Médicos defendem na Câmara cuidados paliativos em lugar da eutanásia

Novo Código de Ética Médica proíbe profissional de saúde de abreviar a vida do paciente terminal

Agência Brasil

25 Março 2010 | 16h49

Ao participar seminário sobre eutanásia na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, médicos defenderam nesta quinta-feira, 25, a discussão de cuidados paliativos para doentes graves em lugar da morte provocada pelo desligamento de aparelhos.

 

Veja também:

linkSueca ligada a respirador há 25 anos pede autorização para morrer 

linkApresentador inglês é preso após revelar na TV ter matado parceiro  

 

Para o oncologista e representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Cícero Urban, a eutanásia é inconsistente com a atividade de médicos e enfermeiros. Ele destacou que, atualmente, os profissionais de saúde são reduzidos a técnicos e não refletem sobre as implicações sociais de suas práticas.

 

"Para o médico, o normal é o que corresponde a suas expectativas, não é tratar de doentes terminais, mas curar pacientes. Do ponto de vista técnico, não estamos com a competência para tratar do sofrimento e da terminalidade", disse, ao lembrar que ainda não há, no Brasil, uma cultura de cuidados paliativos. "Um país como o nosso necessita cuidar de seus pacientes terminais e não eliminá-los", completou.

 

Dados apresentados durante o encontro indicam que cerca de mil pacientes são submetidos à eutanásia todos os anos na Holanda, país onde a prática foi legalizada. Entretanto, apenas 300 desses casos estão em total concordância com a lei - na maioria das vezes, ocorre a chamada eutanásia involuntária, quando não há o consentimento do paciente.

 

O representante da Associação Médica Brasileira Elias Fernando Miziara também defendeu que os cuidados paliativos sejam o norte das preocupações dos profissionais de saúde e do Congresso Nacional. Ele lembrou que a eutanásia é um conceito que surgiu apenas a partir do século 20, já que anteriormente não havia condições médicas para a manutenção da vida além dos limites da natureza.

 

"Antes, a morte era vista como uma consequência. Com o avanço da tecnologia é introduzida a eutanásia e se perde a noção de que a morte é parte integrante da própria vida", disse. "O suicídio assistido e a eutanásia não fazem parte da legislação brasileira e não é sobre isso que vamos nos posicionar a favor, mas evitar o sofrimento da família, do médico e do próprio paciente", completou.

 

Representando o Conselho Federal de Medicina, Diaulas da Costa Ribeiro ressaltou que o novo Código de Ética Médica - a ser publicado no próximo dia 13 - prevê a proibição por parte do profissional de saúde de abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido dele. O médico defendeu, entretanto, que não haja esforço terapêutico apenas para manter vivo um paciente quando não há nenhuma perspectiva de vida.

 

"Há uma grande confusão entre a suspensão de esforço terapêutico e a eutanásia. Antecipar a hora da morte não faz parte da discussão, mas sim a morte no seu tempo certo, nem para frente e nem para trás. Não somos favoráveis à mecanização da vida para além da morte", afirmou.

 

Segundo ele, 40% dos pacientes internados em unidades de Terapia Intensiva (UTI) estão "mortos", uma vez que sua condição médica é considerada irrecuperável. É o caso, por exemplo, de diagnósticos confirmados de morte encefálica. "Isso é um absurdo. Não são pacientes terminais, são pacientes terminados", concluiu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.