Medo faz 10% dos doentes recusar transplante de coração

Estimativas de médicos dão conta de que, em média, 10% dos pacientes se recusam a passar por transplante de coração. Como razões, estão o medo de que não sobrevivam à cirurgia e as falsas crenças ligadas ao órgão. Esse tipo de recusa praticamente não existe quando envolve outros órgãos, como os rins e o fígado. "O coração assusta bastante. Tem uma simbologia muito forte, a simbologia do órgão da vida", explica a psicóloga Silvia Cury, do Hospital do Coração (HCor), de São Paulo. "As pessoas acreditam que o coração é o depositário da alma, que nele se guardam todos os sentimentos, todos os segredos. Já tivemos um paciente que não aceitou o transplante porque acreditava que seus sentimentos iriam ficar no coração velho, que ele não iria amar as pessoas da mesma forma", explica Silvia. A psicóloga do HCor lembra ainda o caso de um paciente que disse que não aceitaria o transplante se o coração viesse de uma mulher ou de um homem que não fosse branco. "Ele não foi operado e, embora tenhamos perdido contato, certamente morreu um tempo depois." O transplante é a última alternativa. Quando um paciente entra na fila por um coração novo é porque todos os demais tratamentos contra a insuficiência cardíaca falharam. Nesses casos, a não realização do transplante significa - mais cedo ou mais tarde - a morte. "Quando indicamos o transplante é porque o caso é grave. Se a cirurgia não for feita, as chances de o paciente estar morto em um ano são de 50%", afirma a médica Juliana Rolim Fernandes, do Hospital de Messejana, de Fortaleza. No ano passado, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), foram realizados no País 196 transplantes de coração. No fim do ano, 336 pessoas estavam na lista de espera por um órgão novo. O primeiro transplante de coração está prestes a completar 40 anos - foi realizado por um médico da África do Sul em 1967. O paciente viveu menos de um mês. Hoje, com o avanço das drogas pós-operatórias, as chances de o órgão ser rejeitado tendem a diminuir cada vez mais. Medo O agricultor cearense Francisco Gilberto de Lima, de 47 anos, está há três meses internado no Hospital de Messejana. Ele não quer trocar de coração. Seu órgão está inchado por causa do mal de Chagas e bate com muita dificuldade. "No meu interior, isso é muito difícil. Eu tenho medo", explica. Mas o medo é especificamente do transplante, pois ele aceitou submeter-se a outra cirurgia. Nesta semana, os médicos irão trocar uma das válvulas de seu coração. Ou seja, seu peito será aberto de qualquer maneira. Esse procedimento é mais simples, mas apenas paliativo. Em pouco tempo, o transplante novamente será necessário. Existem ainda pacientes que dizem que não suportarão a vida pós-transplante, que inclui rígidas dietas e a proibição de beber e fumar. Além disso, alguns doentes pensam que não precisam mais da cirurgia quando apresentam uma melhora - que, na verdade, é sempre transitória. Todas as equipes de transplante precisam ter um psicólogo, que deve dissipar medos e fantasias. "Mas se mesmo depois de todos os esclarecimentos e todo o trabalho psicológico o paciente decide que não quer o transplante, não há nada que possamos fazer. A decisão tem de ser respeitada", explica Vivian Santos Simão, psicóloga do Hospital de Messejana.

Agencia Estado,

27 de novembro de 2006 | 09h26

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