JF DIORIO/ ESTADÃO
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Menos de 1/3 de 23 mil produtos comercializados são considerados saudáveis, diz ONG holandesa

Fundação de Acesso à Nutrição revelou que maior parte da indústria alimentícia atuante em nove países põe no mercado produtos que não podem ser considerados saudáveis.

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 03h00

RIO - Dona Ilmara, de 41 anos, trabalha como funcionária de limpeza no Corpo de Bombeiros. Seu marido, o motorista Walmir, de 46 anos, está desempregado. Os dois moram com um casal de filhos adolescentes em Guadalupe, um bairro pobre da zona norte do Rio. A despeito dos percalços econômicos da família, ninguém passa fome – longe disso. Ilmara está muito acima do peso: são quase cem quilos para 1,52m de altura. Tem pressão alta. Sua filha mais velha, de 14 anos, segue o exemplo materno. Com quase 1,80 m, já pesa mais de 80.

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Mãe e filha são personagens de uma história que tem como cenário a melhoria de renda no Brasil em anos recentes e o barateamento dos alimentos industriais processados. Foram boas notícias para um País que há poucas décadas lutava contra a fome. Mas o preço que cobram é elevado e se manifesta em problemas como sobrepeso e da carência de nutrientes.

Relatório mundial divulgado nesta quarta-feira, 23, pela ONG holandesa Fundação de Acesso à Nutrição revela que, dos 23.013 produtos mais comercializados em nove países por 22 das maiores indústrias de alimentos e bebidas do mundo, menos de um terço pode ser considerado saudável.

E são justamente esses produtos que surgem na mesa de dona Ilmara com frequência. Achocolatado, batata chips, salgadinho, refrigerante, suco em pó, hambúrguer congelado, biscoito recheado, leite condensado. Repletos de açúcar, sal e gordura saturada, esses produtos são tão saborosos quanto viciantes.

“Eles comem comida, mas também comem muita besteira”, diz Ilmara, referindo-se aos filhos. “Se deixar, só comem besteira. E mesmo quando eu não compro em casa, eles acabam comendo na escola.”

O dado crucial aqui é o preço. Hoje, muitos desses itens são comprados por valores bem mais acessíveis do que o de muitos alimentos saudáveis, forçando até mesmo uma mudança cultural na alimentação do brasileiro. O café com leite, por exemplo, sai de cena, junto com o refresco de frutas, o bolo caseiro e, até mesmo, o feijão com arroz.

O problema não é exclusivo do Brasil, repete-se em vários países. Um em cada três adultos no mundo sofre de algum problema de nutrição.  Hoje, há no planeta mais pessoas obesas ou com excesso de peso do que desnutridas. São dois bilhões acima do peso contra 815 milhões que passam fome diariamente, segundo o relatório. Mas surgiu ainda uma nova categoria, a de pessoas com sobrepeso e que estão mal nutridas, apresentando carência de vários nutrientes. Neste grupo, estão outros dois bilhões de indivíduos.

“Os maiores fatores de risco que contribuem para doenças e morte prematura estão relacionados à dieta”, afirma a diretora executiva da Fundação de Acesso à Nutrição, Inge Kauer. “O impacto da dieta na saúde é maior que o do tabaco, do álcool, das drogas, da poluição do ar; é muito claro que a dieta é um fator chave, por isso é crucial que tenhamos uma dieta melhor. É fundamental que as indústrias tenham um papel fundamental em oferecer opções melhores.”

De acordo com os especialistas que fazem periodicamente o ranking das indústrias de acordo com sua contribuição a uma alimentação mais saudável afirmam que a situação já melhorou muito. Várias indústrias tomaram a iniciativa de reduzir, por exemplo, os porcentuais de sal, açúcar e gordura nos alimentos. Também aumentaram a presença de frutas, vegetais, grãos e fibras, além de fortificar muitos produtos com vitaminas e minerais.

“É alarmante que menos de um terço dos produtos estudados sejam classificados como saudáveis”, afirma o presidente interino da Fundação de Acesso à Nutrição, Paulus Verschuren. “As empresas podem e devem fazer mais para desenvolver e comercializar produtos mais saudáveis. Nós as instamos a adotar as medidas necessárias.”

Índice. A Nestlé encabeça o Índice de Acesso à Nutrição de 2018, como a empresa que mais adotou medidas positivas para uma alimentação saudável em todos os critérios avaliados, marcando 68 pontos em 100.

“A classificação reflete o compromisso e a melhora contínua que vem sendo realizada pela Nestlé ao longo dos anos no enfrentamento dos desafios globais da obesidade e desnutrição”, informou a empresa em comunicado.  A multinacional frisa que, somente no Brasil, entre 2014 e 2017, foram reduzidas em seus produtos 300 toneladas de sódio, 14 mil toneladas de açúcar e 5 mil toneladas de gorduras saturadas.

A Fundação de Acesso à Nutrição listou em seu índice as 22 maiores indústrias de alimentos e bebidas do mundo. Elas são responsáveis pela venda de US$ 500 bilhões por ano em mais de 200 países. Seus produtos, informa a ONG holandesa, têm um papel importante e crescente na dieta de milhões de pessoas em todo o globo. O segundo lugar no ranking é da Unilever, com 67 pontos, e, o terceiro, da Danone, com 63 pontos.

“Damos as boas vindas ao último Índice Global de Acesso à Nutrição e ao claro progresso feito pela indústria no combate à obesidade e à desnutrição”, sustentou a Unilever em nota. “Nosso bom posicionamento no ranking demonstra nosso consistente esforço no caminho da nutrição saudável, do marketing responsável e do bem estar de nossos empregados. Embora estejamos satisfeitos com nosso progresso, reconhecemos que sempre há mais a fazer.”

A Danone foi procurada, mas não respondeu. No entanto, a empresa se manifestou no próprio relatório: “Na Danone, estamos constantemente procurando alinhar nossa visão do mundo, nossa missão e nosso negócio: acreditamos que temos uma responsabilidade especial de ajudar e apoiar as pessoas na adoção de práticas de alimentação mais saudáveis e mais sustentáveis e estamos constantemente expandindo nosso portfólio de marcas e produtos para atingir esse objetivo”, afirmou a empresa. “Esses e outros avanços mostram que muito mais pode ser feito”, conclui a diretora executiva da Fundação Acesso à Nutrição, Inge Kauer.

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