Tiago Queiroz/Estadão - 29/12/21
Tiago Queiroz/Estadão - 29/12/21

Ainda sob efeitos do apagão, média de casos de covid sobe 111% em duas semanas

Índice de diagnósticos positivos da doença foi de 3,5 mil para 7,4 mil no período; especialistas atribuem aumento ao avanço da Ômicron e temem piora no cenário

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2021 | 14h00

Ainda sob efeitos do apagão de dados oficiais, a média móvel de casos notificados de covid-19 subiu 111% no Brasil em duas semanas, apontam informações reunidas até quinta-feira, 30, pelo consórcio de veículos de imprensa. O índice foi de 3,5 mil para 7,4 mil, atingindo um patamar similar ao do início do mês. Embora o indicador se mantenha bem abaixo do pico da pandemia, quando se estabilizou acima de 30 mil, especialistas ouvidos pelo Estadão destacam que o aumento pode representar piora no cenário.

Em parte, é possível que a variação ocorra porque os sistemas do Ministério da Saúde estão instáveis desde o início de dezembro, o que resulta em represamento de dados. Ainda assim, especialistas reforçam que o crescimento das hospitalizações por covid em alguns Estados e das porcentagens de testes positivos em laboratórios corroboram as análises de que a alteração na média de casos não é algo isolado. A principal causa, explicam, pode ser o avanço no País da variante Ômicron, considerada mais contagiosa.

“Está aumentando (a demanda por) testes, aumentando positividade, aumentando sintomas, aumentando suspeita, aumentando internação”, alerta Marcio Bittencourt, epidemiologista do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP. Segundo ele, é possível até que a Ômicron já corresponda à “maior parte” dos casos notificados no Brasil. O baixo sequenciamento genético, porém, somado ao apagão de dados da Saúde, dificulta entender com exatidão o atual cenário.

Apesar de a média móvel de casos de covid no País ter saltado 111% na comparação com duas semanas atrás, a de óbitos teve queda de 12% no mesmo período. Além dos efeitos da vacinação, que evitam que a doença evolua para quadros graves, Bittencourt acredita que isso está relacionado ao fato de as infecções terem começado a subir há cerca de duas semanas. “Ainda não deu tempo de ver o efeito em mortes”, diz o epidemiologista.

A indicação por ora é manter as ações de proteção, como distanciamento e uso de máscaras. “Estamos em um momento de bastante incerteza, então é importante reduzir os riscos aos quais nos expomos”, diz Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19. Ele reforça que continuar adotando medidas não farmacológicas é importante até mesmo para conter os surtos de gripe.

“Vemos um aumento de sintomas que se confundem e não temos monitoramento epidemiológico para distinguir se temos um, outro ou ambos”, explica. Sem as informações oficiais – principalmente do Sivep-Gripe, que permite acompanhar casos leves de covid –, diz ele, fica difícil saber se não há um início de surto de Ômicron misturado a um de influenza.

O que dá para saber, reforça o cientista, é que a manifestação de sintomas e as hospitalizações por síndrome gripal estão subindo em diferentes regiões. Como exemplo, Schrarstzhaupt destaca a alta das internações por problemas respiratórios principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também aponta o crescimento de casos de covid em Estados do Norte, como Amapá e Pará, o que pode resultar em aumento das hospitalizações.

Transmissão comunitária

Médico infectologista e pesquisador da Fiocruz, Julio Croda explica que, assim como foi com a Delta, as novas variantes “sempre chegam ao serviço privado primeiro”, pois atingem quem viajou para o exterior e que tem maior poder aquisitivo. Depois, quando há transmissão comunitária, como já ocorre com a Ômicron no País, o impacto chega à rede pública.

“A gente sabe que aumentou a demanda nos consultórios, que tem mais casos. Os próprios laboratórios, como Dasa e Fleury, estão reportando isso, o (Hospital Albert) Einstein também”, diz o pesquisador. Ele afirma que o governo federal, porém, não tem coletado essas informações do setor privado de forma unificada, dificultando uma leitura mais precisa do que ocorre hoje.

“O Ministério da Saúde coleta essas informações via uma API (integração entre sistemas). Os laboratórios se conectam ao banco do ministério e enviam as informações. Essa API não está funcionando desde o dia 10 de dezembro. Então, praticamente a gente não tem informação (unificada) do setor privado”, diz Croda. Ele ressalta que isso se soma à instabilidade do e-SUS Notifica, que reúne notificações dos órgãos públicos, e também a uma maior ociosidade dos registros nesta época do ano.

O Ministério da Saúde informou em nota que na última semana foram restabelecidas as plataformas e-SUS Notifica, SI-PNI e Conecte SUS, possibilitando a inclusão de dados por Estados e municípios. Segundo a pasta, os dados lançados do dia 10 de dezembro ainda não constam nas plataformas, mas "poderão ser acessados assim que a integração de dados for restabelecida". O ministério não deu estimativa de quando isso deve ocorrer.

Alta de casos nos laboratórios

Conforme mostrado pelo Estadão nesta semana, farmácias e laboratórios têm identificado alta de casos de covid-19 e de gripe. No Grupo Fleury, a procura por testes de covid dobrou, mas o alerta vem da taxa de casos confirmados: perto de 20%. “Estava com positividade de 3% a 2%, a nossa maior baixa. De repente, começou a subir o número de pedidos e de positividade”, disse na terça o infectologista Celso Granato, diretor clínico do grupo.

Situação similar foi relatada pela rede Dasa, que reúne mais de 900 unidades ambulatoriais: a taxa de positividade da covid passou de 1,38% no dia 4 para 11,4% no último domingo, dia 26. Virologista da Dasa, José Eduardo Levi diz que São Paulo e Rio são os principais responsáveis por elevar a média.

Dados do governo de São Paulo apontam que o Estado registrou na última quinta o maior número de novas internações por covid (621) desde o fim de setembro. Com isso, a média móvel ficou em 516, ante 336 há duas semanas. No início do mês, estava abaixo de 300. O patamar atual está longe do pico da pandemia, com a média acima 3,5 mil, mas a tendência de crescimento chama a atenção.

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