramos evidências muito mais claras da efetividade das máscaras cirúrgicas", ele disse.

Abaluck também observou que o grupo de intervenção praticou mais distanciamento social, o que pode complicar as descobertas sobre as máscaras. Contudo, ele observou que, em locais como mesquitas, onde muitos participantes realizavam seus cultos, não havia "distanciamento social" e os ambientes fechados não eram muito ventilados - mas havia um uso maior das máscaras.  

Os autores planejam conduzir mais pesquisas, incluindo uma avaliação de como as máscaras limitam a disseminação sintomática - seja diminuindo a carga viral para que menos pessoas tenham sintomas, seja prevenindo inteiramente as infecções.

Mas as pesquisas existentes podem ter um impacto significativo nas políticas futuras - e também podem levantar questões sobre as políticas passadas.

Nesta pesquisa, "as pessoas receberam máscaras e disseram a elas que sua utilização era esperada", Ranney disse. Algo parecido quase aconteceu nos Estados Unidos. Em abril de 2020, durante o governo Trump, o Correio planejou mandar cinco máscaras para cada casa americana. Mas a estratégia foi abandonada.

"Uma das coisas que fico pensando… Se todos tivéssemos recebido máscaras do mesmo jeito", como os participantes deste estudo receberam, Ranney disse, "teríamos diminuído a taxa de mortalidade pela Covid?" / Tradução de Lívia Bueloni Gonçalves

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.