Médicos se concentram no Sul e no Sudeste

Brasil tem 1,89 doutor por mil habitantes, o dobro do recomendado pela OMS

Bárbara Bretanha, ESPECIAL PARA O ESTADO

17 Julho 2014 | 15h08

SÃO PAULO - Há um ano, a presidente Dilma Roussef lançou o polêmico programa Mais Médicos, que passou a contratar brasileiros e estrangeiros para trabalhar em locais carentes de assistência no Brasil. O objetivo era ampliar e melhorar o atendimento primário do Sistema Único de Saúde (SUS).

No início do ano, um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, intitulado Demografia Médica do Brasil, mostrou que o problema não está na quantidade de médicos, mas na desigualdade de infraestrutura do sistema público de saúde, que muitas vezes afasta os profissionais.

O número absoluto de médicos no País aumentou 557% nos últimos 40 anos. Em 2013, eram 374.919 profissionais, o que dá 1,89 médico por 1.000 habitantes, o dobro da média mínima recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS)– apesar de estar abaixo da médica das Américas (2,04) e de países como França (3,38) e Inglaterra (2,77), reconhecidos pela boa estrutura do setor.

Enquanto no Sudeste há 2,7 médicos para cada mil habitantes, no Nordeste o número cai para 1,3. No norte, para 1,01. “O problema está na distribuição desses médicos. A desigualdade é maior principalmente em pequenos municípios e na periferia das cidades”, diz Mário César Scheffer, coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil. A pesquisa aponta que a diferença entre extremos chega a ser quatro vezes maior. No Distrito Federal, o campeão na área, há 4,1 médicos para cada mil habitantes. No Maranhão, a proporção é de apenas 0,7.

Desigualdade. A concorrência entre os setores público e privado contribui para a desigualdade. “A lógica do nosso sistema de saúde faz com que recursos sejam disputados por vias diferenciadas de acesso, inclusive pelos médicos”, diz Scheffer. “Os profissionais procuram os locais com maior infraestrutura. Menos de 25 % dos médicos brasileiros atuam exclusivamente no SUS”.

O setor privado cobre 54,3% dos gastos, e o público, 45,7%, segundo o Banco Mundial. Em outros países com cobertura universal, a proporção é inversa. No Reino Unido, as despesas da rede pública somam 82,7%.

“O modelo vigente é focado no atendimento básico emergencial. Há uma demanda cada vez maior de casos crônicos, que exigiriam outro perfil de organização”, afirma a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ( Ipea) Luciana Servo. “Muitas vezes, no posto de saúde há um clínico geral, mas descobre-se que o paciente precisa de um especialista. Se minha principal porta de acesso ao sistema envolve um profissional raro, haverá fila de espera.”Pesquisa da Associação Nacional de Hospitais Privados, em 2012, aponta a falta de pediatras, neurologistas, anestesistas e intensivistas.Uma rede nacional de regulação da alocação dos recursos e do tempo de atendimento poderia ser usada para identificar gargalos e verificar se estão relacionados a problemas de gestão ou de estrutura. “Precisamos construir esses indicadores”, diz Luciana. “Não adianta aumentar o número de médicos e não mexer na estrutura. Eles continuariam onde já estão”, diz Scheffer. “O governo precisa oferecer incentivos financeiros e melhores condições de trabalho para que a regionalização seja atraente.”

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