Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Medicina personalizada avança no País

Testes farmacogenéticos conseguem precisar se medicamento será eficaz para determinado paciente e apontar dosagem ideal

Fernanda Bassette, Especial para o Estado

27 Julho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Os médicos costumam descobrir se determinado medicamento é realmente eficaz para o paciente, ou se a relação entre o benefício e os efeitos colaterais é vantajosa, apenas depois que o tratamento começa. E, muitas vezes, a constatação demora a ser feita. Ainda pouco difundidos no Brasil, os testes farmacogenéticos - comuns nos Estados Unidos e na Europa - são uma ferramenta para ajudar o profissional a definir a terapia.

Como o próprio nome diz, por meio do avanço da medicina genômica, os testes farmacogenéticos analisam a genética do paciente e a resposta que seu organismo terá diante do contato com uma série de drogas. Isso porque algumas pessoas metabolizam os medicamentos de maneiras diferentes, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente - o que pode causar falhas no tratamento, como os indesejáveis efeitos adversos ou até a sua total ineficácia. 

"A medicina de massa tem a sua utilidade, mas a medicina de precisão vem crescendo muito nos últimos anos  e ela surge para individualizar cada vez mais o paciente. O fato de você olhar para o perfil genético do paciente e definir qual será o melhor tratamento é uma tendência muito forte e cada vez mais presente", afirma Jeane Tsutsui, diretora executiva médica, técnica e de pesquisa e desenvolvimento do grupo Fleury Medicina e Saúde.

Na maioria das vezes, os testes avaliam variações nas atividades enzimáticas e determinam se aquele medicamento que o médico prescreveu para o paciente vai funcionar corretamente ou não. Em outros casos, como no tratamento de câncer, por exemplo, o paciente já toma determinada droga e o teste vai avaliar mutações daquele tumor e indicar a probabilidade de ele responder ao tratamento da maneira esperada.

Existem testes para análise da eficácia de diversos medicamentos, passando pelos psiquiátricos, dermatológicos e oncológicos. Nos últimos anos, a cardiologia é que está ganhando espaço tanto para a identificação de possíveis mutações genéticas que possam causar doenças, quanto para a avaliação se determinada droga fará efeito ou não no paciente.

De olho nesse mercado, o médico Mário Grieco, ex-presidente da farmacêutica Bristol no Brasil, fundou a Life Diagnósticos e trouxe para o Brasil o teste cardiogenético para analisar o metabolismo da enzima CYP2C19 e a resposta do organismo do paciente ao medicamento Clopidogrel - uma droga de antiagregação plaquetária, usada para afinar o sangue e impedir a formação de trombos. Esse é um dos remédios mais utilizados em pessoas com doenças coronarianas, que possuem stents (dispositivos para manter os vasos sanguíneos desobstruídos), ou que sofreram um AVC.

Em cerca de dois anos de existência, a Life já realizou cerca de 5 mil exames genéticos para análise da CYP2C19, tudo dentro do Brasil, em laboratório próprio. Cada exame custa R$ 500. "A CPY2C19 é a enzima específica para metabolizar esse remédio. Se a pessoa tiver o metabolismo normal, está tudo bem. O problema ocorre quando a metabolização é lenta demais ou ultrarrápida. Quanto antes você identificar esse problema, melhor será para o paciente", afirma Grieco, que tem realizado um trabalho de apresentação dos benefícios do teste para os médicos. 

"Nos Estados Unidos o teste farmacogenético do Clopidogrel já é realizado de rotina e consta, inclusive, indicação de fazê-lo na bula do medicamento. Por que não deixar isso acessível no Brasil também? É isso que busca a medicina do futuro", diz Grieco.

Segundo Jeane, pesquisas recentes apontam que doenças cardíacas também podem estar associadas a mutações genéticas. Assim, o Fleury mapeou as principais mutações genéticas associadas a doenças cardíacas hereditárias e lançou recentemente um portfólio que contempla a análise de 13 painéis genéticos para a área de cardiologia, englobando doenças como: colesterol alto (hipercolesterolemia), arritmias hereditárias, cardiomiopatias hereditárias e síndromes raras.

"São doenças hereditárias e com risco maior de complicações, como um enfarte. Por meio do teste, é possível fazer um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais preciso", afirma Jeane, que também realiza assessoria para levar esse tipo de informação aos médicos. 

O preço dos testes, explica Jeane, varia dependendo do tipo de tecnologia que será usada, se será avaliada apenas uma mutação genética ou um painel de mutações, se a análise do teste será feita no Brasil ou no exterior. "Mas gira em torno de R$ 1.000 a R$ 5.000", afirmou.

