Carla Carniel/Reuters
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Medidas de restrição e efeitos da vacina mudam por causa da nova variante de Manaus?

Além de higiene, máscara e distanciamento, especialistas cobram testagem em massa e rastreamento de contatos; ampliação de imunização contra covid-19 também é necessária

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 10h00

O combate à nova variante brasileira do coronavírus envolve, segundo especialistas, a aplicação de muitas medidas já conhecidas desde o início da pandemia. Com o novo avanço nos casos, internações e mortes causadas pela covid-19, o momento é de efetivar a implementação de ações conhecidas dos brasileiros, mas ainda em parte desprezadas.

Nesse rol estão o uso adequado de máscaras, a higienização recorrente das mãos e o distanciamento social. A tríade propagada por especialistas e organizações desde os primeiros sinais de avanço da doença ainda encontra dificuldade para ser posta em prática no Brasil, em particular as grandes aglomerações que continuam a ocorrer em diferentes regiões.

“A estratégia de combate não muda em absolutamente nada. Estamos ouvindo dizer que as variantes geraram maior disseminação da doença, mas foi a maior disseminação que gerou as variantes. Quanto mais o vírus se replica, mais ele sofre mutação. A maior probabilidade é quando deixamos ele correr livre”, explicou Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC).

Novos estudos sobre a variante brasileira, chamada de P.1, têm mostrado que ela é até 2,2 vezes mais transmissível, aumenta em dez vezes a quantidade de vírus nas células do doente e tem uma chance até 61% maior de escapar da imunidade protetora conferida por uma infecção prévia.

Quem já notava nos dados e nas ruas o efeito do avanço da doença ainda no ano passado era o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia. Com o colapso da saúde de Manaus no início deste ano, Orellana rapidamente fez a associação com o que poderia ser um efeito da nova variante. A forma de combate, ressalta, permanece a mesma já preconizada em 2020.

“A sequência de erros que cometíamos em 2020 se repete agora, assim como as narrativas negacionistas contra máscara e lockdown. Temos o mesmo palco e o mesmo enredo. A diferença agora é que o nosso algoz é mais poderoso e se chama P.1”, disse o especialista.

À tríade de medidas, Orellana soma medidas conhecidas como a testagem em massa de casos e o rastreamento de contatos suspeitos e confirmados com covid-19, que também não foram efetivamente aplicadas em sua avaliação. “Se olharmos para trás, vamos ver que o Brasil e infelizmente Manaus, de forma emblemática, não conseguiram implementar as medidas de forma eficaz”, reforçou.

Cético sobre a mobilização para o que seria a adoção tardia dessas medidas de forma ampla, Orellana pede ação política. “Contabilizando tantas mortes, é ilusão achar que o Brasil agora vai adotar isso. A única saída é o afastamento do presidente e do ministro da Saúde. Na prática, os secretários estaduais já estão fazendo o papel do ministro ao recomendar lockdown. O Brasil perdeu o controle da epidemia e da gestão da epidemia, que passou a ser comandada por outros atores políticos”, declarou.

Natalia Pasternak espera que o cenário de novo recrudescimento da doença possa levar a uma melhor percepção da situação por parte da população. “Talvez a gente agora consiga fazer com que as pessoas percebam a gravidade. As medidas de usar máscara, fazer distanciamento, evitar aglomeração não mudaram. Agora, tem de ser implementado de forma efetiva”, disse.

Um risco do avanço das mutações do vírus é que elas consigam escapar da proteção conferida pelas vacinas, hipótese que ainda está em estudo. Pesquisas têm sugerido que a eficácia pode ser reduzida, mas não totalmente anulada. Uma análise preliminar com dados de oito pessoas sugeriu que a variante pode escapar dos anticorpos produzidos pela Coronavac, principal imunizante aplicado no Brasil.

Contra esses efeitos, Natalia pede aceleração na aplicação das vacinas. “As vacinas devem ser usadas em massa o quanto antes porque ainda funcionam. Se vacinar em massa, impedimos novas variantes. Se deixa a doença correr solta sem vacina, corre o risco de aparecerem outras variantes que escapem completamente do que o mercado tem agora (de imunizante) e aí seria preciso redesenhar a vacina”, explicou.

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