Médico não considera ter furado fila em transplantes no Rio

Ele ainda criticou o Sistema Nacional de Transplantes, que 'capta menos de 20% de fígados do que poderia'

Fabiana Cimieri, especial para o Estado,

13 de agosto de 2008 | 20h48

Apesar da legislação estadual do Rio determinar que os fígados marginais (fora da normalidade) devem ser analisados por uma câmara técnica, o médico Joaquim Ribeiro Filho, em interrogatório na 3ª Vara Federal Criminal, afirmou que sua equipe tinha autonomia para dizer se o órgão "vai ser usado ou não, nesse ou naquele paciente". Mesmo assim, ele disse que não considera ter furado a fila e criticou o Sistema Nacional de Transplantes, que, segundo ele, capta menos de 20% de fígados do que poderia. O cirurgião responde a processo por peculato (desvio de órgão)em três casos de transplantes, entre eles o de Carlos Augusto Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes.  Veja também: Médico depõe sobre venda de lugar em fila de transplantes Foi a primeira vez que o médico, que é uma referência em, transplantes de fígado, apareceu em público depois de ter sido preso pela Polícia Federal na Operação Fura-Fila. Ele demonstrou segurança nas respostas, contestando cada uma das acusações. Chegou a interromper algumas vezes o juiz Lafredo Lisboa para soletrar os termos técnicos e ditar a pontuação para o escrivão. Durante as mais de três horas de interrogatório, Ribeiro Filho deu a sua versão para cada um dos três casos em que é investigado. No primeiro, em 2003, o Ministério Público o acusa de ter privilegiado o irmão de um ex-secretário de Transportes, Jaime Ariston, que estaria em 32º da fila.  De acordo com o cirurgião, o fígado transplantado nesse caso era marginal - fora dos limites da normalidade, e, nesse caso, só os doentes muito debilitados e sem chances de conseguir um fígado a curto prazo aceitam recebe-lo. Ele disse ter oferecido o órgão a outros pacientes que estavam na frente da fila, inclusive aos do Hospital Geral de Bonsucesso, que não aceitou porque estava fazendo um transplante de intervivos e não poderia fazer as duas operações simultaneamente. Ribeiro Filho disse que a equipe do Hospital Clementino Fraga Filho, no Fundão, atualizava semanalmente a lista dos pacientes que aceitariam receber um órgão marginal. No caso de Arraes, explicou, ele era o 62º da fila, mas tinha uma liminar da Justiça de Pernambuco que o colocava como prioridade na lista nacional.  O Ministério Público afirmava que Arraes não poderia ter sido inscrito na fila de espera porque possuía um tumor maior do que cinco centímetros. Mas Ribeiro Filho disse que ele foi inscrito como portador de "cirrose hepática do tipo C Shield-Tugh 7, o que garante a sua inscrição independente de complicações" e, seguindo ele, o tumor é uma das complicações.  No terceiro caso, que não chegou a ser concretizado, a Central de Transplantes interceptou o fígado, que a equipe de Ribeiro Filho havia classificado como marginal e, após exame laboratorial, constatou que o órgão estava normal. Segundo Ribeiro Filho, a classificação seguiu o protocolo médico, já que durante a captação aconteceram três paradas cardíacas, que, em tese, compromete a vascularização. Com ironia, ele comentou que, ao enviar o órgão para testá-lo, perdeu-se o fígado: "Medicina não é matemática. Tem fígados bons que não funcionam e fígados ruins que funcionam".  No final do interrogatório, o juiz Lafredo Lisboa leu um ofício do delegado da Polícia Federal Giovani Agnoletto, ao Ministério Público Federal, de 15 de fevereiro de 2008, em que ele lista uma série de "fatos interessantes" que levaram a Justiça a pedir a prisão preventiva de Ribeiro Filho - já relaxada por habeas corpus - , considerando que ele tentou interferir no andamento das investigações.  No documento, Agnoletto afirma que um assessor pernambucano do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, estaria fazendo "gestões para abafar o caso", que o secretário Estadual de Saúde, Sergio Côrtes, teria se reunido com o governador Sergio Cabral e o diretor da TV Globo Guel Arraes, irmão de Carlos Augusto, para avisá-los das investigações. A TV Globo também teria sido avisada e estaria fazendo pressão para abafar o caso. Ainda segundo o ofício, um assessor do ministro da Justiça, Tarso Genro, estaria acompanhando de perto o desenrolar das investigações e a Polícia Federal estaria preparando um dossiê contra Agnoletto.  O procurador da República, Marcelo Muller, disse que as acusações são graves, "mas não há provas, por isso não me baseei nelas para fazer a denúncia". Segundo Vinicius Wu, chefe de gabinete do ministro da Justiça Tarso Genro, não há nenhuma interferência do ministério nas investigações da Polícia Federal. "Os delegados da PF têm total autonomia. Não temos nenhuma informação de suposta interferência no trabalho deste delegado. Ninguém está autorizado pelo ministro a fazer qualquer tipo de interferência em investigações da PF. A TV Globo afirmou não ter recebido nenhum ofício. Temporão disse não ter conhecimento da acusação e Côrtes não quis comentar o assunto. Os outros citados não foram localizados.

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