Megaoperação da PM salva família vítima de botulismo

Soro para a doença foi transportado de helicóptero e avião de São Paulo a Santa Fé do Sul, no interior paulista; família corria risco de vida

René Moreira, especial para O Estado de S.Paulo,

20 Agosto 2012 | 16h19

 FRANCA - Uma família inteira está internada em Santa Fé do Sul, no interior paulista, com botulismo. Pai, mãe e dois filhos chegaram no hospital no domingo (19) apresentando sintomas da doença como vômito, diarreia, dificuldade de locomoção e visão embaçada. Em pouco tempo o quadro deles se agravou e médicos tiveram certeza tratar-se de botulismo, cujo soro específico está disponível em poucos locais, sendo São Paulo o mais próximo. Foi montada então uma megaoperação por parte da Polícia Militar que de helicóptero e depois de avião conseguiu levar esse soro a tempo.

O botulismo é uma intoxicação causada por uma bactéria, a Clostridium botulinum, que pode estar presente em alimentos estragados ou mal conservados. As vítimas, Benedito José dos Santos, de 38 anos, Elisete Garcia, de 30 anos, e os filhos Juliana Bruna, de 12 anos, e Cristiano, de 9 anos, teriam comido mortadela pouco tempo antes de ficarem doentes. Amostra do alimento, comprado em um supermercado da cidade, foi encaminhada para análise no Instituto Adolfo Lutz, também na capital paulista.

Um funcionário do hospital contou ao Estado que a família já chegou muito mal, sobretudo, as crianças que não conseguiam falar e quase não enxergavam. Vale destacar que também são sintomas da doença visão dupla e embaçada. Conforme o estágio vai avançando, o doente também pode ter os músculos paralisados e até outros orgãos como o diafragma, que parando pode levar à morte ao impedir a respiração e causar asfixia.

Pouco tempo após a internação os médicos notaram que a doença estava atingindo o sistema nervoso, sintoma de botulismo. A família já estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e a doença evoluiu mais rapidamente nas duas crianças. O menino de 9 anos teve uma parada respiratória e desde então passou a respirar com a ajuda de aparelhos. Sua irmã de 12 anos também foi colocada sob respiração artificial e até esta segunda-feira (20) todos os dois seguiam nessas condições e em estado grave.

O pai e a mãe também tiveram sua situação agravada, mas em menor escala. Nesta segunda-feira eles foram transferidos para o quarto, porém, continuavam internados e sem previsão para receber alta. O médico José Maria Ferreira dos Santos, que participou do atendimento à família na Santa Casa de Santa Fé do Sul, disse que primeiro foi preciso estabilizar os pacientes para na sequência correr atrás do soro. Segundo ele, se não fosse a rapidez da Polícia Militar para fazer chegar o medicamento algumas das vítimas poderiam não ter resistido.

Operação

A cidade fica a mais de 620 quilômetros de São Paulo e a PM teve de montar uma megaoperação de emergência. Isso porque foi informado que teria, no máximo, seis horas para chegar ao hospital no interior paulista. Médico, enfermeiro e policiais foram então de helicóptero pegar o soro no Instituto Pasteur, no centro da capital, para embarcá-lo em um avião que decolou do Campo de Marte, na zona Norte de SP. Segundo o capitão Willian, do Grupamento Aéreo da PM, o Comando da Aeronáutica permitiu que a aeronave saísse da rota habitual, para que seguisse em linha reta de São Paulo até Santa Fé do Sul, concluindo o percurso em uma hora e quinze minutos.

O trabalho deu resultado e pouco depois de o avião aterrissar os quatro pacientes já eram medicados. Familiares das vítimas e médicos comemoraram, pois, por se tratar de intoxicação considerada gravíssima, o botulismo evolui rápido e pode matar em poucas horas. O fato de poucos locais contarem com esse soro se deve ao fato de se tratar de uma doença rara, sendo no período de dez anos (de 1.999 a 2008) registrados somente 39 casos no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O uso do soro visa eliminar a toxina circulante no corpo e a sua fonte de produção, ou seja, a bactéria Clostridium botulinum.

Segundo a Vigilância Sanitária, os alimentos mais envolvidos nos casos de botulismo são as conservas vegetais (artesanais), os produtos cárneos cozidos, curados e defumados de forma artesanal, os queijos e pastas de queijos, além das conservas industrializadas, mas essas -ao contrário do que se pensa, raramente causam a doença.

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