Para Riad Younes, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a personalização do tratamento não envolve apenas o medicamento, mas uma série de tecnologias. Para eles, a principal dificuldade é fazer com que essa tecnologia esteja realmente acessível ao paciente. "A tecnologia nos mostra o medicamento certo para a pessoa certa. Mas aplicar isso no Brasil ainda é um problemão. Os doentes não têm acesso e muitos médicos nem sabem que a tecnologia existe", finalizou. 

Tratamento sob medida é tema do Summit Saúde

O tratamento sob medida para pacientes, com diagnósticos cada vez mais precisos e medicamentos personalizados, será um dos temas em debate no Summit Saúde Brasil, evento que o Estado realiza em 14 de agosto, no Sheraton WTC, em São Paulo.

Esse assunto estará em pauta na sessão Medicina Personalizada, com Riad Younes, do Hospital Oswaldo Cruz; Jeane Tsutsui, do Laboratório Fleury; José Eduardo Krieger, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); e Iscia Lopes Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Medicina Personalizada será um dos oito painéis do Summit, que reunirá especialistas brasileiros e estrangeiros para debater o que há de mais novo em gestão e tecnologia nas áreas de medicina e saúde. O evento é voltado para profissionais do setor, e há desconto para assinantes do Estado. Os ingressos estão à venda no site summitsaudebrasil.com.br.

 

 

Mais conteúdo sobre:
medicina Summit Saúde Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

Cientistas avaliaram medicamento nº 1 para problemas cardíacos

Teste farmacogenético foi realizado em 900 pacientes para estudar metabolismo do Clopidogrel no organismo

Fernanda Bassette, Especial para o Estado

27 Julho 2017 | 03h00

Há dois anos, pesquisadores do Instituto de Fisiologia da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto de Ciência e Saúde do Estado de São Paulo decidiram avaliar se o uso do teste farmacogenético do Clopidogrel era realmente necessário para pacientes com problemas cardíacos e que tinham indicação de uso dessa medicação. 

O Clopidogrel é um dos principais casos de sucesso do mercado de medicamentos genéricos. Desde que o produto referência (Plavix, da Sanofi) perdeu sua patente, em 2006, o consumo do medicamento em volume cresceu 565% em 10 anos, de acordo com os dados IMS Health, instituto que audita as vendas do setor farmacêutico.

Segundo Elia Ascer, professor de cardiofisiologia da USP e líder do estudo, a ideia surgiu porque ele começou a perceber que alguns pacientes que usavam o medicamento apresentavam complicações, como tromboses, mesmo usando a droga na dosagem recomendada. Assim, a equipe recrutou pacientes com doenças coronarianas, especialmente aqueles que tinham feito uma angioplastia com uso do stent (dispositivo que mantém as artérias desentupidas), para análise genética por meio do kit caseiro - em que o paciente coleta amostras de DNA raspando por dentro da bochecha e envia para análise técnica.

Ao todo, 900 pacientes foram selecionados e realizaram o teste farmacogenético para avaliar o metabolismo do Clopidogrel no organismo, por meio da análise da enzima CYP2C19. Os resultados surpreenderam o pesquisador: 39% dos pacientes que usavam essa medicação tinham o metabolismo lento ou intermediário, o que significa que teriam ou de alterar a dosagem do remédio ou trocar o medicamento para que o tratamento fosse realmente eficaz.

"O Clopidogrel é um medicamento amplamente utilizado em cardiologia. É basicamente o remédio de primeira opção. O teste farmacogenético é fundamental para evitar que as pessoas tenham problemas durante seu tratamento. Ainda custa caro, mas quando todo mundo fizer, a tendência é que preço caia", afirmou o professor Ascer.

O empresário Adriano Afonso Soeiro, de 70 anos, sofreu um AVC no início deste ano e após a realização de uma série de exames, descobriu que estava com artérias entupidas e precisou colocar 4 stents. Recebeu a indicação do uso do Clopidogrel e decidiu fazer o teste farmacogenético para saber se a medicação seria eficaz para o seu organismo, pois a medicação que ele usava anteriormente não funcionou corretamente. 

O exame foi feito em casa, por meio da raspagem da parte interna das bochechas. O resultado demonstrou que ele precisa tomar o Clopidogrel duas vezes por dia para que o efeito no seu organismo seja adequado ao tratamento. "Foi tudo muito simples e eu estou muito bem. Retomei minhas atividades normalmente, inclusive faço academia. Vida normal", afirmou.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.