SILVIO AVILA / AFP
SILVIO AVILA / AFP

Medo de infecção freia vendas mesmo após reabertura em cidades pelo Brasil

Cidades que afrouxaram quarentena registram queda no varejo em comparação com o período pré-pandemia

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Os R$ 172 bilhões de vendas perdidas pelo comércio varejista brasileiro de meados de março até hoje por causa do período de isolamento social devem demorar para serem recuperados. Nas cidades onde a reabertura foi autorizada, lojas de shopping estão vendendo até 70% menos em relação ao período anterior à quarentena. No comércio de rua, a situação é menos pior, com queda de até 40%.

A falta de ação coordenada de reabertura de outros setores, como escolas e transporte coletivo, além do medo de contaminação da doença e a queda na renda da população frearam uma retomada mais forte do varejo onde ele foi liberado.

Em Florianópolis, por exemplo, onde o comércio reabriu há um mês, os varejistas ainda estão cambaleantes. “Quem está bem vende hoje 20% do que vendia antes da pandemia”, conta Rodrigo Rossoni, presidente da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF), mencionando o varejo em geral. Ele explica que o comércio foi reaberto, mas as escolas e o transporte público, não. Essa falta de coordenação entre os setores impede o fluxo de consumidores às ruas e às lojas.

Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que mesmo com a reabertura, as vendas do comércio de produtos não essenciais em Santa Catarina continuaram no vermelho em relação ao período pré-pandemia, embora com perdas bem menores comparadas a Estados que ainda enfrentam restrições. Nas contas do economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, nas últimas quatro semanas, já com o varejo autorizado a funcionar, o comércio catarinense deixou de vender R$ 3,4 bilhões. Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Goiás, onde está o Distrito Federal, Estados onde o comércio já foi liberado, também amargaram perdas.

Tito Bessa, dono da rede de artigos de vestuário TNG, com 165 lojas no País, das quais 25 abertas e espalhadas por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Paraná e Distrito Federal, notou resultados distintos entre lojas de shopping e lojas de rua reabertas. Nos shoppings, a queda de vendas nas cidades onde o comércio foi reaberto chega a 70% e nas lojas de rua, a retração varia entre 30% e 40%.

“A céu aberto, a tendência é o consumidor se sentir mais seguro, mas não sei por que está acontecendo isso. Os empreendedores de shopping estão tomando muito cuidado”, diz Bessa, presidente da Associação Brasileira dos Lojistas satélites (Ablos). Nos quatro shoppings reabertos do grupo Multiplan, localizados em Canoas (RS), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Brasília (DF), o movimento de consumidores está 50% menor do que o habitual, diz o vice-presidente institucional, Vander Giordano.

Nabil Sahyoun, presidente da Associação de lojistas de shoppings (Alshop) confirma o recuo. Nas suas contas, os shoppings que reabriram nos últimos 15 dias registram queda de 60% no número de pessoas circulando em relação a maio de 2019. Giordano vê um ponto positivo no menor fluxo de pessoas. “Isso ajuda a garantir o funcionamento das nossas medidas de preservação da saúde.” Um ponto levantado pelo executivo é o tempo de permanência de consumidores nos shoppings, que tem sido menor. O reflexo é uma conversão de vendas maior. Esse movimento também foi notado por Rossoni. “Quando as pessoas vão ao shopping, vão para comprar”.

Nos 240 pontos de venda da Lojas Colombo, espalhados pelos três estado do Sul, onde o comércio já foi liberado, o fluxo de consumidores caiu, informa a empresa. Segundo a varejista, as restrições impostas pelo decretos municipais à circulação de pessoas e à permanência nas lojas contribuíram para a queda no movimento.

Mesmo com a reabertura, Bentes, da CNC, acredita que a recuperação do comércio seguirá lenta por causa da deterioração das condições econômicas, com a perda de renda e do emprego. Só em abril foram destruídos 860 mil postos de trabalho com carteira assinada.

O economista ressalta ainda que, por vários motivos, os shoppings vão sofrer mais que as lojas de rua nessa retomada. Entre eles, Bentes aponta as regras da flexibilização que em muitas cidades determinam um fluxo menor de pessoas nos shoppings e horários restritos de funcionamento. Além disso, há a questão de no shopping o ambiente ser confinado, o que, por causa das restrições, pode levar à formação de filas para entrar. Ele lembra também que cinemas e outros serviços estão proibidos de operar. Por conta disso, menos pessoas irão aos shoppings, o que pode reduzir as compras por impulso. “O comércio de rua tende a engatar uma recuperação antes dos shoppings”, conclui o economista.

 

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