Médicos querem mais rigor no diagnóstico de pressão alta

Não basta só medir a pressão no consultório. O hipertenso é aquele que mantém a pressão alta em mais da metade do dia, nas mais variadas situações, como em casa, no trabalho e até durante o sono. Por causa disso, o monitoramento da doença que atinge 30 milhões de brasileiros será uma das recomendações da nova diretriz sobre pressão. O documento vai ser apresentado por entidades médicas no Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial, no dia 26. "Hoje, cerca de 20% dos diagnósticos da doença são incorretos", avisa Décio Mion, um dos coordenadores da nova diretriz e chefe da Unidade de Hipertensão do Hospital das Clínicas em São Paulo. A porcentagem faz parte do chamado efeito do avental branco, uma síndrome em que a pressão do paciente sobe na hora da consulta médica. "Num ambiente de tensão, o cérebro envia sinais de alerta para o corpo, como se ele estivesse em perigo, e a pressão sobe", explica o cardiologista Marcus Bolívar Malachias, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Na prática, esses sinais cerebrais estimulam a produção de hormônios, como a noradrenalina, que contraem os vasos sanguíneos e aceleram os batimentos cardíacos. A pressão sobe como uma reação de alarme, camuflando o diagnóstico. Um dos exames indicados é o Monitoramento Ambulatorial da Pressão Arterial (Mapa). Um aparelho no tamanho de um walkman conectado ao braço mede a pressão a cada 15 ou 20 minutos, incluindo a noite. "Durante o sono a pressão tem de ser sempre menor em pessoas normais. Trata-se de uma proteção cardiovascular. O coração tem de descansar", avisa Mion. "Quando a pressão não é mais baixa durante o sono, o risco de derrame, enfarte ou alteração nos rins sobe em 10% a 20%." Outro exame indicado na diretriz é o Monitoramento Residencial de Pressão Arterial (Mrpa), quando o próprio paciente faz o exame em casa, em aparelhos digitais pré-programados pelo médico. Em geral, a medida da pressão é feita duas vezes ao dia, por 72 horas. Grupos de Risco - Outra novidade do documento é a determinação de índices de diagnósticos para grupos de risco, aqueles que têm doenças que aumentam as chances de problemas circulatórios. A recomendação para o diabético, por exemplo, é que a pressão deve ser mantida em até 13 por 8. A medida é igual para quem sofre de síndrome metabólica - conjunto de doenças que provocam alterações no metabolismo. Para doenças renais, o ideal é 12 por 7. Em pacientes normais, os médicos recomendam que a pressão fique abaixo de 14 por 9. Apesar do alarde internacional para reduzir a 12 por 8 a pressão normal, valores um pouco mais altos continuam sendo aceitos na diretriz . "Muitos se apavoram com índices de 13 por 8. Claro que é ótimo ter índices menores. Mas, na maioria dos casos, se estiver abaixo de 14 por 9, tudo bem", avalia Malachias. A nova diretriz também vai indicar que um hipertenso não pode ser tratado só como hipertenso. "Tratamentos com remédios não devem mais ser baseados só no nível da pressão", avisa o cardiologista Fernando Nobre, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, também um dos coordenadores do documento. Cerca de 90% dos diabéticos e aqueles que sofrem de insuficiência renal têm hipertensão. Mais de 50% dos que sofrem de síndrome metabólica têm pressão alta. Um dos critérios de escolha dos três grupos de risco foi o fato de que eles podem ter medidas de pressão padronizadas. A aposentada América Pinheiro Ramos, de 76 anos, é diabética desde os 38 anos. Aos 40, descobriu que era hipertensa. "Minhas medidas chegam a 22 por 12 e não tenho sintomas", diz. "Vou medir no consultório a cada dois meses." A primeira diretriz em hipertensão foi criada em 1990. Desde então, a cada quatro anos, três entidades médicas - SBC, Sociedade de Hipertensão (SH) e Sociedade de Nefrologia (SF) - se reúnem para discutir e atualizar as recomendações com base em documentos científicos nacionais e internacionais.

Agencia Estado,

12 de abril de 2006 | 09h37

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