Maternidades particulares investem para reduzir cesáreas

Hospitais particulares de São Paulo estão investindo em instalações para o parto normal e, com isso, vêm reduzindo o número de cesarianas em suas estatísticas. Com um R$ 1 milhão aplicados em salas especiais de pré-parto e outros confortos para as gestantes, a maternidade do Hospital São Luiz conseguiu dobrar o número de procedimentos normais em menos de seis meses. No último ano, o Santa Catarina aumentou de 23% para 30% o número de partos normais com salas similares - e pretende ampliar o número delas até o fim do semestre. Outros hospitais de ponta da cidade têm experiências semelhantes. ?Fazemos 700 partos mensais. Desses, até julho do ano passado, 50 eram naturais. Hoje, já são 100?, festeja Soubhi Kahhale, coordenador do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia da maternidade do São Luiz. O crescimento veio com a inauguração de oito salas individuais para pré-parto, salinha no próprio centro cirúrgico para o médico repousar ou trabalhar enquanto espera as primeiras dilatações da paciente e um megaquarto de 36 m2 chamado Labor Delivery Room (LDR). Quase Um Spa - A LDR é uma espécie de spa que se transforma em centro cirúrgico. Tem hidromassagem, cores escolhidas segundo a cromoterapia, espaço para caminhadas que facilitam o trabalho de parto e música a gosto da paciente. Os equipamentos médicos, como aparelho de oxigênio e soro, ficam camuflados atrás de armários e quadros. A bibliotecária Cristiane Rokichi, de 33 anos, usou uma dessas no São Luiz na semana passada. ?Só tenho uma reclamação. Quando entrei, a música era de bebê. Aquilo me deixou irritada e pedi pra trocarem logo por música clássica?, conta. ?Mas não dá para acreditar como fiquei tranqüila esperando as dilatações. Parecia que estava em casa e não precisei sair de lá para ter a Júlia.? Menos Sofrido - A idéia das maternidades é justamente reduzir ao máximo o stress do parto normal e afastar a idéia de que ele é, necessariamente, muito sofrido. ?O stress provoca uma descarga de adrenalina no sangue, impedindo o fluxo das substâncias que compõem o chamado coquetel do amor, formado por hormônios, como a oxitocina (fundamental na contrações do útero) e endorfina?, explica Carlos Borsatto, diretor da maternidade do Hospital Santa Catarina. ?O que importa é que a paciente fique calma e tente não deitar durante as contrações?, diz Kahhale, do São Luiz. Há uma explicação médica para isso. ?No pré-parto, o tempo de dilatação pode durar de quatro a seis horas quando a mulher fica deitada. Em pé, de duas a quatro horas?, explica Kahhale. ?Quando a mulher está deitada, o bebê faz menos força para ajudar na dilatação.? O Hospital Albert Einstein foi um dos primeiros a oferecer as salas especiais de parto. Há quatro anos, investiu US$ 13 milhões na construção de uma nova maternidade com quatro dessas unidades. ?O retorno foi acima do esperado. O índice total de partos normais no Einstein é de 25%. Nessas salas especiais, chega a 75%?, calcula Wladimir Taborda, coordenador da maternidade do Einstein. Esse efeito é registrado também nas Maternidades Pró-Matre e Santa Joana, do mesmo grupo. ?Nosso índice de partos normais é de 20%. Nessas salas especiais, o número dobra?, conta Augusta de Freitas, gerente das duas maternidades. Na Pró-Matre, que faz 500 partos mensais, foram investidos em 2000 US$ 3 milhões nas salas de pré-parto e em três novas LDR. No Santa Joana, com 200 partos por mês, foram mais US$ 3 milhões. Além do ambiente mais encorajador, os cursos de gestantes também estão mudando. O das maternidades Santa Catarina, Santa Joana e Pró-Matre incluem agora simulações do parto normal para treinar a respiração da gestante. Escolha - O Santa Catarina vai inaugurar uma Labor até o fim deste semestre e já conta com salas especiais de pré-parto que incluem iluminação especial e camas de ?viúva? - tamanho intermediário entre a de solteiro e a de casal. ?É difícil saber o que veio primeiro, se a mudança na escolha do tipo de parto da paciente ou o investimento dos hospitais?, analisa Borsatto, do Santa Catarina. As duas coisas ao mesmo tempo, provavelmente. ?Até três décadas atrás, as mulheres que podiam escolher, ou seja, as atendidas pelo sistema privado, fugiam da cesária. A anestesia era muito agressiva, no pós-operatório a mulher tinha dores de cabeça violentas e ficava um dia inteiro só tomando líquidos?, explica Borsatto. ?Depois, com o avanço dos remédios e mais a possibilidade de pré-marcar a hora parto, passou a ocorrer o inverso. Vale lembrar que o índice de até 30% para cesáreas recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem a justificativa de que essa é a quantidade média de partos de risco - para mãe ou para o bebê.? Mas o número de partos normais no sistema de saúde privado brasileiro é de apenas 20% - ainda bem longe do ideal. Há décadas, essa constatação desanima especialistas em saúde pública e a OMS - o índice é pelo menos três vezes menor do que o recomendado pela entidade.

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