Medidas contra gripe suína ameaçam 'paralisar' a Argentina

Governo não declarou fechamento de estabelecimentos, mas cidades estão tomando medidas voluntariamente

Marina Guimarães e Ariel Palacios, da Agência Estado,

02 Julho 2009 | 12h51

Estimativas das secretarias de Saúde, ONGs e instituições médicas indicavam que o número de mortes pela gripe suína na Argentina era de 55, nesta quinta-feira, 2, mas fontes oficiais confirmaram 44. O governo vai esperar entre 48 e 72 horas antes de determinar se "é necessário tomar medidas mais drásticas", disse o ministro da Saíude, Juan Luis Manzur, durante uma coletiva de imprensa transmitida pela televisão local.

 

O governo da presidente Cristina Kirchner não apresentava números oficiais desde sexta passada. Ontem,  Manzur havia dito que o governo não contabilizaria mortes todo os dias. A única medida, além de aumentar verbas para atendimento, foi o de recomendar a antecipação das férias escolares.

 

Na terça, o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, anunciou emergência sanitária, que só consiste na ampliação das férias escolares e do número de médicos e enfermeiras. Foi pedido “isolamento” e “distanciamento social”.

 

Médias e pequenas cidades adotaram medidas mais rigorosas. A prefeitura de Quilmes determinou a suspensão de eventos culturais. Em La Plata, zoológico, centros culturais e teatros foram fechados. Em Berisso, discotecas e cinemas pararam. Em Pergamino, cybercafés, bingos e academias de ginástica foram as vítimas.

 

O temor levou muitos às farmácias para adquirir álcool em gel e máscaras. O presidente do sindicato de farmacêuticos e bioquímicos, Marcelo Peretta pediu que esse consumo seja moderado. Segundo ele, o temor causa desabastecimento. “Os estoques que duravam um mês, agora duram dois dias.”

 

A vida religiosa também é afetada. Em Santa Fe, padres não darão as hóstias na boca dos fiéis, e sim na mão. O clero recomendou distância “prudente” nos bancos. Em Quilmes, a Diocese recomenda que os fiéis, na hora de desejar a paz, evitem o aperto de mãos. A comunidade judaica anunciou a suspensão das atividades culturais, sociais e educativas, mantendo apenas as religiosas.

 

Líderes da oposição pediram que o Congresso declare emergência sanitária nacional. O governo federal é acusado de “paralisia”. A própria posse do novo ministro da saúde foi criticada, pois na cerimônia realizada na Casa Rosada acotovelaram-se mais de 500 pessoas no pequeno Salão Branco, de escassa ventilação.

 

O setor esportivo foi outra vítima. A União Argentina de Rugby suspendeu as atividades até 20 de julho. Os principais clubes de hóquei, golfe e remo também cancelaram suas atividades . Maratonas e corridas de carro foram adiadas. O futebol é exceção, graças ao forte lobby dos maiores times.

 

 MEDIDAS LOCAIS

 

Na Província de Buenos Aires, o governo vai permitir que os empregados públicos com filhos menores de 14 anos possam pedir licença especial, sem perder o salário, por um mês. A licença é para que o pai ou a mãe cuide dos filhos que serão obrigados a ficar em casa por causa da antecipação das férias escolares a partir da segunda-feira.

 

A licença também será concedida aos funcionários que têm a tutela ou guarda de pessoas que fazem parte do grupo de risco, como grávidas, asmáticos, cardíacos, pacientes oncológicos e ainda os portadoras de deficiência de qualquer idade que frequentam estabelecimentos educativos, os quais terão que ficar em casa.

 

AVALIAÇÃO

 

A Secretaria de Saúde da cidade de Buenos Aires reconheceu que "85% do vírus da gripe que circula atualmente corresponde ao tipo A H1N1". Até a semana passada, os funcionários públicos argumentavam que a gripe suína era apenas um tipo a mais de influenza que circulava no país. Na medida em que aumentam os casos e as mortes, as autoridades públicas agravam o tom e admitem que a situação "é séria".

 

"O novo vírus está substituindo os outros que são típicos no inverno, como o da gripe comum", afirmou o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia (SAI), Pablo Bonvehí. A SAI calcula que 20% da população (2,5 milhões de pessoas) da capital federal e da área metropolitana de Buenos Aires poderia se contagiar com o vírus.

 

 

Os especialistas argentinos estimam que o nível mais alto de contágio ainda não foi atingido. "Estamos na semana 24 e o pico chegará entre as semanas 26 e 28", ou seja, dentro de duas semanas, explicou Bonvehí. Os primeiros casos da doença na Argentina foram registrados no dia 7 de maio.

 

O Ministério de Saúde deixou de publicar o boletim diário que era divulgado no início de cada noite e a atualização dos números da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) demoram entre dois e três dias. O último boletim do ministério argentino havia sido divulgado na sexta-feira passada, 26, e registrava 26 mortes e 1.587 casos confirmados.

 

(Ampliada às 19h53)

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