Andrew Kelly/Reuters
Andrew Kelly/Reuters

Medo de câncer leva Angelina Jolie a remover ovários

Atriz fez anúncio em artigo no 'The New York Times', quase dois anos após ser submetida a cirurgia para evitar mal na mama

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 10h33

Atualizada às 21h16
A atriz americana Angelina Jolie, de 39 anos, submeteu-se na semana passada a uma nova cirurgia como prevenção contra o aparecimento de tipos agressivos de câncer. O novo procedimento, para a retirada dos ovários e das tubas uterinas, mais conhecidas como trompas, reabriu o debate sobre o que fazer em situações semelhantes. A atriz trouxe o caso à tona nesta terça-feira, 25, ao publicar um artigo no jornal The New York Times (leia a íntegra).
Em 2013, Angelina surpreendeu o mundo ao anunciar que tinha feito uma mastectomia dupla. Após um exame genético, médicos constataram que ela tem uma mutação no gene BRCA1, o que a torna mais propensa a ter câncer de mama e de ovário. A mãe de Angelina morreu aos 56 anos de câncer de ovário. Uma das avós e uma tia também morreram de câncer. “Eu me sinto feminina e alicerçada nas escolhas que estou fazendo para mim e minha família. Sei que meus filhos nunca vão precisar dizer que a mãe ‘morreu de câncer de ovário’”, escreveu.
Especialistas concordam com a realização do procedimento no caso da atriz, mas afirmam que não é indicado para todas as mulheres. “Existem dezenas de tumores diferentes. Um deles, o carcinoma seroso, representa 80% dos tumores malignos. Nesse tumor, em uma parcela das pacientes, ele passa de mãe para filha. Essa parcela é de 15%. Quando estão os genes BRCA 1 e BRCA 2 mutados, anormais, há esse risco aumentado”, explicou Jesus Paula Carvalho, coordenador da área de câncer ginecológico da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp).

Prevenção. O exame para a detecção da mutação genética ainda não é oferecido pela rede pública de saúde e custa cerca de R$ 6 mil. Carvalho, que também é presidente da Comissão Nacional de Câncer Ginecológico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), disse que essa alteração nos genes causa um risco de 50% de aparecimento de câncer de ovário.
“A grande questão é o câncer de ovário. A Angelina fez a cirurgia para prevenir um câncer que ela tem uma alta probabilidade de ter. Esse é o mais agressivo e a chance de uma mulher estar viva cinco anos depois do diagnóstico é de 45%. Mais da metade morre.”
O especialista afirmou que o procedimento deve ser realizado, de preferência, entre os 35 e os 40 anos. Segundo Carvalho, estudos recentes apontaram que o câncer de ovário tem origem nas tubas uterinas. Ele observou que, dependendo dos resultados das pesquisas, a retirada dos ovários poderá ser desnecessária no futuro. “Esse estudo pode demonstrar que só seja necessário fazer a cirurgia nas tubas. Talvez seja o caminho.”
Chefe do serviço de oncologia clínica do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes - Beneficência Portuguesa de São Paulo, Fernando Maluf disse que a cirurgia consegue evitar o aparecimento da doença e os danos causados por ela. “O que acontece é que o rastreamento para câncer de mama é mais eficaz do que o para câncer de ovário. Nenhum estudo mostrou que exames de imagem são capazes de diminuir a mortalidade. Foram feitos exames de prevenção para quem tinha essa síndrome (alteração nos genes) e a prevenção cirúrgica reduz em 90% a incidência de câncer de mama e de ovário.”

Consequências. Em seu relato, Angelina afirmou estar preparada para as consequências da cirurgia. “Eu não vou ser capaz de ter mais filhos e prevejo algumas mudanças físicas. Mas eu me sinto à vontade com o que virá, não porque eu seja forte, mas porque isso faz parte da vida. Não é nada a ser temido.”
Um dos efeitos do procedimento é a menopausa precoce. “A cirurgia coloca a mulher na menopausa. Ela perde a função hormonal e a capacidade de engravidar. As consequências são grandes. A retirada dos ovários causa ressecamento da vagina, dificuldades na relação sexual, osteoporose e ondas de calor. Mas isso pode ser contornado fazendo a reposição hormonal”, afirmou Carvalho.
Ginecologista da Maternidade Pró-Matre Paulista, Domingos Manatelli disse que o tratamento com hormônios pode acompanhar boa parte da vida da paciente. “Os hormônios que ela precisa repor são o estrogênio e a progesterona. A medicação é dada enquanto ela puder ter os sintomas da menopausa. Na maioria dos casos, é a partir dos 65 até os 70 anos. Depois, pode acontecer de a mulher não precisar mais.” / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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