Médicos desafiam ética e fazem promoção de remédios

Numa prática condenada pelo código de ética da profissão, médicos de todo o País distribuem aos pacientes cupons que dão descontos na compra de produtos farmacêuticos. Os cupons são feitos pelos próprios laboratórios. A francesa Avène, por exemplo, distribui cupons que dão 30% de desconto na compra de uma loção cicatrizante. A suíça Novartis criou um cartão de fidelidade que garante descontos de até 50% na compra de medicamentos para doenças crônicas, como diabete e asma. Os dois laboratórios firmaram convênio com diversas farmácias do País. A prática é condenável porque os clientes só se beneficiam da promoção através do médico. O cupom da Avène, por exemplo, não tem valor sem o carimbo, a assinatura e o registro do médico no Conselho de Medicina. No caso da Novartis, o cartão definitivo só é dado depois que o médico fornece ao cliente um provisório. Embora não seja proibida por lei, a ligação entre médicos e indústria fere um dos preceitos éticos da profissão. De acordo com o Código de Ética Médica, é vedado "exercer a profissão com interação de farmácia e laboratório farmacêutico". "O que o médico pretende com um cupom desses?", questiona o presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Desiré Carlos Callegari. "Se ele preenche esse papel, é porque certamente vai ter alguma vantagem. Não admitimos esse tipo de coisa." A prática, de acordo com médicos, é comum. "Não consigo me lembrar de algum laboratório que não tenha uma promoção parecida", diz um dermatologista de São Paulo que distribui a seus pacientes os cupons da Avène. Ele pediu que seu nome não fosse publicado. Supõe-se que os laboratórios, por terem como saber quem prescreve seus produtos, ofereçam presentes aos médicos como recompensa. Isso permite concluir que alguns profissionais se preocupam mais com as vantagens que receberão do que com a saúde de seus pacientes. Avène e Novartis dizem que o objetivo é beneficiar os clientes e negam que os médicos recebam algum tipo de compensação. Presentes - Esse dermatologista de São Paulo diz que não recebe presentes e que a existência do desconto não o influencia na hora de receitar um remédio. "Não estou preocupado se vou ganhar uma caneta ou uma caneca. Estou preocupado é com o meu paciente." Com ou sem efeito sobre a decisão, o fato é que os presentes existem. A dermatologista Lígia Kogos, de São Paulo, conta que recentemente recebeu de um laboratório entradas para a peça O Fantasma da Ópera e para a apresentação do grupo canadense Cirque du Soleil. Não foi. "Descobriram, não sei como, que eu receitava bastante um medicamento deles e resolveram 'me agradecer'. Mas não me influenciaram. A minha regra é: o paciente vem sempre em primeiro lugar." A dermatologista conta ainda que os laboratórios sempre enviam flores em seu aniversário e que freqüentemente a convidam para festas. "Encaro como uma gentileza, nada mais." Lígia se lembra de um medicamento americano para a pele que foi lançado há três anos e custava mais de R$ 500. Virou moda por causa da pressão do laboratório, que, segundo ela, pagava uma porcentagem sobre as vendas aos médicos que o receitavam. "Muitos caíram nessa. Mas o creme não tinha o menor fundamento. Quem sucumbiu à pressão do laboratório acabou com a própria carreira." Confiança - Os médicos têm liberdade para receitar medicamentos, inclusive indicar a marca. A prática do profissional pode levá-lo a concluir que um produto é melhor que outro. Mas ele deve avisar ao paciente sobre opções. No sistema público de saúde, por exemplo, os médicos são obrigados a receitar remédios pelo princípio ativo e não pela marca. Na rede particular, não há essa exigência. A Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) não comentou a existência de cupons de desconto, mas afirmou que está elaborando um código de ética no qual condena a pressão da indústria. A Associação Brasileira de Redes de Farmácia também não se pronunciou a respeito. De acordo com o Cremesp, esse tipo de situação não envolve apenas os laboratórios farmacêuticos. O conselho já recebeu denúncias contra oftalmologistas ligados a ópticas e contra especialistas ligados a laboratórios de exames clínicos. "Isso é bastante comum", afirma o presidente do Cremesp. "Nós vivemos batendo nessa tecla. Isso é falta de ética médica." Os pacientes que se sentirem prejudicados pelo médico por qualquer motivo podem registrar uma denúncia no Conselho Regional de Medicina.

Agencia Estado,

18 de agosto de 2006 | 09h40

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