Médico brasileiro cria mão artificial que obedece ao cérebro

A idéia surgiu há 15 anos, quando o cirurgião-chefe da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, Aloysio Campos da Paz Júnior, reparou em um deficiente visual andando na rua com sua bengala. "A forma de caminhar dava a nítida impressão de que, para o cérebro, a bengala havia se transformado em extensão do corpo", recorda. Foi o ponto de partida para uma série de pesquisas que resultaram na criação da primeira mão artificial brasileira capaz de executar movimentos com a força e intensidade desejadas pelo paciente. Até então, nenhuma prótese havia permitido que seu usuário dosasse a pressão para segurar objetos - esta é capaz de pegar um copo de plástico sem amassá-lo. Ou fizesse movimentos com o pulso com tamanha precisão. E escrevesse. "Tem de treinar, mas com o tempo, a gente pega o jeito", diz a primeira paciente a testar o artefato, a adolescente Patrícia Marques Tannus, de 13 anos, moradora de Araxá. "Com a mão ando melhor de bicicleta. É mais fácil me alimentar", conta. Patrícia entrou há três anos no projeto e abriu caminho para outros deficientes testarem próteses semelhantes. Um deles, um menino de três anos, chama sua prótese de mão maluca. Como ele não está familiarizado com seu funcionamento, ela abre e fecha muitas vezes, de forma involuntária. "Numa ocasião, inconformado com a rebeldia da prótese, o menino a retirou do corpo e a reduziu a vários pedaços, foi fio para todo o lado", diverte-se o cirurgião. "Gosto mesmo é de trabalhar com crianças. Elas são pesquisadoras natas, dizem a verdade, dão palpites." Justamente por isso, a Rede Sarah, que agora testa uma nova versão da mão eletrônica, deve iniciar o recrutamento de voluntários para testes. Mas a idade máxima será 12 anos. "Vai de zero a 12. Desde que a criança nasce, já é possível iniciar o trabalho", explica Campos da Paz. Estímulos - Foi uma longa trajetória. Com o exemplo do deficiente visual em mente, Campos da Paz observou a reação de crianças que tiveram os membros inferiores amputados. Ele notou que estímulos no coto (a extremidade amputada) provocavam nelas sensações como se o membro ainda estivesse lá. Na etapa seguinte, com o auxílio de exames de ressonância magnética, comprovou-se que o cérebro reconhecia e codificava os estímulos vibratórios. A trilha da informação permanecia. O pesquisador resolveu, então, percorrer o caminho inverso: foi analisar o que acontecia com crianças com amputação congênita. E logo viu que, nelas, o cérebro estava perfeitamente equipado para comandar os movimentos, apesar da inexistência do membro. A explicação está na forma como o embrião humano se desenvolve. A formação do sistema nervoso central antecede o desenvolvimento dos brotos que, mais tarde, vão se transformar nos membros. Em sua formação, o cérebro já reserva regiões específicas que serão usadas para o controle da atividade motora e da parte sensitiva. Mesmo com a ausência dos membros, na maioria dos casos, tal capacidade persiste. A partir dessa constatação, Campos da Paz projetou a mão artificial. Um programa de computador foi criado para decodificar estímulos vibratórios dados pelo usuário. Eletrodos colocados no coto decodificam estímulos dos neurônios. Com isso, o paciente cria seus comandos. Cada área do coto que ele ativa é interpretada pelo programa como um movimento. Há ainda a modulação de força, proporcional ao estímulo do paciente. O movimento de pinça é feito por três dedos artificiais: polegar, indicador e anular. "Um dos segredos foi não sofisticar demais. A prótese foi feita para o uso corriqueiro, ela fica sujeita a batidas, pancadas. Se fosse muito delicada, não teria utilidade", explica o pesquisador. Prática - Durante o treinamento, o paciente executa os comandos diante de uma tela de computador. Somente depois passa a usar a prótese, que tem em seu interior pequenos dispositivos capazes de responder aos mesmos comandos. "Cada prótese deve ser feita de forma individual, atendendo as necessidades de cada pessoa", afirma Campos da Paz. Voluntários da pesquisa recebem dois exemplares da mão artificial. Como um óculos, é preciso sempre ter um de reserva. Além disso, eles mantêm uma prótese sem movimento, para usar, por exemplo, durante a prática de esportes. Patrícia diz que não usa a mão artificial todos os dias. "Depois de muito tempo de uso, pode suar, ela fica escorregadia", conta. "Uso em curtos períodos", completa a adolescente, que participou do projeto da prótese quase que por acaso. Há três anos, ao sentir dores nas pernas, Patrícia foi fazer um tratamento na Rede Sarah. Depois de diagnosticado o problema, a cabeça do fêmur estava deslocada da bacia, ela conheceu Campos da Paz, que propôs sua entrada no protocolo. Desde então, ela já usou dois modelos. "No começo, para comer, o garfo caía. Agora estou adaptada", diz. Dentro de um mês, ela receberá um novo modelo, feito de fibra de carbono e teflon, o que o torna, segundo o pesquisador, mais leve. Campos da Paz agora quer fazer com que a tonalidade da prótese se altere com a exposição à luz solar. "Por enquanto ainda são só delírios. Mas é assim. A prótese é como um instrumento, temos de fazer ajustes, afinar e aperfeiçoar."

Agencia Estado,

17 de abril de 2006 | 10h13

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