Romeo Ranoco/Reuters
Romeo Ranoco/Reuters

Máscaras N95 oferecem mais proteção contra as novas variantes do coronavírus?

Especialistas afirmam que modelo é mais eficaz para evitar infecção por aerossóis, mas não deve ser usado em todas as ocasiões

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 13h50

Com a circulação das novas variantes do novo coronavírus, países europeus, como a Alemanha, passaram a exigir o uso de máscaras profissionais pela população em locais públicos e com grande circulação de pessoas. Especialistas afirmam que o modelo N95, ou PFF2 (peça facial filtrante), é o mais eficaz para evitar a infecção por aerossóis, mas não deve ser usado em todas as ocasiões. 

Pós-doutorando na Faculdade de Medicina na Universidade de Vermont, o físico e membro do Observatório Covid-19 Vitor Mori diz que, desde o começo da pandemia, o Brasil já deveria ter investido na disponibilização da máscara N95 (PPF2) para a população que está mais exposta ao vírus.

"O Brasil cometeu um erro na contenção e se preocupou mais com as gotículas maiores, com as superfícies, mas sabemos da infecção por inalação de pequenas gotículas, pelos aerossóis, e isso custou muitas vidas. Ir nessa direção agora é recuperar um atraso de nove meses."

Segundo Mori, as máscaras de tecido eram soluções temporárias, embora possam ser usadas para locais ao ar livre e que permitam o distanciamento social. Para situações de risco, o correto seria adotar a N95.

"Em ambientes fechados, mal ventilados, aglomerados, como ir para o hospital ou posto de saúde, no transporte público lotado. É um uso consciente", exemplifica.

Mori explica que a PFF2 conta com uma camada de filtragem eletroestática, que induz carga e atrai as partículas em aerossóis para o filtro. "Elas conseguem filtrar 94% das partículas de 0,3 micrômetro de diâmetro." No entanto, o uso precisa ser correto. Caso contrário, a eficácia da proteção será afetada.

"A PFF2 ajusta bem ao rosto, praticamente sem vazamento de ar. Ela tem de estar bem justa ao rosto, com o elástico preso na cabeça e no pescoço. O ar não pode passar pela lateral. Não adianta o filtro ser bom e o ar passar."

Essas máscaras são descartáveis, mas, durante a pandemia, a sua reutilização passou a ser considerada como algo possível diante da escassez do produto, que é utilizado por profissionais de saúde que atuam na linha de frente na luta contra a doença.

"Teoricamente, no cenário ideal, sem pandemia e sem falta de insumos, ela só deveria ser utilizada uma vez. Mas as pessoas podem usar o máximo de vezes possível para não faltar para os profissionais de saúde. Enquanto a máscara estiver inteira, com a manta filtrante íntegra, sem painéis descolando, dá para reutilizar."

Ele alerta que a máscara não pode ser lavada e nem ser higienizada com álcool, pois isso danifica a camada eletroestática. "Após o uso, ela deve ser pendurada longe da luz do sol direta e o novo uso pode ser feito depois de, no mínimo, três dias."

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou neste mês recomendações sobre a máscara em que cita a reutilização do produto, mas destacando que ele é direcionado a profissionais de saúde.

"A recomendação é que os respiradores sejam reutilizados pelo mesmo funcionário desde que mantenham sua integridade estrutural e funcional e que o filtro não esteja sujo ou danificado.

Para Alexandre Naime Barbosa, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e coordenador do Departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Botucatu, a ideia de usar a máscara N95 é melhorar a proteção diante nas novas variantes, mas que a transmissão por aerossol não é a principal forma de infecção e que o Brasil precisa seguir as recomendações básicas antes de avaliar o uso desse modelo pela população.

Ele explica que a N95 tem um fator de proteção a mais, que é evitar a transmissão por aerossol, uma transmissão não tão frequente na covid-19, porque ocorre mais em ambiente hospitalar, onde há aerossol decorrente de intubação, quando está nebulizando. No dia a dia, diz Barboba, a transmissão mais importante é por gotícula na hora de falar, tossir, espirrar perto. 

"Se temos de fazer algo para mudar a situação, é seguir as medidas de proteção que já são clássicas: uso de máscara, distanciamento social e higiene das mãos. Então, isso é um cuidado a mais que os países da Europa estão fazendo, mas, talvez, a gente não esteja fazendo a lição de casa básica. Por vários motivos, essa não é a preocupação principal, nem cabe essa discussão no Brasil. A gente está tendo aglomeração. A gente não segue nem o básico", afirma.

Produção triplicou na pandemia

Na internet, os preços da unidade da máscara N95 variam entre R$ 3,75 e R$ 9,90, mas é possível encontrar sites vendendo por até quase R$ 100.

Diretor-executivo da Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho (Animaseg), Raul Casanova diz que, no ano passado, os preços chegaram a aumentar por causa da alta procura, mas a situação está estabilizada. O setor, que já produzia mais que a demanda, acabou se adaptando e triplicou a produção. Mesmo assim, ele diz que não visualiza uma situação de toda a população brasileira aderindo ao modelo e que isso não seria viável.

"No início da pandemia, nossa produção mensal era de 14 a 15 milhões de máscaras por mês. O consumo médico-hospitalar para esse produto era em torno de 1 milhão por mês. Produzíamos 15 vezes mais que a necessidade, porque ela é muito usada na área industrial. Quando veio a pandemia, começaram a falar e teve a procura. Desde setembro do ano passado, nossa produção multiplicou por três e passou de 15 para 45 milhões por mês. Essa produção está atendendo o mercado, mas, se os 211 milhões de habitantes decidirem usar, não temos capacidade de atender."

Casanova concorda que o equipamento pode ser usado em situações de risco de infecção. "Para proteção dos aerossóis, a mais adequada é a PFF2, independentemente da chegada de uma nova cepa. Se a pessoa vai em um ambiente de risco, com a possibilidade de ter pessoas contaminadas. Mas, se não vai ter essa forma de transmissão, não precisa."

Uma das empresas que fabricam o produto, a 3M, disse que a demanda cresceu 50 vezes durante a pandemia. "Nós triplicamos a nossa produção local, temos operado 24 por 7, em três turnos e contratamos mais profissionais para a produção. Além disso, globalmente, foram vendidas 2 bilhões de máscaras pela 3M em 2020", diz Sabrina Hsu Silva, especialista de Proteção Respiratória da 3M.

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