Acervo pessoal / Julio César Simon
Acervo pessoal / Julio César Simon

Médico pintor dá quadro de presente aos pacientes durante tratamento

Objetivo é pelo menos aliviar um pouco sofrimento de seus pacientes, sobretudo aqueles com dores crônicas

Luciano Nagel, especial para o Estadão

30 de abril de 2022 | 05h00

O médico reumatologista Júlio César Simon, de 72 anos, trabalha no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), na zona norte de Porto Alegre, há mais de quatro décadas. Dedica-se a pesquisas clínicas e é chefe do serviço de atendimento aos pacientes com problemas reumáticos que sofrem com dores crônicas, inflamações nas articulações, ligamentos, tendões e músculos. Para aliviar, ao menos um pouco, o sofrimento de seus pacientes, por dores causadas pela enfermidade, o médico pinta quadros e os presenteia.

As pinturas vão desde autorretratos a animais de estimação de pacientes, antigas moradias, paisagens naturais e imagens santas. O médico, que também toca violão e contrabaixo, contou que a paixão pela pintura a óleo sobre tela surgiu há pouco mais de 15 anos. “Comecei a pintar quando comprei um apartamento à beira-mar em Tramandaí, litoral norte. Eu fiquei no balcão do apartamento vendo o mar e refletindo sobre isso. Eu já tinha outras atividades, fui marceneiro, músico desde os tempos da faculdade de Medicina, poeta”, afirma, orgulhoso.

As primeiras obras foram pintadas a pedido de familiares e amigos. “Sempre gostei de pintar algo que tivesse algum significado. Quando eu coloquei os quadros no hospital, na ala ambulatorial de reumatologia, os pacientes adoraram e pediram para que, se pudesse, pintasse para eles também. Lembro que uma paciente me trouxe a foto de uma casinha que ela gostava muito, lá do interior do Rio Grande do Sul, essa casa de costaneira”, contou.

Júlio César confessou que foi uma das obras mais trabalhosas, mas feita com muito gosto e carinho. “Precisei usar a espátula para fazer aquela textura da casca da árvore, pois toda a casinha era de madeira’’, lembrou. Todos os quadros pintados têm uma dedicatória, no verso, escrita à mão pelo próprio médico ao paciente. Questionado sobre a quantidade de obras já pintadas, o reumatologista afirma que já perdeu as contas, mas estima em torno de 60. “Os pacientes me dão fotos de flores, animais, imagens cristãs, e eu digo: pode deixar, vou colocar na lista’’, afirmou.

FUTURO

Prestes a se aposentar, Júlio César Simon já se mostra preocupado em quem será o próximo a presentear os pacientes do setor de reumatologia. “Eu me importo muito com os meus pacientes. Como é um serviço 100% SUS (rede pública), tu acabas acolhendo o enfermo e ele se sente muito bem, tu vês o resultado afetivo. Lidamos muito com a dor crônica dos pacientes e eles, devido à doença, ficam deprimidos, então tentamos fazer o melhor atendimento possível’’, afirma o médico.

Para a paciente reumática Denise Matté Lucas Winkler, de Porto Alegre, “o doutor Julio conversa muito com a gente, ele gosta de entender o todo”. “A doença que geralmente ele trata (doenças reumáticas) envolve muito a parte emocional do enfermo. Ele sempre diz que é a cabeça que manda em tudo’’, lembra Denise.

Na época, a gerente de uma instituição bancária se tratava com o reumatologista e havia comentado, durante uma das consultas, que seu marido era músico e gostava muito de estar com ele, em volta da lareira, tomando um bom vinho. Dias depois, Denise foi presenteada, em outra consulta, com um lindo quadro de pintura a óleo sobre tela com dois violões à frente de uma lareira e um toca-discos de vinil. A obra foi entregue em janeiro de 2011 juntamente com uma dedicatória.

Um levantamento do Ministério da Saúde, realizado em 2019, apontou que, pelo menos, 12 milhões de pessoas no Brasil apresentam algum tipo de doença reumática, ou seja, aproximadamente 5% da população. A pesquisa, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, envolveu apenas os diagnósticos confirmados. 

Algumas enfermidades reumáticas têm difícil diagnóstico e, muitas vezes, são confundidas com outras doenças, como no caso da artrite que, em diversos casos, é atribuída equivocadamente a patologias psicológicas.

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