REUTERS/Gonzalo Fuentes
REUTERS/Gonzalo Fuentes

Máscaras de tecido protegem contra novas variantes do coronavírus?

Apesar de recomendação por parte das autoridades francesas, especialistas afirmam que ainda é cedo para discutir eficácia das máscaras de pano e que o ideal é manter todos os cuidados de prevenção 

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 10h00

Diante do maior potencial de transmissão de novas variantes do novo coronavírus, autoridades francesas desaconselharam, recentemente, o uso de máscaras caseiras de tecido por considerá-las menos eficientes na proteção. No entanto, especialistas consultados pelo Estadão defendem que são necessários mais estudos para investigar a eficácia desse tipo de proteção contra as cepas recém-descobertas do Sars-CoV-2. Eles concordam que, por enquanto, o recomendado é que as pessoas mantenham os mesmos cuidados: usar máscara facial, evitar aglomerações, manter distanciamento social e higienizar corretamente as mãos.

Segundo Raquel Stucchi, infectologista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a nova variante altera a 'superfície externa do vírus'. "Apesar da transmissão mais fácil pela nova variante, o vírus continua do mesmo tamanho e possivelmente a transmissão ainda se faz por meio de gotículas. As máscaras caseiras em duplo tecido e tecido de trama fechada são eficazes no bloqueio da transmissão", afirma. A divulgação de informações sobre novas variantes ainda é muito recente. "Precisamos aguardar estudos que mostrem que a máscara (de tecido) continua sendo efetiva ou não. Mas ainda é muito cedo para fazer uma análise neste momento", acrescenta Raquel.

Para ela, os cuidados de proteção adotados inicialmente devem ser mantidos. "Até que tenhamos grande parte da população vacinada, cerca de 90%, devemos manter as mesmas medidas de bloqueio de transmissão do vírus: máscara facial, ter mais de uma máscara para trocar em períodos longos fora de casa, evitar aglomerações, manter distanciamento social e higienizar com frequência as mãos, lavando com água e sabão por 20 segundos, no mínimo, ou usando álcool em gel", aconselhou a infectologista.

"Independentemente da variante, o vírus se espalha com mais facilidade entre as pessoas aglomeradas e sem máscaras. Se utilizadas corretamente e, respeitando todas as outras medidas, as máscaras caseiras de boa qualidade, bem ajustadas, de dupla ou tripla face, têm a mesma eficácia que as máscaras cirúrgicas na proteção", afirma Unaí Tupinambás, infectologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas (UFMG). 

Sobre a eficácia das proteções de tecido, embora considere que as máscaras cirúrgicas e N95 conferem maior proteção, Leonardo Weissmann, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas,  afirma que ainda não há estudos relacionando as novas variantes com o uso de máscaras. "Muito provavelmente, a orientação da França seja por causa da incerteza sobre a possibilidade da formação de aerossóis (como causa da maior transmissibilidade)", diz ele, consultor da SBI.

Lauro Ferreira Pinto Neto, professor da Santa Casa de Vitória, concorda que não há estudos que comprovem que a máscara de pano não funciona contra novas variantes. "Não conheço nenhum trabalho que possa confirmar isso. Claro que as máscaras cirúrgicas e N95 são melhores, mas não há produção em escala para atender toda a população. O que sabemos é que a máscara, mesmo de pano, usada adequadamente, tem papel fundamental na proteção ao novo coronavírus", reforça o infectologista da SBI.

Para ele, diante do surgimento de novas variantes, mais importante que discutir a eficácia da máscara de tecido, é abordar o uso correto das máscaras. "A questão é que os ocidentais são muito indisciplinados com o uso correto. As pessoas usam máscara no queixo ou com nariz de fora", complementa ao lembrar que é importante que a máscara seja trocada após quatro horas de uso ou se estiver úmida. 

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