Niharika Kulkarni/Reuters
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Memória de infecção passada

Células que guardam memória da infecção foram localizadas em quem nunca teve a covid 

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 05h00

Pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 reagem de maneira diferente. Algumas vencem o vírus sem apresentar sintomas, outras acabam entubadas em uma UTI e morrem. No último mês foram descobertas algumas das razões que levam pessoas ao hospital, como a presença de anticorpos contra citocinas ou a incapacidade de produzir algumas citocinas. Esses fenômenos explicam aproximadamente 15% dos casos graves.

Na outra ponta, foram propostas razões para pessoas terem casos leves, entre eles a possibilidade de terem sido infectadas no passado pelos outros coronavírus, aqueles primos do SARS-CoV-2 que causam parte dos resfriados. A ideia por trás dessa teoria é que nosso sistema imune, por ter na sua memória imunológica lembranças dessas infecções, teria uma maior capacidade de reagir ao novo coronavírus. Pois bem, agora as células que guardam essa memória foram encontradas e caracterizadas em pessoas que nunca tiveram contato com o SARS-CoV-2.

Parte da memória do sistema imune reside em um tipo de linfócito T. Os linfócitos são células vivas que se dividem e seus descendentes podem permanecer no corpo de uma pessoa por anos ou mesmo décadas depois de a pessoa ser infectada por um vírus. Cada pessoa possui uma coleção desse tipo de células T. Cada membro dessa coleção guarda a memória de infecções passadas na forma de receptores (como se fosse uma fechadura) que ficam na sua superfície. Essa “fechadura” (chamado T cell receptor) pode ser destrancada por uma “chave” específica. E essas chaves são pedaços do vírus que infectou a pessoa. Assim, quando alguém foi infectado, ou vacinado, contra o sarampo, por exemplo, vai ter linfócitos T que reconhecem, cada um, um pedaço diferente do vírus do sarampo. Por esse motivo, para saber se uma pessoa está preparada para combater um vírus basta pegar os linfócitos T da pessoa e colocá-los na presença de um pedaço do vírus. Se os linfócitos T com a “fechadura” correta estiverem presentes, a “chave” se liga a eles e se dividem loucamente. 

O que os cientistas fizeram agora foi pegar no freezer linfócitos T que haviam sido congelados muito antes de o SARS-CoV-2 aparecer na China. Em seguida produziram artificialmente um enorme conjunto de “chaves”, cada uma com uma parte do SARS-CoV-2, e misturaram essas “chaves” (na verdade são peptídeos com pedaços das sequências das proteínas do SARS-CoV-2) com os linfócitos T dessas pessoas em um meio de cultura. O que eles observaram foi o aparecimento de muitas colônias de linfócitos T ativados. Ou seja, essas pessoas que nunca haviam encontrado o SARS-CoV-2 tinham linfócitos T que reconheciam essas “chaves”. Como isso era possível?

Numa segunda fase, os cientistas testaram cada uma das “chaves” separadamente e desse modo puderam identificar as “chaves” baseadas no SARS-CoV-2 que funcionavam na ativação dos linfócitos T. Aí então eles se perguntaram: se essas chaves feitas de pedaços de SARS-CoV-2 funcionam nas “fechaduras” desses linfócitos T, então essa pessoa já deve ter sido infectada por um vírus que produz uma “chave” parecida. E embarcaram na busca. Os resultados dessas buscas foram chaves produzidas por outros coronavírus, como HCoV-OC43, HCoV-229E, HCoV-NL63 e HCoV-HKU1.

Se isso é verdade, quando as pessoas são infectadas por qualquer um desses vírus, que causam resfriados leves, essas pessoas produzem linfócitos T com “fechaduras” que podem ser abertas com as “chaves” desses vírus ou as “chaves” do SARS-CoV-2. 

Em suma essas pessoas, muito antes do aparecimento do novo coronavírus, já tinham em sua memória imunológica a capacidade de, reconhecendo as “chaves” do SARS-CoV-2, iniciar a proliferação de seus linfócitos T e assim combatê-lo. É provavelmente por esse motivo que apresentem casos leves da doença ou mesmo sejam assintomáticas. Essas pessoas têm a memória de infecções passadas.

MAIS INFORMAÇÕES:  SELECTIVE AND CROSS-REACTIVE SARS-COV-2 T CELL EPITOPES IN UNEXPOSED HUMANS. SCIENCE VOL. 370, PÁG. 89 (2020)

*BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE  A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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