Médico liberiano morre após tratamento experimental

Droga ZMapp teria contribuído para melhora de dois pacientes americanos; outros dois profissionais seguem em tratamento

O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2014 | 10h06

MONRÓVIA - Um dos três médicos liberianos que vinham sendo tratados com a droga experimental ZMapp contra Ebola morreu neste domingo, 24. Abraham Borbor não conseguiu superar o vírus que contraiu enquanto trabalhava no Hospital John F. Kennedy, na capital da Libéria, Monróvia. "Os médicos tinham esperança de que se recuperariam completamente", disse o ministro da Informação, Lewis Brown.

O medicamento ZMapp nunca havia sido testado em humanos antes da epidemia. Ele pode ter contribuído na melhora de dois profissionais de saúde americanos que receberam alta na semana passada curados da doença. A Libéria havia recebido a droga após solicitação da presidente do país, Ellen Jonhson Sirleaf, a autoridades americanas em 8 de agosto.

Nesta segunda-feira, 25, um enfermeiro britânico deu início ao tratamento contra Ebola após ser transferido de Serra Leoa para Londres. O homem identificado como William Pooley, de 29 anos, enfermeiro, trabalhava em Serra Leoa quando foi diagnosticado com a doença. Ele foi levado de volta ao Reino Unido, onde está sendo tratado em um hospital no noroeste da capital. 

Pooley retornou ao seu país em um avião equipado pelas Forças Aéreas Britânicas. Após o pouso, foi escoltado pela polícia ao Royal Free Hospital. O enfermeiro é o primeiro britânico a contrair o vírus desde que a epidemia ganhou força, em maio. Ele havia ido a Serra Leoa trabalhar de forma voluntária no tratamento de infectados.

O britânico é natural da cidade de Woodbridge, no condado de Suffolk. Ele agora recebe tratamento em uma unidade especialmente isolada para pacientes que sofrem de doenças fortemente contagiosas - a única do tipo na Europa. Um porta-voz do Ministério da Saúde britânico informou neste domingo que o paciente se encontra gravemente doente. Ele reforçou que o risco de contaminação por Ebola no país é muito baixo.

No último balanço divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 1.427 pessoas haviam morrido em razão da infecção. 

Medicamento. O Japão está preparado para oferecer, em casos de emergência e sob determinadas condições, um medicamento para combate a Ebola. A nova droga não passou ainda por aprovação da OMS. 

"Sabemos que há pedidos por parte dos países afetados por um medicamento desenvolvimento por uma companhia japonesa que pode ser eficiente no tratamento do vírus", disse o porta-voz do governo japonês, ministro Yoshihide Suga. Ele assegurou que o governo está "preparado para responder a solicitação de uso desse medicamento por parte da OMS".

Protestos. Familiares do médico Sheik Umar Khan, que se tornou ícone do combate ao Ebola, protestaram contra a lentidão na tomada de medidas para salvar a vida do profissional. Conhecido por seu trabalho incansável em Serra Leoa, Khan morreu em 29 de julho sem acesso ao medicamento experimental ZMapp.

Após a alta médica de dois americanos na semana passada, a família de Khan imaginou o porquê de ter sido recusado ao médico o mesmo tratamento. Khan era chamado de "herói" no pequeno país da África Ocidental. Ele liderava a batalha contra a epidemia desde o seu crescimento, em maio.

Quando se sentiu doente, em julho, ele se apressou para o tratamento na unidade da ONG Médicos Sem Fronteiras, onde os médicos debateram se daria ou não o ZMapp. A droga havia passado por testes em animais, mas não em humanos. Dias depois da sua morte, o medicamento foi aplicado em Kent Brantly e Nancy Writebol, que haviam contraído Ebola na Libéria.

"Se foi bom o suficiente para os americanos, deveria ter sido bom o suficiente para o meu irmão", disse seu irmão mais velho, Ray Khan. "Não é lógico que não tenha sido usado. Ele não tinha nada a perder se não funcionasse", acrescentou. Khan está entre os cerca de 100 profissionais de saúde que morreram na África em razão do Ebola. 

Antes de combater o vírus, Khan já era conhecido pelo seu trabalho contra casos de febre hemorrágica em Serra Leoa. "Dr. Khan sabia dos riscos melhor que ninguém, mas quando se trabalha em estruturas superlotadas, 18 horas diárias, qualquer um cometerá um erro", disse Robert Garry, professor de microbiologia e imunologia na Universidade de Tutane em Nova Orleans, que trabalho com Khan por uma década. "Toda a comunidade internacional tem de olhar para trás e admitir que erramos. Deveríamos ter reagido mais rapidamente."

A visão foi reforçada pelo médico americano Daniel Bausch da Universidade de Tulane. "Agora nós podemos olhar e dizer que foi um erro", disse. Bausch acrescenta que havia um clima de tensão. "Se ele tivesse morrido por causa da droga, ou se isso fosse cogitado, poderia haver consequências perigosas". 

Havia uma preocupação de aplicar em Khan um medicamento que centenas de outros pacientes não poderiam receber, já que algumas poucas doses de ZMapp haviam sido produzidas.

Khan sabia que o seu trabalho envolvia risco. Quando assumiu como diretor da clínica em Kenema, em Serra Leoa, em 2004, o seu predecessor havia sangrado até a morte por febre de Lassa. Mas após 11 anos de guerra civil, poucos poderiam assumir o posto. 

Após a eclosão da epidemia e sem cura comprovada, médicos simplesmente tentavam manter pacientes hidratados e livres de outras doenças, uma vez que o Ebola ataca o sistema imunológico. Apesar de temer pela sua vida, Khan se recusava a abandonar a clínica, que possuía equipes de saúde em número precário. "Se eu sair, quem virá fazer meu trabalho?", questionou o médico a um amigo da faculdade de medicina, James Russel. 

À agência de notícias Reuters, Khan havia relatado as dificuldades no combate à doença. "Meu maior problema é conseguir com que as pessoas aceitem a doença", disse em junho./EFE E REUTERS

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