Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

‘Me olham como se fosse o pior ser do mundo’

Jovem denunciada por médicos do interior diz ter feito aborto após ‘ficar totalmente sem chão’

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 22h00


Nos seus primeiros dez anos de vida, Manuela (nome fictício) passou a infância em uma fazenda em Mato Grosso, onde teve uma educação rígida. Na adolescência, se mudou para o Maranhão e continuou sem discutir sexualidade com os pais. Com 19 anos, em setembro, a estudante de Odontologia em uma cidade do interior paulista abortou com 38 semanas de gravidez.

Manuela conheceu o primeiro namorado no Maranhão. Em 2012, terminou o ensino médio, prestou vestibular e se mudou novamente. Terminou o relacionamento, mas, nas férias, houve um reencontro. “A gente teve nossa primeira vez. Nunca imaginei que engravidaria de primeira.” De volta, ela diz que continuou a menstruar. “A única coisa que sentia era muita dor nas costas, mas, como estudava muito, achei que fosse por ficar muito tempo sentada”, diz. 

A tia da jovem foi quem indagou sobre a possibilidade de gravidez. Manuela fez o teste e deu positivo. “Quando eu descobri fiquei totalmente sem chão. Não queria dar esse desgosto para a minha família.” Sozinha, comprou um remédio abortivo. No dia seguinte, deu entrada no hospital com forte febre e taquicardia. Foi avisada que estava grávida de oito meses. “Eu nunca imaginei que estivesse nesse estágio. Se eu soubesse, não teria feito.”

Os médicos denunciaram o caso para a polícia. “Depois da minha cirurgia acordei em um quarto, sozinha. Um policial estava do lado de foram dizendo que tinha sido chamado para fazer o boletim de ocorrência”, afirma. “Ninguém perguntou nada para mim. Estava apavorada.”

Manuela ficou dez dias internada. Seu advogado conseguiu que respondesse em liberdade. Procurados, os médicos não quiseram se pronunciar. Ela deve ser julgada em 2015. “De repente, minha vida desabou. Até hoje me olham como se eu fosse o pior ser do mundo”, diz. 

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