Andrei Netto/Estadão
Andrei Netto/Estadão

Médicos espanhóis apostam no Brasil

Profissionais, porém, se queixam da falta de informações sobre o programa brasileiro

Andrei Netto ENVIADO ESPECIAL / MADRI,

20 de julho de 2013 | 20h41

Os seis anos que Ángela Álvarez Sellan, de 30, estudou Medicina foram apenas o começo de sua luta por estabilidade profissional. Após deixar a Universidade de Olviedo, a médica espanhola apostou suas fichas para ingressar no mercado de trabalho em um centro de saúde de Madri, que lhe oferecia contratos temporários precários, renovados a cada três meses. Agora, Ángela tem uma nova alternativa: migrar para o Brasil.

 

Espalhados pelo país, centenas de médicos espanhóis têm demonstrado à embaixada e aos consulados brasileiros disposição de fugir da crise econômica e migrar para o outro lado do Atlântico, ganhando experiência e um salário que consideram bom - R$ 10 mil, ou € 3,3 mil, superior à média espanhola. Mas muitos ainda hesitam diante da falta de informação do Ministério da Saúde sobre onde viverão e quais recursos disporão para o atendimento.

 

As incertezas foram reveladas ao Estado por Ángela e outros médicos na primeira semana de inscrições para o Mais Médicos. Dados divulgados na quinta-feira, em Brasília, indicam que 11,7 mil pessoas se candidataram. 

 

Ángela espera se juntar à lista dos 915 profissionais estrangeiros que se inscreveram no site do Ministério da Saúde para preencher as 10 mil vagas abertas no Brasil. Como muitos profissionais da saúde na Espanha, ela vê no Mais Médicos uma chance de fugir da instabilidade e das crises econômica e social.

 

Nascida em Astúrias, ex-estudante de Português e casada com um argentino, ela acha que não terá dificuldade para se adaptar ao País, mas ainda não conseguiu superar uma barreira bem mais prosaica: a da burocracia. “Estou tentando me inscrever, mas é difícil, porque a página não funciona. São muitos papéis, certificados médicos, penais, tudo. Falta um pouco de informação”, diz.

 

Ángela tem uma dúvida recorrente: onde viveria. Moradora de Carranque, um povoado de ares rurais e apenas 4 mil habitantes situado a 35 km de Madri, a médica não se importaria em trabalhar em zonas agrícolas no Brasil. Mas não aceitaria viver na periferia de uma grande cidade. “As diferenças sociais, a violência, as favelas, isso me assusta. Se for para um lugar assim, não vou. Tenho de pensar na segurança. O meio rural não me dá medo, mas a periferia, sim.”

 

Além da questão geográfica, Ángela se preocupa com a infraestrutura que disporia para trabalhar. “Aqui, se receitamos um antibiótico, as pessoas têm acesso. Não sei se é assim no Brasil. Espero que não só queiram apenas levar médicos, mas também aprimorar a infraestrutura de saúde.”

 

Casado e pai de duas filhas, Moisés Moreno Ortíz, de 39 anos, morador de Barcelona, também está fascinado pelo desafio que o programa pode representar para sua carreira. “Me atrai muito como experiência nova e para abrir fronteiras profissionais”, pondera.

 

Porém, por pensar também na família, Ortíz planeja esperar uma segunda chamada do programa. “Vou esperar outras pessoas que vão agora e que me darão um retorno sobre suas experiências”, diz o médico.

 

Experiência. Mas os interessados não são apenas jovens ou profissionais em busca de estabilidade. Aos 60 anos, Isidoro Rivera Campos, vice-presidente da Sociedade Espanhola de Médicos de Atenção Primária, faz planos. “Me aposento em breve e não descarto partir aos 65, se o Brasil ainda me quiser, e passar o resto de minha vida no país”, diz Campos, admirador do modelo universal e gratuito do Sistema Único de Saúde (SUS). “Sou apaixonado pela minha profissão e tenho as melhores referências do Brasil. Se puder ser útil, será um prazer.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.