Denis Farrel - 27/11/2021
Denis Farrel - 27/11/2021

Médicos sul-africanos relatam sintomas leves da Ômicron: febre, tosse e dor de garganta

Cientistas ainda pesquisam quais são sinais da doença com essa nova variante; não vacinados têm precisado de hospitalização

Isabela Fleischmann, , especial para o Estadão

02 de dezembro de 2021 | 17h13

CIDADE DO CABO - Cientistas ainda tentam descobrir se a variante Ômicron é mais transmissível, se está ligada a casos mais agressivos ou se escapa da proteção da vacina. Ainda sem evidências científicas consolidadas, os relatos de médicos da África do Sul, país onde a nova cepa foi identificada, dão pistas sobre o comportamento do vírus. Os profissionais de saúde reportam sintomas leves entre os vacinados - como febre, tosse, dores de cabeça e garganta -, e hospitalizações entre os pacientes que ainda não se imunizaram. 

A África do Sul, primeiro país a detectar a Ômicron, está passando pela quarta onda de covid-19, com casos quase dobrando de um dia para o outro. Ao Estadão, Mvuyisi Mzukwa, que faz parte do conselho diretor da Associação Médica da África do Sul (Sama, em inglês), disse que até o momento a vacina tem garantido que a Ômicron não cause covid grave no país. 

Segundo Mzukwa, vacinados que foram infectados pela nova variante apresentam sintomas leves como dores de cabeça, de garganta e no corpo, febre, mal-estar e perda de apetite. “Esses sintomas aparecem principalmente em jovens e em pessoas vacinadas, mesmo que idosas”, disse. O diretor afirmou que “pouquíssimos pacientes tiveram os sintomas usuais da covid”,  como a perda do paladar e do olfato. 

Ele estima que cerca de 90% dos pacientes hospitalizados com a nova variante não são vacinados. “Precisamos de um pouco de tempo, uma semana ou duas, para termos uma ideia melhor, mas isso é o que vemos até agora: não vacinados ficando hospitalizados, em especial os mais idosos, e até mais jovens que não são vacinados”.

O governador da província de Gauteng, David Makhura, disse em coletiva de imprensa que médicos têm reportado que a preocupação maior com a nova variante são os jovens que não tomaram a vacina, já que, os vacinados têm, segundo dados iniciais, registrado sintomas leves. “Não estamos em pânico, mas estamos preocupados com aqueles que não vieram tomar as vacinas”, diz. 

Nesta quinta-feira, 2, as autoridades sanitárias da província mais populosa da África do Sul, que responde por 72% dos casos da nova variante, foram de porta em porta e em escolas pedindo que os jovens se vacinem. Makhura afirmou que a vacina é a melhor arma para reduzir hospitalizações e mortes. "A variante está por aí e os encontros de jovens são um grande risco. A diferença para a onda de dezembro do ano passado é que não tínhamos vacina antes. Agora conseguimos vencer essa onda, não há falta de vacina", disse o governador, que pediu que os já vacinados com a primeira dose, retornem para tomar a segunda. 

Autoridades apostam na vacinação enquanto taxa de infecções dispara 

O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul (NICD) disse, na quarta-feira, 1º, que 8.561 novos casos positivos foram registrados nas últimas 24 horas no país. Dos 51.977 testes de covid feitos nas últimas 24 horas, 8.561 foram positivos, o que representa uma taxa de 16,5%. 

Na terça, a África do Sul tinha 4.373 novos casos em um dia, com uma taxa de infecção de 10,2%. Essa mesma taxa girava em torno de 1% a 3% no começo de novembro. A África do Sul também registrou 135 novas internações hospitalares nas últimas 24 horas e novas 28 mortes.

Gauteng tinha menos de 100 casos por dia no início de novembro e nesta quarta registrou 6.168 novos casos, levados, principalmente, por jovens de 20 a 24 anos. 

Em coletiva nesta quinta-feira, John Nkengasong, diretor do Centro Africano para Controle e Prevenção de Doenças (CDC Africa), disse que dos 52 mil novos casos que o continente registrou na última semana, 31 mil são da África do Sul, causados pelo resultante crescimento da Ômicron. 

O vazio de vacinas no continente africano

Segundo Nkengasong, até esta quinta-feira, o continente africano tinha aplicado 235,8 milhões de doses. Dados do Our World In Data mostram que na África, apenas 10,6% da população tomou a primeira dose da vacina. 

A África do Sul tem uma das melhores taxas de vacinação do continente, com 34% de sua população imunizada, segundo o CDC africano. Os dados do Our World in Data mostram que oito em cada dez nações africanas não conseguiram imunizar nem 20% da sua população. 

"A África já distribuiu 22,4 milhões de doses de vacinas na última semana. Só na última semana, de 25 de novembro até 1º de dezembro, 3,2 milhões de doses das vacinas da Janssen foram distribuídas para alguns países africanos, incluindo Moçambique, Burkina Faso, Ruanda, Egito, Gabão, República do Congo e Etiópia", afirmou Nkengasong. 

Nesta semana, o laboratório farmacêutico sul-africano Aspen conseguiu licença da Janssen para produzir vacinas localmente para distribuição para o continente. "Temos de celebrar, começamos a ver progresso em termos de fazer vacinas no continente". 

Mas, ao Estadão, a fundadora e diretora da Iniciativa para a Justiça em Saúde da África (Health and Justice Initiative), Fatima Hassan, lembra que a discussão para que o laboratório sul-africano produza a vacina já existe há mais de um ano e que até agora nada foi materializado. "Recebemos muitas doses que estavam para vencer. Isso coloca muita pressão na África, você não consegue planejar o que vai acontecer já que as entregas não eram garantidas ou sustentáveis". 

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